Os Miseráveis
IV — Tinta que, em vez de escurecer, aclara
Chegado a este ponto, o infeliz interrompeu-se, deixou cair a pena da mão, soltou um desses soluços angus ados que às vezes lhe rebentavam como que do fundo do coração,
encostou a cabeça entre as mãos e pôs-se a meditar.
— Oh! — exclamava ele a sós consigo gritos angus osos, só ouvidos de Deus. —
Acabou-se tudo! Nunca mais a tornarei a ver! Foi um sorriso que passou por mim! E
deixar o mundo, separar-me dela para sempre, sem, ao menos, a tornar a ver!... Oh, meu Deus! Deixai que a veja um minuto, um instante, que lhe ouça a voz, que lhe toque o ves do; deixai-me fitar os olhos nela, nesse anjo, e depois a morte! Morrer nada é, o que é horrível é morrer sem a ver! Dar-me-ia um úl mo sorriso, dir-me-ia uma úl ma palavra! Isto fazia mal a alguém? Mas não! Acabou-se tudo, nunca mais a verei! Meu Deus! Meu Deus! Ver-me só neste extremo lance, morrer sem tornar a vê-la!
Neste momento, bateram à porta.
IV — Tinta que, em vez de escurecer, aclara
Naquele mesmo dia, ou para melhor dizer, naquela mesma tarde, levantara-se Mário da mesa e acabara de recolher ao seu gabinete para estudar um processo, quando Biscainho lhe entregou uma carta, dizendo-lhe:
— Está lá fora a pessoa que a escreveu.
Cosette tomara o braço do avô e fora dar um passeio pelo jardim.
Uma carta pode, como um homem, ter mau aspecto.
Papel grosso e dobras mal feitas; missivas tais, basta que se vejam para que desagradem. A carta que Biscainho entregara era deste género.
Mário recebeu-a. Cheirava a tabaco. Não há nada que desperte uma recordação como um cheiro. Mário reconheceu o cheiro do tabaco. Examinou o sobrescrito.
Lia-se nele: Ao senhor barão Pontmercy. Em sua casa.
O tabaco reconhecido, fez-lhe reconhecer a letra. Poderia dizer-se que o espanto causa relâmpagos. Mário sentiu-se como iluminado por um destes relâmpagos.
O olfacto, o misterioso despertador da memória, acabava de fazer reviver nele um mundo inteiro. Era, com efeito, aquele papel, a maneira de o dobrar, a tinta amarela; era inques onavelmente a letra conhecida, e sobretudo o mesmo cheiro de tabaco. Tinha diante de si a pocilga de Jondrette.
Assim — estranha cabeçada do acaso! — uma das duas pistas que tanto diligenciara achar, aquela pela qual ainda recentemente fizera tantos esforços e que julgara perdida para sempre, apresentava-se-lhe voluntariamente.
Abriu com ansiedade a carta e leu:
Senhor barão
Se o Ente Supremo me vesse dado talentos, teria podido ser o barão Thenard, membro do Ins tuto (Academia das Ciências), mas não o sou. Tenho apenas o mesmo nome que ele, e muito feliz serei se esta recordação me recomendar à excelência das suas bondades. O bene cio com que me honrar será recíproco.
Possuo um segredo concernente a um indivíduo que lhe está ligado. Desejando ter a honra de lhe ser útil, tenho este segredo à sua disposição. Dar-lhe-ei o meio simples de expulsar da sua honrada família este indivíduo que não tem direito de fazer parte dela, sendo a senhora baronesa, como é, de alto nascimento e jerarquia. O
santuário da virtude não poderia coabitar por mais tempo com o crime, sem abdicar.
Espero na antecâmara as ordens do senhor barão.
Com todo o respeito,
Thenard
Esta assinatura não era falsa. Era apenas abreviada.
No fim de tudo o anfiguri e a ortografia completavam a revelação. O atestado de
origem estava completo. Não era possível a mínima dúvida.
A sensação que Mário experimentou foi profunda.
Depois do movimento de surpresa, seguiu-se-lhe outro de sa sfação. Se achasse também o outro homem, aquele que o nha salvo, a ele, Mário, não teria mais nada a desejar.
Abriu uma gaveta da secretária, rou dela algumas notas do Banco, meteu-as no bolso, tornou a fechar a secretária e tocou a Campainha. Biscainho entreabriu a porta.
— Mande entrar — disse Mário.,
Biscainho anunciou:
— O senhor Thenard.
Entrou um homem.
Nova surpresa para Mário.
O homem que se apresentou era-lhe de todo desconhecido.
Este homem, já velho, nha volumoso nariz, o queixo me do na gravata, óculos verdes de quatro vidros, e os cabelos alisados na testa tocando quase as sobrancelhas como as cabeleiras dos cocheiros ingleses do high-life. Os cabelos eram grisalhos. Estava todo ves do de preto, com fato muito usado, mas limpo. Do bolso do colete pendia-lhe uma colecção de berloques, fazendo ali supor a existência dum relógio. Na mão nha um velho chapéu. Caminhava curvado, e esta curvatura aumenta ainda com a profundidade dos cumprimentos.
O que à primeira vista se notava era que a casaca daquele personagem, demasiadamente larga, apesar de abotoada com muito cuidado, não parecia feita para ele.
Aqui torna-se necessária certa digressão.
Havia naquela época em Paris, numa velha e repelente casa da rua Beautreillis, próximo do Arsenal, um engenhoso judeu, que nha por profissão transformar qualquer tratante em homem de bem. Não por muito tempo, o que seria assaz incomoda vo para o tratante. A mutação era feita à vista, por um dia ou dois, à razão de trinta soldos por dia, com fato simulando O mais possível o aspecto honesto de toda a gente. Este alugador de fatos era denominado o Troca os ratoneiros e vagabundos parisienses, como lhe não conheciam outro nome, nham-lhe dado este. O seu guarda-roupa era completo. Os farrapos com que Carregava os fregueses eram quase aceitáveis. Havia nisto especialidades e categorias; «em cada prego do armazém, pendia, usada e já no fio uma condição social; aqui o trajo do magistrado, ali o do sacerdote, mais além o do banqueiro, num canto o do militar, no outro o do literato, mais longe o do esta: dista, etc. Aquela Criatura era o guarda-roupa do imenso drama que a ladroagem desempenhava em Paris. O seu covil era o bas dor donde saía o roubo e onde se recolhia a pa faria. Qualquer gatuno esfarrapado chegava àquele guarda-roupa, dava trinta soldos e escolhia, segundo o papel que intentava representar naquele dia, o fato que lhe convinha; e quando descia a escada, já parecia alguém. No dia seguinte era o fato fielmente res tuído, e o Troca, que confiava tudo aos ladrões, não era nunca roubado. Estes fatos nham um inconveniente: «não ficavam bem», não eram feitos
para aqueles que os ves am; nuns ficavam colados, noutros flutuavam, e não se ajustavam em ninguém. Todo o tratante que ultrapassava a média humana para mais ou para menos, achava-se mal acomodado nos fatos do Troca. Era preciso não ser muito magro nem muito gordo. O Troca só previra os homens de corpulência ordinária. Tomara a medida à espécie na pessoa do primeiro larápio que lhe aparecera, nem gordo nem magro, nem alto nem baixo. Daqui as adaptações, muitas vezes di ceis, de que os fregueses do Troca se saíam como podiam. O mal era para as excepções! O fato de estadista, por exemplo, preto de alto a baixo, e por consequência apresentável, teria ficado muito largo a Pi , muito apertado a Casitekicala. O Vestuário de homem de Estado era designado do modo seguinte, no Catálogo do Troca; copiámos fielmente:
«Casaca preta, calça de lã preta, colete de seda, botas e roupa branca». À margem lia-se: Ex-embaixador, e uma nota que igualmente transcrevemos: «Numa caixa separada uma cabeleira convenientemente frisada, óculos verdes, berloques e «dois canudinhos de pena, enrolados em algodão». Tudo isto pertence ao estadista ex-embaixador. Este fato, se assim se pode dizer, estava todo ele extenuado; as costuras mostravam-se esbranquiçadas, num dos cotovelos esboçava-se vagamente uma casa; além disto faltava na casaca um botão dos do peito; mas isto não valia nada, porque a mão do homem de Estado, devendo estar sempre me da no peito da casaca sobre o coração; era incumbida de ocultar a ausência do botão.
Se Mário fosse familiar com as ins tuições ocultas de Paris, teria desde logo reconhecido no corpo da visita que Biscainho acabava de lhe apresentar no gabinete, o fato do homem de Estado, pertencente ao Troca.
A desilusão de Mário vendo entrar um homem diferente do que esperava, tornou-se desfavorável para o recém-chegado. Examinou-o desde os pés à cabeça, enquanto o personagem se inclinava desmedidamente, e perguntou-lhe num tom breve:
— O que deseja o senhor?
O homem respondeu com um rictos amável de que o sorriso acariciador de um crocodilo daria alguma ideia.
— Parece-me impossível que não tenha já do a honra de encontrar em sociedade o senhor barão. Parece-me tê-lo par cularmente visto, há já alguns anos, em casa da senhora princesa Bagra om e nas salas de sua senhoria o visconde Dombray, par de França.
É sempre boa táctica na tratantice o mostrar conhecer-se alguém que se não conhece.
Mário conservava-se atento ao falar daquele homem. Seguia-lhe o acento e o gesto, mas o seu assombro crescia cada vez mais; a pronúncia era nasal e absolutamente diferente da que esperava ouvir. Estava de todo desnorteado.
— Não conheço a princesa Bragra on, nem o senhor Dombray — disse ele. — Nunca pus os pés na casa de um nem de outra.
A resposta era enfadada. O personagem, gracioso apesar disso, insistiu;
— Então foi talvez em casa de Chateaubriand, que eu vi o senhor barão! Conheço muito bem Chateaubriand, é muito amável. Quantas vezes me diz ele: Então, meu caro amigo Thenard... não toma um cálice de vinho na minha companhia?
A fisionomia de Mário tornava-se cada vez mais severa.
— Não ve nunca a honra de ser recebido em casa do senhor de Chateaubriand. Mas, abreviemos: o que deseja o senhor?
O homem, ouvindo voz mais áspera, cumprimentou mais profundamente:
— Digne-se ouvir-me, senhor barão. Há na América, num território do lado do Panamá, uma aldeia chamada Ioya. Cada aldeia consta de uma só habitação. É uma grande casa quadrada, de três andares, feita de jolos cosidos ao sol; cada lado do quadrado tem quinhentos pés, cada andar recua doze sobre o andar inferior, de modo que lhe deixa na frente um terraço, que circunda o edi cio; no centro um pá o interior onde estão provisões e munições, em vez de janelas, seteiras, em vez de portas, escadas de mão; escadas de mão para subir do solo ao primeiro terraço, do primeiro ao segundo, do segundo ao terceiro, escada de mão para descer para o pá o interior, e em vez de portas nos diferentes quartos, alçapões; de noite fecham-se os alçapões, recolhem-se as escadas e assestam-se bacamartes e clavinas nas seteiras; não resta o mínimo meio de entrar; habitação, de dia, cidadela de noite, e oitocentos habitantes; tal é a aldeia. Para quê tantas precauções? Porque o país é perigoso; é infestado de antropófagos. Como há então quem queira habitar semelhante terra? Porque é uma terra Afortunada, abundante em minas de oiro.
— Mas, a que propósito vem tudo isso? — interrompeu Mário, que do assombro ia passando à impaciência.
— Ao que lhe vou dizer, senhor barão. Eu sou um an go diplomata fa gado. A velha civilização deixou-me em péssimo estado. Quero tentar o trato dos selvagens.
— E então?
— Senhor barão, o egoísmo é a lei do mundo. A camponesa proletária que trabalha em terras alheias, volta a cabeça apenas sente o rodar da diligência na estrada; mas aquela que trabalha nas terras que são suas não olha Para trás. O cão do pobre ladra atrás do rico, o cão do rico ladra atrás do pobre. Cada um por si. O interesse é o alvo de todos os homens. O oiro, eis o imã que os atrai.
— Mas então? Acabe.
— Desejava ir estabelecer-me em Ioya. Somos três; eu, minha mulher e uma menina; uma menina de extrema beleza. A viagem é longa e cara. Preciso algum dinheiro.
— Mas em que pode interessar-me isso? — perguntou Mário.
O desconhecido estendeu o pescoço fora da gravata, gesto próprio do abutre, e replicou redobrando o sorriso:
— O senhor barão não leu a minha carta?
Isto era quase verdade. O facto era que Mário não dera atenção ao conteúdo da epístola. Lera mais a letra do que a carta. Mal se recordava do que ela dizia. Houvera um momento em que se lhe despertava nova suspeita. Tinha reparado neste pormenor: minha mulher e uma menina, e fitou no desconhecido um olhar penetrante. O juiz de um processo não teria olhado melhor. Quase que o espreitava. Contudo limitou-se a responder:
— Queira explicar-se.
O desconhecido meteu ambas as mãos nos bolsos, ergueu a cabeça, sem endireitar a espinha dorsal, mas perscrutando pela sua parte Mário através dos vidros verdes dos óculos.
— Pois seja assim, senhor barão. Eu me explico. Tenho um segredo para lhe vender.
— Um segredo?
— Um segredo.
— Que me diz respeito?
— Um tanto.
— Que segredo é?
Mário, ao passo que escutava o homem, examinava-o cada vez mais atentamente.
— Começo gratuitamente — disse o desconhecido. — Verá que inspiro interesse.
— Pois vamos, fale...
— O senhor barão tem em sua casa um ladrão e assassino.
Mário estremeceu.
— Em minha casa, não — disse ele.
O desconhecido, imperturbável, limpou o chapéu com a manga da casaca e prosseguiu:
— Assassino e ladrão. Note, senhor barão, que não falo aqui de laudos an gos, atrasados, caducos, que podem ser apagadas pela prescrição perante a lei e pelo arrependimento perante Deus. Falo de factos da actualidade, ignorados ainda pela jus ça. Eu con nuo. Este homem introduziu-se na sua confiança e quase na sua família, sob um nome suposto. Vou dizer-lho e dizer-lho de graça.
— Queira dizer...
— Chama-se Jean Valjean.
— Bem sei.
— Vou dizer-lhe, igualmente de graça, quem é.
— Diga.
— É um ex-forçado.
— Já sei.
— Sabe-o desde que eu tive a honra de lho dizer.
— Não. Já o sabia.
O tom frio de Mário a sua dupla resposta, já sei, o seu laconismo refractário ao diálogo, agitaram no desconhecido uma Cólera surda. Às escondidas de Mário dardejou-lhe um olhar furioso, mas imediatamente ex nto. Por mais rápido que fosse aquele olhar, era dos que se reconhecem sempre, quando já se Viram uma vez, não escapou a Mário. Certo flamejar portanto só pode provir de certas almas; a pupila, que é um suspiro do pensamento, abrasa-se; os óculos não ocultam nada: ocultai o infame com uma vidraça.
O desconhecido continuou, sorrindo:
— Não tomo a liberdade de desmen r o senhor barão. Ainda assim, deve conhecer que estou bem informado. Agora o que tenho a dizer-lhe só por mim é conhecido. É o que diz respeito à fortuna da senhora baronesa. É um segredo extraordinário, para
vender. Ofereço-o ao senhor barão em primeiro lugar. Vendo-o barato, vinte mil francos.
— Sei esse segredo, como sei os outros.
O desconhecido personagem sentia a necessidade de baixar um tanto o preço.
— Senhor barão, dê-me dez mil francos e falarei.
— Repito-lhe que não tem nada a revelar-me. Sei o que quer dizer-me.
Os olhos do homem despediram novo relâmpago.
— É contudo necessário que eu jante hoje! — exclamou ele. — É Um segredo extraordinário, repito-lho. Vou dizer-lho, senhor barão. Dê-me vinte francos.
Mário encarou-o fixamente.
— Eu sei o seu segredo extraordinário do mesmo modo que sei o nome de Jean Valjean e o seu.
— O meu nome?
— Sim, o seu nome.
— Não é di cil, Senhor barão. Tive a honra de me assinar na carta que lhe dirigi.
Thennard.
— Dier.
— O quê?
— Thenardier.
— Quem?
O porco-espinho no meio do perigo, eriça-se; o escaravelho finge-se morto, a velha guarda formava-se em quadrado; o homem a quem Mário se dirigia, riu-se.
Em seguida sacudiu com um piparote da manga da casaca um átomo de poeira.
Mário prosseguiu:
— O senhor é também o operário Jondre e, o actor Fabantou, o pateta Geniflot, o espanhol D. Alvarez e a mulher Belizard.
— A mulher?...
— Teve uma taberna em Montfermeil.
— Uma taberna! Nunca!
— Repito-lhe que se chama Thenardier.
— Nego.
— E que é um vagabundo. Aí tem!
E Mário, tirando do bolso uma nota de Banco, atirou-lha ao rosto.
— Obrigado, senhor barão! Perdão, quinhentos francos
E o homem, transtornado, pegara na nota e fazia profundos cumprimentos, examinando-a.
— Quinhentos francos! — repe u ele, boquiaberto. E murmurou a meia voz: — Uma cunhada verdadeira!
Depois, inopinadamente:
— Pois bem, seja assim! — exclamou ele. — Ponhamo-nos à vontade.
E com a ligeireza dum macaco, deitando para trás a cabeleira, rando os óculos, arrancando do nariz empalmado os dois canudos de pena de que há pouco se falou e que já se Viram noutro lugar deste livro, rou do rosto pelo mesmo modo que se ra o
chapéu.
Os olhos iluminaram-se-lhe, a fronte desigual e como escabrosa, mais elevada nuns pontos que noutros, hediondamente enrugada, desembaraçou-se, o nariz tornou-se agudo como um bico; o perfil feroz e sagaz do homem de rapina reapareceu francamente.
— O senhor barão é infalível — disse ele, com uma voz clara, de onde desaparecera todo o som nasal sou, com efeito, Thenardier.
E endireitou as costas até ali corcovadas.
Thenardier, porque era, com efeito, ele, estava estranhamente surpreendido; perturbado se pudesse perturbar-se.
Fora ali levar o espanto, e era ele que se sen a espantado. Esta humilhação era-lhe paga por quinhentos francos, e, sucedesse o que sucedesse, foi-os aceitando: Mas nem por isso se sentia menos absorto.
Era a primeira vez que via aquele barão Pontmercy, e, apesar do seu disfarce, era conhecido por ele, e conhecido minuciosamente. E não somente aquele barão estava ao facto da sua vida, mas também da de Jean Valjean. Quem era aquele rapaz quase imberbe, tão glacial e tão generoso, que sabia o nome das pessoas, mas todos os nomes, que lhes abria a bolsa, que tratava os patifes como juiz, e lhes pagava como um parvo?
Thenardier, como deve lembrar-se, conquanto houvesse sido vizinho de Mário, não o vira nunca, o que é muito frequente em Paris; noutro tempo ouvira vagamente suas filhas falar dum rapaz muito pobre chamado Mário, que morava no mesmo prédio, e escrevera-lhe sem o conhecer, a carta que já se conhece; mas não havia no seu espírito a possibilidade da mínima aproximação entre aquele Mário e o barão Pontmercy.
Apesar de tudo, por intermédio da sua filha Azelma, a quem lançara na pista dos noivos no dia 16 de Fevereiro, pelas suas próprias inves gações, chegara a saber muitas coisas, e do fundo das suas trevas conseguira apanhar mais dum fio misterioso. A força de indústria, ou, pelo menos, à força de induções, descobrira, ou adivinhara quem era o homem que certo dia encontrara à saída do cano real. Do homem chegara facilmente ao nome. Sabia que a baronesa de Pontmercy era Cose e; mas por este lado tencionava ser discreto.
Quem era Cosette?
Nem ele próprio o sabia. Tinha suas suspeitas de uma bastardia; a história de Fan ne sempre lhe parecera um tanto arrevesada; mas para que falaria em semelhante coisa?
Para fazer com que pagassem mais caro o seu silêncio?
Tinha, ou julgava ter, coisa melhor para vender. E segundo todas as aparências, fazer chegar sem prova ao conhecimento do barão Pontmercy, a revelação Sua esposa é bastarda, não obteria em resultado senão atrair a bota do marido aos rins do revelador.
No entender de Thenardier, ainda a sua conversa com Mário não nha começado.
Teria devido recuar, modificar a sua estratégia, abandonar a posição, mudar de frente; mas nada do essencial fora ainda arriscado e já sentia no bolso quinhentos francos.
Além disto, nha o que quer que era de decisivo a dizer, até mesmo contra aquele barão Pontmercy, tão bem informado e tão bem armado; sentia-se forte.
Para os homens da têmpera de Thenardier toda a espécie de diálogo é um duelo.
Naquele que ia travar-se, qual era a situação? Thenardier não sabia com quem falava, mas sabia do que falava. Passou rapidamente esta revista interior às suas forças, e depois de ter dito: Eu sou Thenardier, esperou.
Mário ficara pensativo. Estava, enfim, de posse de Thenardier: tinha na sua presença o homem que tanto desejara achar. Podia, finalmente, honrar a recomendação do coronel Pontmercy. Sen a-se humilhado de que um tal herói devesse alguma coisa àquele bandido, e que a letra de câmbio sacada do fundo da sepultura por seu pai sobre ele, Mário, es vesse até então protestada. Parecia-lhe também, na situação complexa em que se achava para com Thenardier, que nha ocasião de vingar convenientemente o coronel da infelicidade de ter sido salvo por semelhante tratante. Fosse como fosse, sen a-se sa sfeito. Ia enfim libertar daquele credor indigno a sombra do coronel; parecia-lhe que ia soltar da prisão por dívidas a memória de seu pai.
A parte deste dever, havia ainda outro: esclarecer, se fosse possível, a origem da fortuna de Cose e. A ocasião parecia apresentar-se. Thenardier sabia, decerto, alguma coisa àquele respeito. Podia portanto ser de alguma u lidade ver o fundo daquele homem. Foi por onde começou.
Thenardier fizera desaparecer a cunhada verdadeira na algibeira, e olhava para Mário com suavidade quase terna.
Foi Mário quem rompeu o silêncio:
— Já lhe disse o seu nome. Agora, quer que lhe diga também o seu segredo, aquele que vinha dizer-me? Eu também estou informado; verá que sei mais que o senhor, Jean Valjean, é, como disse, assassino e ladrão; ladrão porque roubou um rico industrial, chamado Madelaine, a quem causou a ruína; assassino porque matou o agente de polícia Javert.
— Não o entendo, senhor barão — disse Thenardier.
— Far-me-ei entender. Escute. Houve em 1822, num dos concelhos de Pas-de-Calais, um homem que, parece, vera noutro tempo suas contendas com a jus ça, e que, sob o nome de Madelaine, se havia erguido e reabilitado. Este homem honrara-se, em toda a extensão da palavra, um justo. Com uma indústria, o fabrico de vidrilhos pretos, fizera a fortuna de uma cidade inteira. Quanto à sua riqueza pessoal, juntara-a também, mas secundariamente e, de certo modo, por acaso. Madelaine era o pai e o benfeitor dos pobres; fundava hospitais, abria escolas, visitava os enfermos, dotava jovens, amparava viúvas e adoptava órfãos; era como o tutor da sua localidade. Como vesse rejeitado uma condecoração, nomearam-no maire. Havia um forçado liberto, que sabia o segredo de uma pena em que Madelaine incorrera noutro tempo; denunciou-o, fê-lo prender, aproveitou-se desta prisão para vir a Paris fazer-se embolsar pelo banqueiro Laffite.
Ob ve estas informações do próprio guarda-livros por meio de uma assinatura falsa, de uma soma superior a meio milhão, que pertencia a Madelaine. Este forçado que roubou Madelaine é Jean Valjean. Quanto ao outro facto, não tem o senhor nada a dizer-me.
Jean Valjean matou o agente Javert com um ro de pistola. Eu, que lhe estou falando, estava presente.
Thenardier lançou a Mário o olhar soberano de um homem já vencido, que torna a lançar a mão à vitória, e que acaba de ganhar novamente num minuto todo o terreno que perdera. Mas o sorriso reapareceu imediatamente; o inferior em face do superior não deve triunfar senão acariciando; Thenardier limitou-se a dizer a Mário:
— Senhor barão, erramos o caminho.
E sublinhou esta úl ma frase, fazendo dar ao feixe de berloques uma volta muito expressiva.
— O quê! — tornou Mário. — Contesta o que acabo de dizer? São factos.
— São quimeras; a confiança com que o senhor barão me honra impõe-me o dever de lho dizer. Antes de tudo, a verdade e a jus ça. Não gosto de ouvir acusar os outros injustamente. Senhor barão, Jean Valjean nem roubou Madelaine, nem matou Javert.
— Essa não é má! Mas, como assim?
— Por duas razões.
— Quais são? Diga.
— Eis a primeira: não roubou Madelaine, atendendo que Jean Valjean é o próprio Madelaine.
— Que está dizendo?
— Eis a segunda: não assassinou Javert, atendendo que foi este úl mo quem se matou a si mesmo.
— Que me diz!
— Que Javert se suicidou.
— Prove, prove! — gritou Mário, fora de si.
Thenardier repetiu a frase, metendo-a à maneira de um alexandrino antigo.
— O agente da polícia Javert, foi encontrado afogado debaixo de um banco da Pont-au-Change.
— Mas prove-o.
Thenardier rou do bolso do lado um pedaço de papel pardo, dobrado como uma pasta, e que parecia conter diferentes papéis de diversos formatos.
— Também tenho o meu registo — disse ele calmamente.
E acrescentou:
— Senhor barão, em seu interesse, intentei conhecer a fundo Jean Valjean. Digo que ele e Madelaine são o mesmo homem, que Javert não teve outro assassino além de si mesmo, e que, quando falo deste modo, é porque tenho as provas do que digo. Não provas manuscritas, a letra de mão é suspeita, e é condescendente, mas provas impressas.
Thenardier, ao passo que falava, extraía da sua pasta dois números de periódicos amarelados, amarrotados e saturados de tabaco. Um destes periódicos, roto em todas as dobras e desfazendo-se em farrapos quadrados, parecia muito mais velho que o outro.
— Dois factos, duas provas — disse Thenardier, e ofereceu a Mário os dois periódicos.
Estes dois jornais são já conhecidos do leitor. Um, o mais an go, era um número da Bandeira Branca, de 35 de Julho de 1823, que estabelecia a iden dade de Madelaine e de Jean Valjean. O outro, um Monitor de 15 de Junho de 1832, comprovando o suicídio
de Javert, e acrescentando que por uma declaração vocal feita ao prefeito pelo mesmo Javert, aprisionado na barricada da rua da Chanvrerie, nha ele devido a vida à magnanimidade de um insurgente, o qual, tendo-o na boca da sua pistola, em vez de a desfechar sobre ele atirara para o ar.
Mário leu.
Aquilo era evidente; data carta, prova irrefragável; aqueles dois periódicos não tinham sido impressos expressamente para apoiar as asserções de Thenardier; a nota publicada pelo Monitor era comunicada oficialmente pela prefeitura de polícia. Não podia duvidar.
As informações do guarda-livros eram falsas; ele próprio se havia enganado. Jean Valjean engrandecia-se inopinadamente, saía da nuvem.
Mário não pôde conter um grito de alegria.
— Logo, aquele desventurado é um homem admirável! Toda essa fortuna lhe pertence! E Madelaine, a providência de uma província inteira! É Jean Valjean, o salvador de Javert! É um herói! É um santo!
— Nem é santo nem herói — disse Thenardier. — É um assassino e ladrão.
E acrescentou no tom de um homem que começa a sentir-se com certa autoridade:
— Tranquilizemo-nos.
Estas duas palavras, ladrão e assassino, que Mário julgava apagadas e que lhe tornavam a aparecer, caíram sobre ele como um duche de gelo.
— Outra vez! — disse ele.
— Repare! — retorquiu Thenardier. — Jean Valjean não roubou Madelaine, mas é um ladrão! Não matou Javert, mas é um assassino.
— Refere-se — tornou Mário — ao miserável roubo de há quarenta anos, expiado, segundo os seus próprios periódicos, por uma vida inteira de arrependimento, de abnegação e de virtude?
— Eu digo, assassino e ladrão, senhor barão; e repito que de factos recentes. O que tenho a revelar-lhe é absolutamente desconhecido. É matéria inédita. Talvez nela possa achar a origem da riqueza habilmente oferecida por Jean Valjean à senhora baronesa.
Digo habilmente, por que, por uma dádiva deste género introduzir-se um homem numa honrada casa, de que gozaria o bem-estar, e, ao mesmo tempo, ocultar o seu crime, gozar o seu roubo, encobrir o seu nome e criar para si uma família, não era coisa para desprezar.
— Eu podia aqui interrompê-lo — observou Mário mas continue.
— Senhor barão, vou dizer-lhe tudo, deixando a recompensa à sua generosidade. Este segredo vale oiro em pó. Dir-me-á: porque não te dirigiste a Jean Valjean? Por uma razão muito simples: sei que se desapossou em seu favor, e acho a combinação engenhosa, mas não tem um soldo, mostrar-me-ia as mãos vazias; e uma vez que preciso de algum dinheiro para empreender a minha viagem a Ioya prefiro o senhor barão, visto que possui tudo e ele nada. Estou um tanto cansado, permita-me que me sente.
Mário sentou-se e fez-lhe um sinal para que o imitasse.
Thenardier refastelou-se numa cadeira estofada, tornou a pegar nos dois periódicos, meteu-os novamente dentro da improvisada carteira de papel pardo e murmurou, raspando com a unha do indicador a margem da Bandeira Branca.
— Este custou-me a obter.
Feito isto, cruzou as pernas e recostou-se, na a tude própria das pessoas seguras do que dizem; depois entrou em matéria, gravemente, e demorando muito as palavras:
— Senhor barão, em 6 de Junho de 1832, há quase um ano, no dia da revolta, achava-se um homem no cano real de Paris, do lado em que ele desemboca para o rio, entre a Ponte dos Inválidos e a Ponte de Iena.
Mário aproximou inesperadamente a sua cadeira da de Thenardier. Este notou o movimento e con nuou com a pausa de um orador, senhor do seu interlocutor, e que sente sob as suas palavras a palpitação do adversário.
— Esse homem, obrigado a ocultar-se, por causa de razões, no fim de contas estranhas à polícia, adoptara por domicílio o cano de despejo, do qual possuía a chave.
Era, repito, o dia 6 de Junho, e poderiam ser umas seis horas da tarde. O homem sen u rumor no cano. Em extremo surpreso agachou-se e espreitou. Ouviu passos; alguém caminhava na sombra, do lado em que ele estava. Extraordinária coisa! Além dele estava ali outro homem. A grade da boca do cano não ficava longe, um raio de luz que por ela penetrava permi u-lhe reconhecer o recém-chegado e ver que conduzia às costas o que quer que era que o obrigava a caminhar todo curvado. O homem que assim lhe aparecia era um ex-forçado; o objecto que conduzia às costas um cadáver. Deste modo era evidente o flagrante delito de assassínio. Quanto a haver roubo era naturalíssimo: não se mata um homem gratuitamente. O forçado ia lançar o cadáver ao rio. Uma circunstância que deve notar-se é que o forçado, que vinha pelo cano desde longe, antes de chegar à grade que dava para a praia, nha necessariamente encontrado um sorvedouro espantoso, onde parece que teria podido deixar o cadáver, mas logo no outro dia os cloaqueiros trabalhando para o esgoto do sorvedouro, teriam ali achado o defunto; e o assassino não queria ter de contar com isso. Preferira atravessar o charco com o fardo; os seus esforços deviam ter sido medonhos; é impossível arriscar mais completamente a vida; nem eu posso compreender como saiu dali vivo!
Mário aproximou mais a cadeira. Thenardier aproveitou este movimento para respirar mais desafogadamente.
Depois prosseguiu:
— Um cano de despejo não é o Campo de Marte. Ali, incluindo o espaço, há falta de tudo. Quando Por ele andam dois homens é indispensável que se encontrem. Foi o que sucedeu. O domiciliado e o passeante viram-se obrigados a cumprimentar-se, contra vontade de ambos. O passeante disse então ao domiciliado: — Bem vês o que trago às costas, preciso sair; tens a chave, dá-ma. O ex-forçado era um homem de temível força; não havia que recusar-lhe. Contudo, o que nha a Chave parlamentou, unicamente para ganhar tempo. Examinou o morto, mas não pôde ver senão que era moço, bem ves do, com aspecto de pessoa rica, e todo desfigurado pelo sangue. Sem que deixasse de falar, teve meio de rasgar e arrancar, pela parte detrás, sem que o assassino desse por isso, um bocado do casaco do assassinado. Bem compreende que era uma peça de corpo de delito, um meio de tornar a achar a pista do acontecimento e de provar o crime no
tribunal. Meteu a prova no bolso, depois do que abriu a grade, deu saída ao homem com o embaraço que levava às costas, tornou a fechar a grade e fugiu, desejando pouco ver-se ainda em cima, envolvido em semelhante aventura, e sobretudo, não querendo achar-se presente quando o assassino lançasse o assassinado ao rio. Agora, decerto percebe. O homem que levava o cadáver, era Jean Valjean, o que nha a chave da grade está na sua presença: e o bocado da aba do casaco...
Thenardier terminou a frase rando do bolso e levantando, à altura dos olhos, seguro pelos dois dedos polegares e pelos dois indicadores, um farrapo de pano preto todo desfiado e coberto de nódoas sombrias.
Mário levantara-se, pálido, mal respirando, com o olhar fito no bocado de pano; e sem pronunciar uma só palavra, sem desviar os olhos do farrapo, recuava para a parede, com a mão direita estendida atrás de si, procurando às apalpadelas uma chave que estava na fechadura de um armário ao lado do fogão. A mão achou, por fim, a chave, abriu o armário e meteu nele o braço; e tudo sem olhar, sem que a sua pupila assustada deixasse de fitar o farrapo que Thenardier lhe apresentara.
Entretanto, Thenardier continuava:
— Senhor barão, tenho as mais fortes razões para acreditar que o mancebo assassinado era um opulento estrangeiro atraído por Jean Valjean a uma cilada e que tinha consigo uma soma enorme.
— O mancebo era eu; aí está o casaco! — gritou Mário. E lançou para o sobrado um velho casaco preto, todo ensanguentado.
Depois, arrancando o farrapo das mãos de Thenardier, curvou-se sobre o casaco, e ajustou sobre a aba rasgada o desfiado farrapo, que se adaptava nela exactamente, completando-a.
Thenardier estava petrificado e disse consigo:
— Parece-me que daqui estamos arrumados.
Mário endireitou-se, fremente, desesperado, resplandecente.
Meteu a mão no bolso, tornou a rá-la e dirigiu-se furioso para Thenardier, apresentando-lhe, e quase apoiando-lhe no rosto, a mão cheia de notas de quinhentos e de mil francos.
— O senhor é um infame, um men roso! É um caluniador, um celerado! Vinha acusar esse homem e justificou-o: intentava perdê-lo e só conseguiu glorificá-lo!
O senhor é que é ladrão e assassino; Foi visto por mim, senhor Thenardier Jondre e, no covil do boulevard do Hospital. Sei de mais a seu respeito para o poder mandar para as galés e para mais longe ainda, se quisesse. O senhor é um malvado repugnante. Aí tem, guarde!
E atirou-lhe com uma nota de mil francos.
— Ah! Jondre e Thenardier, vil tratante! Sirva-lhe isto de lição, senhor corretor de segredos, negociante de mistérios, inves gador das trevas, miserável! Guarde mais esses mil francos e saia daqui! É Waterloo quem o protege.
— Waterloo! — resmungou Thenardier, guardando a nota de mil francos.
— Sim, assassino! Em Waterloo salvou a vida a um coronel...
— A um general — disse Thenardier, erguendo a cabeça.
— A um coronel! — repetiu Mário, encolerizado — Por ser general não daria nem mais um cei l. E vem aqui pra car infâmias! Digo-lhe que tem come do toda a espécie de crimes. Vá-se embora, desapareça! Seja apenas feliz, é quanto lhe desejo. Grande monstro! Tome mais três mil francos; guarde-os. Há-de par r imediatamente para a América com a sua filha, porque sua mulher já não existe, abominável impostor! Fique certo de que hei-de vigiar a sua partida, e nesse momento contar-lhe-ei vinte mil francos.
Vá fazer com que o enforquem, mas longe daqui!
— Senhor barão — respondeu Thenardier, curvando-se quase até ao chão — o meu reconhecimento será eterno.
E Thenardier saiu sem perceber nada de tudo aquilo, estupefacto e encantado por aquela doce esmagação de sacos de oiro e por aquela brilhante trovoada de notas do Banco, que lhe caíra sobre a cabeça.
Estava fulminado, mas também contente, e experimentaria o maior desgosto se tivesse pára-raios para semelhante trovoada.
Acabemos já com este homem. Dois dias após os acontecimentos que acabamos de narrar, par u, por diligências de Mário, para a América, com um nome suposto, levando consigo sua filha Azelma e uma letra de vinte mil francos sobre Nova Iorque. A miséria moral de Thenardier, burguês malogrado, era irremediável; foi na América o que era na Europa. O contacto de um homem mau basta muitas vezes para denegrir uma boa acção e fazer sair dela uma coisa má.
Thenardier, com o dinheiro de Mário, fez-se negreiro.
Mal Thenardier saiu, correu Mário ao jardim, onde Cosette andava ainda passeando:
— Cose e! Cose e! Vamos, vamos depressa, não nos demoremos. Biscainho, vai já buscar um fiacre. Vamos, Cose e. Oh, meu Deus! Foi ele quem me salvou a vida! Põe já um abafo, não percamos um minuto.
Cosette julgou-o louco e obedeceu.
Mário quase não podia respirar, punha a mão sobre o coração, como para lhe comprimir as palpitações, andava a passos largos de um para outro lado, e beijava Cosette a todo o momento.
— Ah! Cosette, sou um grande desgraçado! — dizia ele.
Mário estava atónito. Começava a entrever naquele Jean Valjean não sabia que elevado e sombrio vulto.
Aparecia-lhe uma virtude inaudita, suprema, suave, humilde na sua imensidade. O
forçado transfigurava-se em Cristo. Mário sen u o deslumbramento deste prodígio; não sabia ao certo o que via, mas não podia duvidar que era grandioso. Num momento apareceu à porta um fiacre. Mário precipitou-se com Cosette para dentro dele.