Os Miseráveis
II — A obediência de Martin Verga
No entanto, os olhos procuravam avidamente penetrar por aquela abertura que se
nha feito naquele lugar vedado a todas as vistas. Por entre o vácuo profundo que envolvia aquela forma ves da de luto, tentavam os olhos dis nguir o que havia em roda da aparição. Ao cabo de muito pouco tempo, conhecia-se que se não via nada. O que se via era a escuridão, o vácuo, as trevas, uma neblina de Inverno, de envolta com o vapor de um túmulo, uma espécie de paz que assustava, um silêncio de que não recolhia coisa alguma, nem mesmo alguns suspiros, uma sombra em que se não dis nguia nada, nem mesmo alguns fantasmas.
O que se via era o interior de um claustro.
Era o interior daquela melancólica e severa casa chamada o convento das bernardas da Adoração Perpétua. Aquele camarote era o locutório. A primeira voz que vos nha falado era a voz da rodeira, que estava sempre sentada, imóvel e silenciosa do outro lado da parede, ao pé da abertura quadrada, defendida como por uma dupla viseira, pela grade de ferro e pela chapa crivada de mil buracos.
A escuridão em que se achava mergulhado o camarote gradeado, provinha de o locutório não ter janela nenhuma do lado do mundo, tendo uma do lado do convento.
Não deviam olhos profanos ver nada daquele lugar sagrado.
Todavia, para além daquela sombra havia alguma coisa; havia uma luz; havia uma vida naquela morte. Posto que este convento fosse o mais vedado de todos, vamos tentar penetrar nele, acompanhado do leitor, e dizer, até os devidos termos, coisas que os contistas nunca viram e, por consequência, nunca disseram.
II — A obediência de Martin Verga Este convento, que em 1824 exis a havia já muitos anos na rua do Picpus, era uma comunidade de freiras bernardas da obediência de Martin Verga.
Por consequência, as freiras deste convento estavam na dependência, não de Clairvaux, como as bernardas, mas de Cister, como as benedi nas. Por outras palavras, estas freiras eram súbditas não de S. Bernardo, mas de S. Bento.
Todos os que mais ou menos têm manuseado os in folios sabem que Mar n Verga fundou em 1425 uma congregação de bernarbas-beneditinas, sendo Salamanca a sede da ordem e Alcalá a sua filial.
Esta congregação ramificava-se por todos os países católicos da Europa.
Não têm nada de insólito na igreja latina estas garras de uma ordem sobre outra.
Para não falarmos senão da ordem de S. Bento, que é a de que aqui se trata, diremos que a esta ordem estão sujeitas, sem contar a obediência de Mar n Verga, quatro congregações: duas em Itália, o Monte Cassino e Santa Jus na de Pádua, duas em França, Cluny e S. Mauro; e nove ordens, Valombrosa, Grammont, os celes nos, os camaldulos, os cartuxos, os humilhados, os olivetanos, os silvestrinos, e, finalmente, os cistercenses; porque Cister, tronco para outras ordens, é apenas um ramo para S. Bento.
Cister data de S. Roberto, abade de Molesne na diocese de Langres em 1098. Ora, foi em 529, que o diabo re rado para o deserto de Subiaco (estava velho. Ter-se-ia ele feito eremita?) foi expulso do an go templo de Apolo, onde permanecia reputado como S.
Bento, que então tinha dezassete anos.
Depois da regra dos carmelitas, que andam descalços, trazem um rolo de vimes ao pescoço e nunca se sentam, a regra mais dura é a das bernarbas-benedi nas de Mar n Verga. Estas freiras andam ves das de preto com um escapulário, que, segundo a prescrição de S. Bento, sobe até à barba. O seu hábito consiste num ves do de sarja de mangas largas, num grande véu de lã no escapulário, que sobe até à barba, cortado em esquadria sobre o peito, e no capelo, que desce até os olhos. É tudo preto, excepto o capelo, que é branco.
As noviças trazem o mesmo hábito, porém todo branco. As professas, além disto, trazem um rosário à cinta. As bernarbas-benedi nas de Mar n Verga pra cam a Adoração Perpétua, como as benedi nas, chamadas do San ssimo Sacramento, as quais no princípio deste século nham duas casas em Paris, uma no Templo, outra na rua Nova de Santa Genoveva. As religiosas, porém, de quem nos ocupamos, pertenciam a uma ordem inteiramente diferente da das freiras do San ssimo Sacramento, enclausuradas na rua Nova de Santa Genoveva e no Templo. Entre uma e outra havia numerosas diferenças na regra e no trajo. As bernardas benedi nas do Pe t-Picpus traziam escapulário preto e as benedi nas do Sacramento da rua Nova de Santa Genoveva traziam-no branco, e além disto, uma custódia vermelha ou de cobre doirado ao peito, de três polegadas de altura, pouco mais ou menos, custódia que as religiosas do Pe t-Picpus não traziam. A Adoração Perpétua, comum à casa do Pe t-Picpus e à casa do Templo, deixava, todavia, as duas ordens perfeitamente dis ntas. Somente nesta prá ca é que entre as freiras do San ssimo Sacramento e as bernardas de Mar n Verga havia parecença, do mesmo modo que no estudo e glorificação de todos os mistérios rela vos à infância, à vida e à morte de Jesus Cristo e à Virgem é que exis a semelhança entre duas ordens inteiramente distintas e por vezes inimigas: a congregação do Oratório de Itália estabelecida em Florença por Filipe de Nery, e a congregação do Oratório de França estabelecida em Paris por Pedro de Bérule. O Oratório de Paris pretendia a primazia, visto que Filipe de Nery, era apenas santo e Bérule cardeal.
Voltemos, porém, às durezas da regra espanhola de Martin Verga.
As bernardas-benedi nas desta obediência guardam abs nência de carne todo o ano, jejuam na Quaresma e em muitos outros dias que lhes são especiais, levantam-se no primeiro sono, desde a uma hora da noite até às três, para lerem o breviário e cantarem ma nas, deitam-se em lençóis de sarja em qualquer estação e em cima das palhas, não fazem uso de banhos, nunca acendem lume, disciplinam-se todas as sextas-feiras, observam a regra do silêncio, não falam umas com as outras senão nas horas de recreio, que são muito curtas, trazem camisas de burel, durante seis meses, desde 14 de Setembro, dia da exaltação da Santa Cruz, até à Páscoa. Estes seis meses representam uma moderação, pois a regra diz todo o ano; mas esta camisa de burel, nos calores do es o insuportável, produzia febres e espasmos nervosos, de modo que foi preciso restringir o seu uso. Mesmo com esta modificação suave, quando as religiosas, a 14 de Setembro, vestem de novo aquela camisa, têm três ou quatro dias de febre. Os seus votos, votos sobremodo agravados pela regra, são obediência, cas dade e estabilidade na clausura.
De três em três anos procede-se à eleição da prioresa, feita pelas madres vocais, assim
chamadas por terem voto em capítulo. Uma prioresa não pode ser reeleita mais que duas vezes, o que fixa em nove anos a duração do mais longo reinado possível de uma prioresa.
Estas religiosas não vêem nunca o padre celebrante que lhe é oculto sempre por uma sarja estendida diante, que tem nove pés de altura. Ao sermão, quando o pregador está na capela, baixam o véu sobre o rosto; devem sempre falar baixo e andar com os olhos pregados no chão e a cabeça inclinada. Um único homem pode entrar no convento — é o arcebispo da diocese.
Há ainda outro, o jardineiro, porém este é sempre um velho, e a fim de que ele ande constantemente só no jardim e as religiosas sejam adver das da sua presença, traz uma campainha no joelho.
Estas religiosas estão sujeitas à prioresa e a sua sujeição é absoluta e passiva. É a sujeição canónica em toda a sua abnegação. Como à voz de Cristo, ut voci Chris , ao primeiro gesto, ao primeiro sinal, ad nutum, ad primum signum logo com prazer, com perseverança, com uma espécie de obediência cega, prompte, hitariter, pet severanter, et cceca quadam obedien a, como a lima na mão do ar fice, quasi limam un manibus abri, não podendo ler nem escrever o que quer que seja sem expressa permissão, tegere vel scribere non adiscerif sem sine expressa superioris licentia.
Andam à roda, fazem cada uma por sua vez o que elas chamam a reparação.
Consiste a reparação em orar por todos os pecados, faltas, desordens, violações, iniquidades e crimes que na terra se cometem. Durante doze horas consecu vas, desde as quatro da tarde até às quatro da manhã, ou das quatro da manhã até às quatro da tarde, a irmã que faz a reparação está de joelhos nas pedras diante do San ssimo Sacramento, de mãos erguidas e corda ao pescoço. Quando de todo em todo já não pode, prostra-se de bruços, com o rosto no chão e os braços em cruz; nisto consiste todo o seu alívio. Nesta a tude, ora por todos os culpados do universo. Esta prá ca chega a tocar as raias do sublime.
Como este acto tem lugar diante de um poste, em cima do qual arde uma vela de cera, indis ntamente se diz fazer a reparação ou estar no poste. Preferem mesmo as religiosas esta última expressão, que encerra em si uma ideia de suplício e aviltamento.
Fazer a reparação, é uma função em que toda a alma se absorve. A religiosa, posta em oração diante do poste, não se voltará, ainda que nas suas costas rebente um trovão.
Além disto, uma religiosa está sempre de joelhos diante do San ssimo Sacramento e cada estação dura uma hora, rendendo-se umas às outras, como os soldados de sentinela. Nisto consiste a Adoração Perpétua.
Tanto as prioresas como as simples madres adoptam sempre nomes cheios de uma gravidade par cular, que recordam, não os santos ou már res da igreja cristã, mas alguns dos momentos da vida de Jesus Cristo, como, por exemplo, a madre Na vidade, a madre Conceição, a madre Apresentação, a madre Paixão. Cumpre notar, porém, que não são proibidos os nomes de santos.
Alguém que as visita nunca lhes vê mais do que a boca.
Todas têm os dentes amarelos. Jamais entrou no convento uma escova de dentes.
A limpeza dos dentes fica no cimo de uma escada, em cujos degraus se acha a perda da alma.
Elas não dizem de coisa alguma — nem meu nem minha. Não têm nada propriamente seu, nem devem gostar de coisa nenhuma. De tudo dizem nosso, como o nosso rosário; se falassem da camisa, diriam — a nossa camisa. Às vezes afeiçoam-se a algum pequeno objecto, a um livro de horas, a uma relíquia, a uma medalha benzida; porém, mal conhecem que principiam a gostar desse objecto, devem-no dar. Lembram-se do dito de Santa Teresa, a quem uma grande dama, na ocasião em que entrava para a ordem, dizia: Madre, dê-me licença de mandar buscar uma Bíblia em que tenho muito gosto.
Ah! Vós tendes gosto em alguma coisa! Nesse caso não entreis nesta casa!
A quem quer que seja é proibido ter um quarto, uma habitação a que possa chamar sua. Vivem em celas abertas. Quando se encontram, diz uma: Bendito e louvado seja o Santíssimo Sacramento do altar! E a outra responde: Para sempre. A mesma cerimónia se repete, quando uma bate à porta da outra. Mal a da parte de fora toca na porta, ouve-se do outro lado uma voz dizer precipitadamente: Para sempre!
Como todas as prá cas, isto torna-se maquinal com o uso, de modo que às vezes diz uma: Para sempre, antes da outra ter tempo de dizei: Bendito e louvado seja o Santíssimo Sacramento do altar! O que na verdade é sobremodo demorado.
Entre as freiras da Visitação, a que entra diz: Ave Maria e a outra responde: Gra a plena. São os seus bons dias, que efectivamente são «cheios de graça».
De hora em hora, o sino da igreja do convento dá três badaladas suplementares, e a este sinal, prioresa, madres vocais, professas, conversas, noviças, postulantes, todas interrompem o que estão a dizer, a fazer ou a pensar e dizem todas à uma, se são cinco horas, por exemplo: Às cinco e a toda a hora, bendito e louvado seja o San ssimo Sacramento do altar! Se são oito: Às oito e a toda a hora, etc., e assim sucessivamente, consoante a hora que é.
Este costume, que tem por fim quebrar o pensamento, voltando-o de con nuo para Deus, existe em muitas comunidades, com diferença somente na fórmula. Assim, as do Menino Jesus, dizem: Agora e sempre o amor de Jesus inflame o meu coração!
As benedi nas-bernardas de Mar n Verga, enclausuradas há cinquenta anos no Pe t-Picpus, cantam os o cios numa salmodia grave, cantochão puro, e sempre em voz cheia, todo o tempo que dura o o cio. Em todos os lugares em que há um asterisco no missal fazem uma pausa e dizem em voz baixa: Jesus, Maria, José. No o cio dos defuntos cantam em tom tão baixo, que mal pode descer tanto uma voz de mulher.
Daqui resulta um efeito trágico, que apavora a alma.
Para sepultura da comunidade haviam as freiras do Pe t-Picpus mandado fazer um carneiro por baixo do altar-mor. O governo, porém, como elas dizem, não permi u que o carneiro recebesse os féretros, e por consequência, nham de sair do convento, quando morriam, o que as afligia e consternava como uma infracção.