Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 109 de 359

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Os Miseráveis

II — É uma felicidade passarem veículos pela ponte de Austerlitz

Efec vamente, não eram decorridos três minutos, quando os homens apareceram.

Agora, porém, eram quatro, todos de estatura elevada, ves dos com compridos casacões pardos, de chapéus redondos e grossas bengalas nas mãos. Não era menos assustadora a sua marcha sinistra nas trevas do que a sua grande estatura e a desmesurada grandeza dos seus punhos. Dir-se-ia quatro espectros disfarçados em burgueses.

No meio do beco pararam e juntaram-se em grupo como que a consultar-se.

Tinham ar indeciso. O que parecia guiá-los voltou-se e apontou acaloradamente com a mão direita na direcção do lugar onde Jean Valjean estava escondido; outro parecia indicar com obs nação a direcção contrária. No instante em que o primeiro se voltou, a lua bateu-lhe em cheio no rosto e Jean Valjean reconheceu perfeitamente Javert.

II — É uma felicidade passarem veículos pela ponte de Austerlitz A incerteza cessou para Jean Valjean; mas felizmente durava ainda para os homens misteriosos. Aquele aproveitou-se da hesitação destes; tempo perdido para uns, e ganho pelo outro. Jean Valjean saiu da porta em que se ocultara e meteu-se pela rua das Postas na direcção do Jardim das Plantas. Cose e começava a sen r-se fa gada; Jean Valjean tomou-a nos braços e con nuou a caminhar. Não encontrou vivalma e os candeeiros, por haver luar, não tinham sido acesos.

Jean Valjean apertou o passo. Em poucos minutos chegou à fábrica de loiça de Goblet, em cuja fachada o luar tornava distintamente legível a sua velha inscrição: Ao grande fabricante Goblet filho

Correi, vinde comprar: tubos de grés.

Tijolos, bilhas, vasos, bom ladrilho,

A preços de espantar qualquer freguês.

Deixou atrás de si a rua da Chave, depois a fonte de S. Vítor, caminhou ao longo do Jardim das Plantas e chegou ao cais. Ali olhou para trás. O cais e as ruas estavam desertas. Não vendo ninguém atrás de si respirou fundo e dirigiu-se por fim à ponte de Austerlitz. Naquela época exis a ali o direito de portagem, portanto entrou na casa do empregado encarregado de o cobrar e deu-lhe um soldo.

— São dois soldos — disse o inválido da ponte. — Leva consigo uma criança que pode andar, por conseguinte há-de pagar por ela.

Jean Valjean pagou, mas sen u-se contrariado de que a sua passagem pela ponte desse lugar a uma observação. Toda a espécie de fuga deve evitar incidentes.

Ao mesmo tempo que ele, uma grande carroça passava o Sena para a margem direita.

Esta coincidência foi muito ú l: pôde atravessar toda a ponte abrigado pela sombra da carroça.

Quase no meio da ponte, Cose e, que nha os pés dormentes, manifestou desejos de andar; ele pô-la no chão e travou-lhe da mão outra vez.

Transposta a ponte, avistou à direita umas estâncias de madeira e encaminhou-se para elas. Para chegar, porém, ao sí o em que elas ficavam era preciso aventurar-se por um espaço bastante largo, que estava a descoberto e completamente alumiado. Não hesitou. Evidentemente os que o perseguiam tinham-lhe perdido o rasto, e por isso, Jean Valjean julgava-se livre de perigo. Procurado, sim; seguido, não.