Os Miseráveis
X — Tarifa dos cabrioles de aluguer: dois francos por hora
Neste momento a filha mais velha de Jondre e deu com os olhos no sobretudo que ficara sobre a cadeira e exclamou:
— Senhor! Esquece-se de levar o casaco!
Jondre e lançou-lhe um olhar fulminante, acompanhado de um medonho erguer de ombros.
O senhor Leblanc voltou-se e respondeu, sorrindo:
— Não o esqueço, deixo-o ficar.
— Ó meu protector — disse Jondre e — meu augusto benfeitor, as lágrimas querem-me saltar dos olhos! Permita-me que o acompanhe até à porta da rua! Se quer sair, então vista esse sobretudo, porque, na verdade, está frio.
Jondre e não esperou que ele lhe repe sse a recomendação. Enfiou rapidamente o sobretudo pardo e saíram todos três, indo Jondrette na frente.
X — Tarifa dos cabrioles de aluguer: dois francos por hora
Mário não nha perdido um só pormenor desta cena, e, contudo, na realidade nada nha visto. Os olhos nham-lhe ficado fixos na jovem, que ele, para assim dizer, abarcara toda com o coração, apenas ela entrou na mansarda. Durante todo o tempo que ela ali se de vera, o jovem vivera a vida do êxtase que suspende as percepções materiais, fazendo concentrar a alma toda num só ponto. Ele contemplava, não a jovem, mas aquela luz que trazia um mantelete de ce m e um chapelinho de veludo. O jovem não ficaria mais deslumbrado do que ficou se naquela sala vesse entrado a estrela Sírio.
Ao mesmo tempo que a graciosa jovem ia desatando a trouxa, desdobrando a roupa e os cobertores, e fazendo perguntas com bondade à doente e com enternecimento à pequena que se cortara, Mário observava-lhe todos os movimentos e tentava ouvir todas as palavras que ela proferia. Conhecia-lhe os olhos, a fronte, a beleza, a cintura, o andar, só não lhe conhecia o som da voz. Julgara uma ocasião no Luxemburgo que lhe ouvira algumas palavras, mas não nha a certeza disso. De bom grado dava dez anos da sua vida para a ouvir falar, para poder levar na alma um bocado desta música. Tudo, porém, que a jovem dizia era abafado pelos lamentosos queixumes de Jondre e e pelos seus guinchos, com o que o transportado jovem muito se encolerizava. Mário fitava-lhe os olhos com a maior ternura. Não podia capacitar-se de que era, realmente, aquela criatura divina que ele divisava no meio daqueles imundos entes, naquela mansarda monstruosa. Parecia-lhe um colibri entre sapos.
Quando ela saiu, o seu pensamento foi segui-la, não a perder de vista, acompanhá-la até saber onde ela morava, ou ao menos não a tornar a perder, depois de a haver encontrado tão miraculosamente. Saltou, pois, abaixo da cómoda e pegou no chapéu, mas, ao deitar a mão ao fecho da porta para sair, suspendeu-o uma reflexão. O corredor era comprido, a escada empinada, Jondre e falador, por isso o senhor Leblanc ainda de certo não se nha me do na carruagem, e se ele no corredor ou na escada ou no limiar da porta se voltasse, avistá-lo-ia naquela casa, e decerto se assustaria e acharia modo de lhe escapar de novo, e lá ia outra vez tudo. Que fazer? Esperar um bocado? Mas, durante esse tempo de espera, podia a carruagem ir-se embora. Mário estava perplexo. Afinal, aventurou-se a sair do quarto.
Como no corredor já não encontrasse ninguém, dirigiu-se para a escada, onde também não encontrou vivalma. Desceu, portanto, apressadamente, e chegou ao boulevard a tempo de ver um carro a voltar a esquina da Rua do Pe t-Banquier e encaminhar-se para Paris.
Mário precipitou-se naquela direcção, e, chegado ao ângulo do boulevard, tornou a avistar o carro, que seguia rapidamente pela rua Mouffetard; já ia muito distante, tornando-se-lhe impossível apanhá-lo; mesmo que ele tentasse isso, deitando a correr com toda a força atrás dele, decerto o avistariam de dentro e o velho o conheceria.
Neste momento, porém, singular e maravilhoso acaso, Mário avistou um cabriole de
aluguer, que ia a passar pelo boulevard sem ninguém dentro. O único expediente, pois, que nha a tomar era meter-se no cabriole e seguir o carro. Era uma coisa certa, eficaz e sem perigo.
Mário fez sinal ao cocheiro para que parasse e gritou-lhe:
— Por hora!
Mário estava sem gravata, com o fato velho com que trabalhava, ao qual faltavam alguns botões, e uma camisa rota numa das pregas do peito.
O cocheiro parou, piscou o olho e estendeu a mão para Mário, esfregando brandamente o índex com o polegar
— Que é? — perguntou Mário.
— Pague adiantado — respondeu o cacheiro.
O rapaz lembrou-se então de que não trazia consigo senão dezasseis soldos.
— Quanto? — indagou.
— Quarenta soldos.
— Eu pago na volta.
O cocheiro, por única resposta, pôs-se a assobiar a can ga de La Palisse e fus gou os cavalos.
Mário viu par r o cabriole com gesto desvairado. Por vinte e quatro soldos que lhe faltavam, perdia a sua alegria, a sua ventura, o seu amor, ficava outra vez nas trevas, tornava a cegar, depois de ter visto! Lembrou-se então amargamente, e, devemos dizê-lo, com profundo pesar, dos cinco francos que pela manhã dera à miserável rapariga, filha do seu vizinho Jondre e. Se ele ali vesse esses cinco francos, estava salvo, renasceria, sairia dos limbos e das trevas, sairia do isolamento, do spleen, da viuvez, tornaria a atar o fio negro do seu destino àquele belo fio de ouro que há um instante lhe flutuara diante dos olhos, quebrando-se ainda outra vez!
Mário entrou em casa no cúmulo do desespero.
Pudera servir-lhe de leni vo a lembrança, de que o senhor Leblanc prometera voltar de tarde e que então tomaria melhor as suas precauções para o seguir; o jovem, porém, alheado na sua contemplação, mal ouvira a promessa do velho.
Na ocasião em que ia a subir a escada, avistou do outro lado do boulevard, junto da parede deserta da rua da Barreira dos Gobelinos, Jondre e, ves do com o sobretudo do
«filantropo», a falar com um desses homens de aspecto pouco tranquilizador, a quem por convenção chamamos vagabundos das barreiras; homens de rostos equívocos e monólogos suspeitos, que têm ar de más intenções e que de ordinário dormem de dia, o que faz supor que trabalham de noite.
Estes dois homens parados a conversar, apanhando a neve que caía em espessos flocos, formavam um grupo, que um agente de polícia com certeza se poria a observar, mas em que Mário mal fez reparo.
Não obstante, porém, a grande preocupação que o agitava, não pôde deixar de notar que aquele vagabundo das barreiras com quem Jondre e estava a falar se parecia com um certo Panchaud, conhecido também pelo nome de Printanier ou Bigrenaille, que Courfeyrac uma vez lhe mostrara, e que passava no bairro por um perigoso passeante nocturno. O leitor já no livro precedente viu o nome deste homem. O tal Panchaud, conhecido também pelo nome de Printanier ou Bigrenaille, veio depois a figurar em muitos processos criminais, o que o tornou célebre entre os gatunos. Neste tempo não passava de um famoso gatuno. Hoje apenas resta dele uma vaga tradição entre os salteadores e ratoneiros. Fazia escola pelos fins do úl mo reinado. Ao cair da noite, à hora em que se formam os grupos falando em voz baixa, conversava-se a respeito dele na Force, na Cova dos Leões. Podia-se até, na prisão, justamente no sí o em que por baixo do caminho de circunvalação passava o cano das latrinas, por onde em 1843