Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 294 de 359

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Os Miseráveis

III — Luz e sombra

Os pássaros começavam a esvoaçar, soltando gritos alegres. A casa alta que formava o fundo da barricada, como ficava voltada para o Oriente, reflec a no telhado um clarão cor-de-rosa. No pos go do terceiro andar via-se ainda a cabeça pendida do homem morto por Le Cabuc, com os grisalhos cabelos agitados pela viração da manhã.

— Estou sa sfei ssimo por ver o archote apagado — dizia Courfeyrac a Feuilly. — Já estava farto de ver aquele archote açoitado pelo vento. Parecia que estava com medo! A luz dos archotes é como a prudência dos cobardes: alumia mal, porque treme.

O alvorecer do dia desperta os espíritos do mesmo modo que as aves; por isso, todos conversavam.

Joly, ao ver um gato em cima de um telhado, pôs-se a fazer filosofia.

— Que é o gato? — exclamava ele. — É um correc vo. Deus fez o rato, porém depois arrependeu-se e disse: «Ora, fiz uma asneira!» E fez o gato. O gato é a errata do rato. O

gato e o rato são a prova revista e correcta da criação.

Combeferre, rodeado de estudantes e operários, falava dos mortos, de Jean Prouvaire,

Bahorel, Mabeuf, e até de Le Cabuc e da tristeza severa de Enjolras.

— Harmodio e Aristogiton — dizia ele — Bruto, Chéréas, Stephano, Cromwell, Carlota Corday e Sand, todos veram, depois do golpe o seu momento de angús a. O nosso coração é tão vacilante, a vida humana um tal mistério, que ainda num assassínio cívico, num assassínio libertador, se os há, o remorso de ter ferido um homem excede o prazer de ter sido útil ao género humano.

E, apenas um instante depois disto, Combeferre, por uma transição suscitada pelos versos de Jean Prouvaire, com essa volubilidade de assuntos peculiar aos que conversam, fazia o paralelo dos tradutores das Geórgias, comparando Raux com Cournaud, Cournaud com Delille, apontando algumas passagens traduzidas por Malfilâtre, especialmente os prodígios da morte de César, palavra que fazia voltar o assunto da conversa outra vez para Bruto.

— César — dizia Combeferre — caiu porque devia cair, Cícero foi severo com César, mas não sem razão. A severidade de Cícero não era a diabrite. Quando Zoilo insulta Homero, quando Mevio insulta Virgílio quando Vise insulta Molière, quando Pope insulta Shakespeare, quando Freron insulta Voltaire, isto não é mais do que a execução de uma an ga lei de inveja e ódio; os génios atraem a injúria, os grandes homens são sempre mais ou menos mordidos. Porém, Zoil e Cícero são duas en dades diversas. Cícero é um jus ceiro pelo pensamento, do mesmo modo que Bruto é um jus ceiro pela espada.

Pela parte que me pertence, censuro este modo de fazer jus ça pela espada porém a an guidade admi a-o. César, violador do Rubicon, conferindo, como senhor supremo, as dignidades que procediam do povo, não se levantando à entrada do senado, fazia, como diz Eutrópio, coisa de rei e quase de rano, regia ac pesrfe tyrannica. Era um grande homem, feliz ou infelizmente; a lição é mal elevada. Comovem-me menos as vinte e três feridas que ele recebeu do que o escarro na fronte de Jesus Cristo César é apunhalado pelos senadores; Cristo é esbofeteado pelos lacaios. Pelo excesso do ultraje, conhece-se o Deus.

Bossuet, ao alto de um monte de pedras, de onde dominava o grupo dos que conversavam, exclamava, ao mesmo tempo, agitando a clavina que tinha na mão:

— Ó Cydatheneo, ó Myrrhino, ó Probalyntho, graças da Aean de! Ah, quem me dera pronunciar os versos de Homero como um grego de Laurio ou de Edaptéon!