Os Miseráveis
XI — Reaparece o número 9.430 e como Cosette o ganha na lotaria
«Que diabo de homem este!» disse ele consigo.
Fez então o que faz o lobo deu uma sacudidela à ratoeira para se desprender. A audácia já uma vez lhe tinha produzido bom resultado.
— Senhor de quem não sei o nome — disse ele resolutamente e pondo desta feita os modos respeitosos de parte — ou me dá mil escudos ou eu torno a levar a pequena comigo.
O desconhecido, porém, disse tranquilamente para a criança:
— Vamos embora, Cosette.
Em seguida deu-lhe a mão esquerda e com a direita apanhou o cajado do chão.
Thenardier notou a grossura do pau e a solidão do lugar e julgou conveniente não pôr embargos à partida dos dois.
O homem meteu-se pelo bosque com a pequena, deixando o taberneiro imóvel e aturdido, e enquanto se afastavam, ele contemplava-lhe a largura dos ombros, um tanto arqueados e a desmesurada grandeza dos punhos.
Depois, voltando os olhos para si mesmo, via os seus braços débeis e as suas magras mãos.
«Sempre é preciso ser muito bruto», dizia ele consigo, «para não ter trazido a
espingarda, sabendo eu que vinha à caça».
O estalajadeiro, porém, nem assim julgou dever abandonar a presa.
«Espera, que eu também agora vou ver para onde ele vai!»
E principiou a segui-los a distância. Ficavam-lhe nas mãos duas coisas uma ironia, o sujo bocado de papel com a assinatura de Fan ne, e uma consolação, os mil e quinhentos francos.
O homem conduzia Cose e na direcção de Livry e Bondy, caminhando lentamente, com a cabeça curvada, numa a tude de reflexão e tristeza. Auxiliado pela luz do sol, que penetrava livremente no bosque por entre as árvores, que o Inverno despojava da folha, Thenardier não os perdia de vista, conquanto lhes fosse de longe no encalço. De vez em quando, o homem voltava-se, a ver se alguém o seguia. De súbito, avistou Thenardier e embrenhou-se com Cose e numa moita cerrada de árvores, por entre a qual podiam desaparecer ambos aos olhos de Thenardier.
— Diacho! — disse este e apertou mais o passo.
Como a espessura da moita o obrigara a aproximar-se mais deles, Thenardier, vendo que o homem, ao chegar ao mais fechado da moita, se voltava para trás, tentou esconder-se entre os ramos, porém, apesar dos esforços, não pôde conseguir que o homem o não avistasse. Este, porém, depois de olhar para ele com ar inquieto, abanou a cabeça e con nuou o seu caminho. O estalajadeiro tornou de novo a segui-los por espaço de duzentos ou trezentos passos. De súbito, o homem voltou-se outra vez e avistou o estalajadeiro. Desta feita, porém, olhou para ele com tão sombria expressão no olhar, que Thenardier julgou «inútil» ir mais adiante e voltou para trás.
XI — Reaparece o número 9.430 e como Cosette o ganha na lotaria Jean Valjean não morrera.
Ao cair ao mar, ou antes, ao a rar-se a ele, livre, como já dissemos, da cadeia de ferro que trazem os forçados e que lhe podia servir de embaraço, nadou por baixo de água até ao ancoradouro em que estava amarrada uma embarcação, dentro da qual achou meio de estar escondido.
À noite deitou-se outra vez a nado e arribou à costa a pouca distância do cabo Brun, onde, como não era o dinheiro o que lhe faltava, pôde arranjar roupa. Era então uma tasca nos arredores de Balaguier o guarda-roupa dos forçados evadidos, especialidade lucra va. Após isto, Jean Valjean, como todos esses tristes fugi vos que procuram fazer perder o rasto à vigia da lei e à fatalidade social, seguiu um i nerário obscuro e ondulante. O primeiro asilo que encontrou foi em Pradeaux, nas imediações de Beausset. Em seguida dirigiu-se para Grand-Villard, junto a Briançon, nos Altos-Alpes.
Fugida receosa e às apalpadelas, caminho de toupeira, cujas ramificações ninguém conhece. Conseguiu-se mais tarde achar alguns ves gios da sua passagem, por Aí, no território de Civrieux, pelos Pirinéus em Accons, no sí o chamado a Granja de Doumecq, pelas imediações do lugarejo de Chavailles e pelos arredores de Perigueux, em Brunies, cantão da Capella Gonaguet, até que chegou a Paris.
O seu primeiro cuidado, apenas chegara a Paris, fora comprar roupa de luto para uma pequena de sete a oito anos e depois arranjar um domicílio. Feito isto, dirigira-se a
Montfermeil.
Como hão-de estar lembrados, Jean Valjean fizera, por ocasião da sua precedente evasão, uma viagem misteriosa a Mon ermeil ou aos seus arredores, da qual a jus ça tivera alguma luz.
Todavia, como o julgavam morto, tornava-se mais espessa a obscuridade que sobre ele se formara. Em Paris chegou-lhe às mãos um dos jornais, que registavam o facto da sua morte e sentiu-se tranquilizado e quase em paz, como se realmente tivesse morrido.
No fim do mesmo dia em que Jean Valjean arrancara Cose e das garras dos Thenardier, voltou para Paris. Ao cair da noite, transpunha a barreira de Monceaux, acompanhado pela criança, com a qual se meteu num cabriole que os conduziu à esplanada do Observatório. Chegado aí, Jean Valjean apeou-se, pagou ao cocheiro, pegou na mão de Cose e e dirigiram-se ambos, no meio da cerrada escuridão da noite, para o boulevard do Hospital pelas desertas ruas que ficam próximas à Ourcine e à Glacière.