Os Miseráveis
V — Tranquilidade
Uma circunstância se deu que me fez impressão. O homem era o que já lhe disse. Pois meu irmão, não só durante a ceia, mas em todo o tempo que es veram juntos antes de se recolherem, exceptuando algumas palavras a respeito de Jesus, quando ele entrou, não proferiu uma única palavra que pudesse recordar ao homem o que nha sido, nem o que ele próprio era. Fora, na aparência, excelente ocasião de pregar um pouco e de fazer sen r ao forçado o predomínio do bispo, imprimindo-lhe assim a marca da passagem pela sua sede.
Para qualquer outro que assim vesse na mão aquele desgraçado, era bem cabida a ocasião de lhe dar, ao mesmo tempo, o alimento do corpo e do espírito, fazendo-lhe alguma admoestação com grande cabedal de moral e bons conselhos, ou de mostrar comiseração, exortando-o a comportar-se melhor para o futuro. Meu irmão nem sequer lhe perguntou de que terra era, nem a história da sua vida, pois nela se dera uma falta e
meu irmão parecia que evitava quanto pudesse recordar-lha. A tal extremo levava isto, que uma vez, falando dos montanheses de Pontarlier que têm um suave trabalho perto do céu e que, acrescentava ele, são felizes porque são inocentes, calou-se de repente, receando que estapalavra, a seu pesar proferida, ofendesse o homem em alguma coisa.
À força de reflexão, parece-me ter compreendido o que se passava no coração de meu irmão. Ele entendia, sem dúvida, que o homem chamado Jean Valjean nha em demasia presente no espírito a sua miséria, que o melhor seria distraí-lo dela e fazê-lo persuadir, embora por um só instante, que era uma pessoa como outra qualquer, tratando-o a ele como tratava a toda a gente.
Não acha, minha amiga, um não sei quê de evangélico nesta delicadeza que se abstém de prá cas, de moral, de alusões, e não lhe parece que a melhor compaixão para com o homem que tem uma ferida é não lhe tocar nela? Pareceu-me ser este o motivo secreto por que meu irmão assim procedia.
Em todo o caso, o que posso assegurar, é que se ele teve todas estas ideias, nem a mim as deu a conhecer; conservou-se desde o princípio ao fim, segundo o seu costume, ceando com o tal Jean Valjean com o mesmo ar e as mesmas atenções que teria, se se achasse presente o senhor Gedeão Preboste ou o prior da freguesia.
No fim, quando já estávamos na sobremesa, bateram à porta. Era a tia Gerbaud com o filhinho nos braços.
Meu irmão beijou a criancinha na testa e pediu-me quinze soldos para os dar à a Gerbaud. O homem quase não dava atenção ao que se passava. Não proferia uma só palavra e dava indícios de estar muito cansado.
Apenas a pobre Gerbaud saiu, meu irmão deu graças e voltou-se depois para o homem, dizendo-lhe:
— Agora trate de descansar, que lhe há-de ser necessário.
Magloire levantou a mesa num instante e, entendendo que devíamos re rar-nos para deixar o hóspede à sua vontade, subimos ambas para os nossos quartos. Todavia, um instante depois, mandei Magloire ir deitar sobre a cama do pobre homem uma pele de cabrito montês da Floresta Negra, que eu nha no meu quarto. As noites vão frias e a pele aquece muito. Pena é que ela esteja tão velha, tem-lhe caído o pêlo quase todo. Foi comprada por meu irmão no tempo em que ele esteve na Alemanha, em To lingen, próximo à nascente do Danúbio, assim como a faquinha de cabo de marfim de que me sirvo à mesa.
Magloire voltou logo a seguir e fomos ambas rezar na sala onde estendemos a roupa e depois recolhemo-nos aos nossos quartos sem proferir mais uma palavra.
V — Tranquilidade Monsenhor Bemvindo, depois de se ter despedido da irmã, pegou num dos cas çais de prata que estavam em cima da mesa e entregou o outro ao seu hóspede, dizendo-lhe ao mesmo tempo: