Os Miseráveis
III — Javert satisfeito
A criança afastou-se pelo mesmo modo porque se aproximara, a voz deixou de se ouvir. Fan ne escutou ainda por algum tempo, depois o rosto anuviou-se-lhe e o senhor Madelaine ouviu-a dizer em voz baixa:
— Sempre é muito mau este médico em não me deixar ver a minha filha! Se ele tem tão má cara!
Todavia, o fundo risonho das suas ideias reapareceu. Com a cabeça no travesseiro continuou a falar:
— Como nós vamos ser felizes! Em primeiro lugar havemos de ter um jardinzinho, o senhor Madelaine prometeu-mo. A minha filha há-de brincar no jardim. Ela já deve conhecer as letras, hei-de fazê-la soletrar. Como hei-de gostar de a ver correr atrás das borboletas! E depois há-de ir à sua primeira comunhão. É verdade! Quando irá ela à primeira comunhão? Um... dois... três... quatro... tem sete anos. Há-de levar um véu branco e meias abertas, há-de parecer uma mulherzinha. Oh, minha boa irmã, então não sou eu doida?! Pensar já na primeira comunhão da minha filha!
E, dizendo isto, riu-se.
Madelaine largara a mão de Fan ne. Escutava o que ela dizia como se escuta o sibilar do vento, com os olhos no chão e o espírito mergulhado em reflexões sem fundo. A pobre mãe calou-se de repente, o que o fez erguer maquinalmente a cabeça. Fan ne tornara-se medonha. Não só não falava, mas parecia nem respirar, estava quase sentada na cama, o ombro magríssimo saía-lhe da camisa, o rosto pouco antes radiante, estava l í vi d o e os olhos, parecendo ainda maiores por efeito do terror, fitavam-se na extremidade oposta do quarto, como se ali estivesse algum objecto tremendo.
— Jesus! — exclamou Madelaine. — O que tem, Fantine?
A doente não lhe respondeu, nem afastou os olhos do que quer que era que julgava ver e, tocando-lhe no braço com uma das mãos, fez-lhe com aoutra sinal para que olhasse para trás de si.
Madelaine voltou-se e viu Javert.
III — Javert satisfeito
Eis o que sucedera.
Dava meia-noite quando Madelaine saiu do tribunal de Arras. Tinha chegado à estalagem justamente a tempo de par r na mala-posta, da qual, como é sabido, tomara um lugar. Pouco antes das seis da manhã, chegara a Montreuil-sur-mer e o seu primeiro cuidado fora lançar no correio a sua carta para Laffite e em seguida dirigir-se à enfermaria para ver Fantine.
Apenas, porém, ele se ausentara da sala da audiência, o delegado, voltando a si do primeiro arrebatamento, tomou a palavra para deplorar o acto de loucura do respeitável maire de Montreuil-sur-mer, declarando que as suas convicções em nada nham sido modificadas por aquele extraordinário incidente, que mais tarde se esclareceria, e requerera entretanto a condenação de Champmathieu, que era evidentemente o verdadeiro Jean Valjean. A persistência do delegado estava em visível contradição com o sen mento de todos, do público, do juiz e dos jurados. O advogado vera pouco trabalho para refutar esta arenga e estabelecer que, depois das revelações do senhor Madelaine, isto é, do verdadeiro Jean Valjean, se achava completamente prejudicado aquele processo e que o júri já não nha na sua presença senão um inocente. Ao advogado, que disto fizera objecto para alguns epifonemas, infelizmente pouco originais, sobre os erros judiciários, etc., etc., juntara-se o presidente no seu sumário e, daí a poucos minutos, Champmathieu era plenamente absolvido pelo júri.
Todavia, o delegado necessitava dum Jean Valjean, escapando-lhe Champmathieu, lançou mão de Madelaine.
Imediatamente depois da soltura de Champmathieu, encerrou-se o delegado com o presidente e conferenciaram ambos sobre a necessidade de se apoderarem da pessoa do maire de Montreuil-sur-mer. Estas palavras foram escritas pelo delegado na minuta do seu relatório ao procurador-régio.
Passada a primeira impressão, o presidente fez poucas objecções. Era preciso que a jus ça seguisse o seu curso. E depois, para se dizer tudo, o presidente, apesar de ser um homem bondoso e bastante inteligente, era ao mesmo tempo muito realista, e por isso sen ra-se agastado por o maire de Montreuil-sur-mer ter dito imperador e não Bonaparte, quando falara do desembarque em Cannes.
A ordem de prisão foi logo expedida. O delegado mandou-a imediatamente para Montreuil-sur-mer por um correio, a toda a brida, ao inspector de polícia Javert.
Como se sabe, Javert voltara para Montreuil-sur-mer apenas fizera o seu depoimento.
Javert levantara-se da cama havia pouco, quando o correio lhe entregou o mandato de prisão.
O próprio correio era um empregadode polícia muito entendido, o qual, em duas palavras, pôs Javert ao facto de quanto sucedera em Arras. A ordem de prisão assinada pelo delegado do procurador-régio era concebida nestes termos: Ordeno ao inspector Javert que prenda o senhor Madelaine, maire de Montreuil-sur-mer, que na audiência de hoje foi reconhecido como o forçado livre Jean Valjean.
Quem não conhecesse Javert e que o vesse visto no momento em que entrou na antecâmara da enfermaria não poderia adivinhar coisa alguma do que se passava, e ter-lhe-ia achado o aspecto mais natural que poderia imaginar-se. Estava tranquilo, frio, grave, com os cabelos grisalhos perfeitamente penteados, e acabara de subir a escada vagarosamente, como costumava. Mas quem o conhecesse bem e o examinasse atentamente teria estremecido. A fivela da sua gravata de coiro, em vez de estar na nuca, estava ao pé da orelha esquerda, sinal de agitação inaudita.