Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 181 de 359

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Os Miseráveis

VI — O substituto

— Os homens são de tal modo organizados, que numa sala poder-se-á estar enlameado em toda a parte, menos nas botas. Numa sala ninguém nos exige, para sermos recebidos, senão uma coisa irrepreensível. Não é a consciência, são as botas.

Todas as paixões, a não ser as do coração, se dissipam com o hábito da meditação. Foi assim que as febres polí cas de Mário se desvaneceram A revolução de 1830 concorrera também para isso, sa sfazendo-o e pacificando-o. Ficava o mesmo, menos, porém, quanto às suas iras, porque nha ainda as mesmas opiniões, apenas algum tanto modificadas. Em rigor, o mancebo não nha opiniões, nha simpa as. De que par do era ele? Do par do da humanidade. De entre a humanidade, porém, escolhia a França; de entre a nação, o povo; de entre o povo, a mulher. Era para ela que a sua compaixão tendia principalmente. Actualmente preferia uma ideia a um facto, um poeta a um herói e ainda admirava mais um livro como Job do que um acontecimento como Marengo.

Além disto, quando após um dia de meditação, voltava à noite pelos boulevards, e por entre os ramos das árvores divisava o espaço sem fundo, os clarões sem nome, o abismo, a escuridão, o mistério, tudo o que simplesmente é humano lhe parecia bem pequeno.

Ele supunha ter, e talvez vesse efec vamente, a ngido a realidade da vida e da filosofia humana, chegando por fim a não contemplar senão o céu, única coisa que a verdade pode ver do fundo do seu poço.

Todavia, isto não obstava a que ele mul plicasse os seus planos, combinações, castelos no ar e projectos de futuro. No estado de abstracção em que andava, quem lhe vesse devassado o que dentro dele se passava ficaria maravilhado da pureza daquela alma.

Na verdade, se nos fosse dado penetrar com os olhos da carne na consciência dos

outros, julgaríamos com mais segurança um homem pelo que ele devaneia do que pelo que ele pensa. O pensamento é dominado pela vontade, o devaneio não. O devaneio, que é absolutamente espontâneo, toma e conserva, mesmo no gigantesco e no ideal, a figura do nosso espírito. Não há coisa que mais directa e profundamente saia do fundo da nossa alma do que as nossas aspirações irreflec das e desmesuradas para esplendores do des no. Nestas aspirações é que se pode descobrir o verdadeiro carácter de cada homem, melhor do que nas ideias compostas, coordenadas e discu das. As nossas quimeras são o que melhor nos parece. Cada qual devaneia o incógnito e o impossível, conforme a sua natureza.

Por meados do ano de 1831, a velha que o servia, contou a Mário que iam ser postos na rua os seus mesquinhos vizinhos Jondre e. Mário, que quase era hóspede em casa, mal sabia que tinha vizinhos.

— Porque os põem na rua? — perguntou ele.

— Por não pagarem a renda, de que já devem dois meses.

— E a quanto montam os alugueres vencidos?

— A vinte francos — respondeu a velha.

— Pegue lá — disse-lhe o mancebo. — Aí tem vinte e cinco francos. Pague o aluguer dessa pobre gente, dê-lhe os cinco francos e não diga que sou eu.

VI — O substituto

Quis o acaso que o regimento de que Teodulo era tenente, viesse destacado para Paris, o que deu ocasião a uma segunda ideia da tia Gillenormand.

Da primeira vez lembrara-lhe mandar espiar Mário por Teodulo; da segunda resolveu fazer suceder Teodulo a Mário.

No caso em que o avô viesse a sen r uma vaga necessidade de um rosto jovem em casa, pois às ruínas são às vezes agradáveis estes raios de aurora, era necessário tratar de arranjar outro Mário. Seja, disse ela consigo, é uma simples errata, como as que se vêem nos livros. Em vez de Mário, lê-se Teodulo.

Um sobrinho é quase um neto; na falta de um advogado, serve mesmo um lanceiro.

Um dia de manhã, indo Gillenormand a principiar a ler a Quo diana, ou coisa semelhante, entrou sua filha e disse-lhe com o tom de voz mais meigo que pôde, pois tratava-se do seu favorito:

— Meu pai, Teodulo vem hoje apresentar-lhe os seus respeitos.

— Quem é Teodulo?

— É o seu sobrinho.

— Ah! — exclamou o avô.

E con nuou a ler, sem se tornar a lembrar de tal sobrinho, que era para aí um Teodulo qualquer, e não tardou a agastar-se seriamente, o que lhe sucedia todas as vezes que lia. É que «a folha» que ele nha na mão, realista já se vê anunciava para o outro dia sem reserva nenhuma um dos acontecimentos quo dianos do Paris de então:

«Que os estudantes da Faculdade de Direito e de Medicina deviam reunir-se na praça do Panteon ao meio-dia para deliberarem. Tratava-se de uma das questões da ocasião: da ar lharia da guarda nacional, e de um conflito entre a guarda nacional e «a milícia

cívica», por causa de umas peças assestadas no pá o do Louvre». Os estudantes, pois, deviam deliberar a esse respeito. Não era preciso tanto para exaltar o senhor Gillenormand.

Lembrou-se de Mário, que era estudante, e que provavelmente iria como os outros

«deliberar ao meio-dia na praça do Panteon».

Quando ele estava nesta cogitação dolorosa, entrou Teodulo, ves do à paisana, discretamente introduzido pela filha de Gillenormand.

O lanceiro fizera o seguinte cálculo: «O druida não tem tudo em rendas vitalícias. Por isso vale a pena disfarçar-me em paisano de tempos a tempos».

— Aqui tem seu sobrinho Teodulo — disse a filha de Gillenormand a seu pai em voz alta.

E acrescentava em voz baixa para o tenente:

— Aprova tudo.

E retirou-se.

O tenente, pouco acostumado a entrevistas tão veneráveis, balbuciou com alguma timidez:

— Bons dias, meu o — e fez uma cortesia mista, composta do esboço involuntário e maquinal da continência militar, terminada por uma saudação burguesa.

— Ah, és tu! Está bem, senta-te — disse o avô.

Dito isto, esqueceu-se completamente do lanceiro.

Teodulo sentou-se e Gillenormand levantou-se e pôs-se a passear de um lado para o outro, com as mãos nos bolsos, falando em voz alta e apertando nos dedos hirtos os dois relógios de algibeira que costumava trazer consigo.

— Corja de fedelhos! Convocarem-se para a praça do Panteon! Só com uma tranca!

Criançalhos que ainda têm os cueiros atrás da porta! Se lhes apertassem o nariz ainda deitavam leite! E vão deliberar amanhã ao meio-dia! A que tempos chegámos! A que tempos chegámos! Está bem de ver que caminhamos para o abismo! Foi para onde nos conduziram os descamisados! Ar lharia cívica! Deliberar sobre a ar lharia cívica! Irem fazer de meninos bonitos por causa das surriadas da guarda nacional! E com quem eles vão misturar-se! Vejam até onde pode levar o jacobinismo! Aposto tudo quanto quiserem, um milhão contra um real, que não hão-de encontrar lá outra gente senão homens que já es veram presos ou nas galés. Republicanos e forçados é tudo gente da mesma estofa, e por isso se dão perfeitamente. Carnot dizia: «Para onde queres que eu vá, traidor?» E Fouché respondia: «Para onde quiseres, pedaço de asno!» Aí está o que são os republicanos.

— É exacto — disse Teodulo.

Gillenormand voltou a cabeça um quase nada, viu Teodulo e continuou:

— Quando me lembro que aquele tratante teve a pouca vergonha de se fazer carbonário! Para que saíste de minha casa? Para te ires fazer republicano. Puh! Primeiro, o povo não quer lá saber da tua república, não quer nada com ela, porque tem juízo, porque sabe que sempre tem havido reis, porque sabe que o povo, afinal de contas, é sempre o povo, e por isso está-se nas ntas para a tua república; ouves, pacóvio! Há

maior descaramento? Namoriscar-se do Père Duchêne, fazer fosquinhas à guilho na, cantar romanzas e tocar guitarra debaixo das janelas de 93, dá mesmo vontade de cuspir na cara a estes rapazelhos, por serem tão pedaços de asnos! E então são-no todos. Não escapa um só. Basta respirar o ar que passa na rua para se tornarem insensatos. O

século dezanove é um veneno. Qualquer velhaco que deixe crescer a barba de bode julga-se um tratante de marca e manda tratar das bombas os parentes velhos. É

republicano, é român co. Que vem a ser isto de român co? Fazem favor de me dizer o que isto é? Todas as tolices possíveis. Há um ano andava tudo à Hernâni. Sabem-me dizer o que vem cá a ser Hernâni! An teses! Coisas abomináveis que nem em francês se acham escritas. E ainda por cima ralham de mandarem pôr peças no pá o do Louvre! É

para ver como são os salteadores do tempo de agora.

— Tem razão, meu tio — disse Teodulo.

Gillenormand continuou:

— Peças no pá o do Museu! Para quê? Que me queres tu, canhão? Querem metralhar o Apoio de Belveder? Que têm que ver os cartuxos com a Vénus de Medíeis? Oh! Estes rapazes de agora são tudo uma corja de pa fes! E esse borra-botas desse Benjamin Constant, que eles trazem nas palminhas? E os que não são celerados são uns patetas.

Fazem tudo o que podem para se tornarem feios; andam mal trajados, têm medo das mulheres, quando se juntam com elas têm uns modos de pelintras que fazem estourar de riso as raparigas; palavra de honra que se lhes podia chamar os pobres envergonhados do amor! São disformes e estúpidos. Repetem os equívocos de Tiercelin e de Po er, trazem casacas-sacos, coletes de lacaio, camisas de pano grosseiro, calças de pano grosso, botas grossas, e a ramagem parece-se com a plumagem. Usam de uma algaraviada tão baixa como quem a emprega. E todos estes criançalhos têm opiniões polí cas! Para bem, havia de ser severamente punido ter opiniões polí cas. Fabricam sistemas, refazem a sociedade, destroem a monarquia, derrubam todas as leis, põem o celeiro no lugar da adega e o meu porteiro no lugar do rei, remexem a Europa toda, reedificam o mundo e têm por grande fortuna ver as pernas às lavadeiras ao subirem para os carros! Ah, Mário, grande maroto! Ir vociferar para o meio de uma praça pública! Discu r, debater, tomar medidas! Eles chamam a isto tomar medidas! Santo nome de Deus! A desordem cada vez se agourenta mais e se torna mais tola! Já vi o caos, agora vejo mas é um esterquilínio. Estudantes a deliberarem sobre a guarda nacional! Isto nem entre os Ogibbewas ou os Cadodachos! Os selvagens que andam completamente nus, com a cabeça enfeitada como um volante de vaqueta e de clava na mão, são menos brutos do que estes bacharéis. Uma súcia de pobretões sem eira nem beira... de onde saem os sábios! E deliberam e raciocinam! Está o mundo a acabar! Somos chegados com toda a certeza ao fim deste miserável globo terráqueo. Faltava um soluço final; dá-o a França. Deliberai, meus tratantes! Isto há-de dar-se enquanto eles forem ler os jornais para debaixo das arcadas do Odeon. Custa-lhes tal leitura um soldo, e nela sacrificam o seu bom-senso, a sua inteligência e o seu espírito. Todos os jornais trazem a peste consigo, todos, sem mesmo exceptuar a Bandeira Branca! No fundo, Martainville era um jacobino. Ah, justo céu! Podes-te gabar de que fizeste afligir bem teu avô!

— Isso é evidente — atalhou Teodulo.

E, aproveitando a ocasião em que Gillenormand tomava a respiração, o lanceiro acrescentou magistralmente:

— Para bem, não havia de haver mais jornal nenhum senão o Monitor, e um único livro, o Anuário Militar.

Gillenormand prosseguiu:

— É como com o tal seu Sieyèa, um regicida que vem a acabar senador! Pois é onde eles vão bater. Andam para aí a atordoar-se com o tu, cidadão isto, cidadão aquilo, para afinal virem a fazer-se tratar por senhor conde. Senhor conde do que eu agora não digo!

O filósofo Sieyès! Bem fiz eu ao menos, que nunca dei mais importância às filosofias de todos estes filósofos do que aos óculos do palhaço de Tivoli! Um dia vi passar os senadores pelo cais Malaquias, de mantos de veludo roxo, semeados de abelhas, e com chapéu à Henrique IV. Me am medo. Pareciam os macacos da corte do gre. Cidadãos, declaro-vos que o vosso progresso é uma loucura, a vossa humanidade um devaneio, a vossa revolução um crime, a vossa república um monstro, que a vossa nova França donzela sai do lupanar e assevero-vos a todos, quem quer que sejais, publicistas ou economistas, legistas ou mais conhecedores de liberdade, igualdade e fraternidade do que o gume da guilhotina. É o que lhes digo, meus ricos!