Os Miseráveis
I — Reflexões de Javert
Um mata-mouros, um falador eterno! Matar-se por um morto! Se isto não é de fazer endoidecer! Se isto tem algum jeito! Aos vinte anos! E nem ao menos olhar para trás a ver o que deixava! Agora têm os pobres velhos de morrerem sozinhos!... Enfim, eu já esperava por isto mesmo; morrerei também! Não sou eu tão novo! Tenho cem anos, cem mil anos; há muito que devia ter morrido! Mas agora é certo! Graças a Deus, até que finalmente! Para que estão a fazê-lo respirar amoníaco e toda essa fera unida de drogas?
É tempo perdido, senhor doutor das dúzias! Ainda lhe acudia a tempo! Morto está ele e bem morto! Basta que o diga eu, que também estou morto! Não esteve lá com meias medidas! Oh, o tempo de agora é infame, infame, infame;! Aí está o meu juízo a respeito de vós, das vossas ideias, sistemas, oráculos, doutores, escrevinhadores, filósofos de borra e de todas as revoluções que há sessenta anos sobressaltam os bandos de corvos das Tolherias! E, uma vez que não veste piedade comigo, deixando-te morrer dessa maneira, também eu não hei-de chorar-te a morte. Ouves, assassino?
Neste momento, Mário abriu vagarosamente as pálpebras, e o seu olhar, ainda embaciado pelo pasmo letárgico, fitou-se em Gillenormand.
— Mário! — bradou o ancião. — Mário! Meu Mariozinho! Meu filho! Meu querido filho! Abres os olhos, olhas para mim; ainda estás vivo! Deus to; pague!
E caiu desfalecido.
LIVRO QUARTO — JAVERT DESVAIRADO
I — Reflexões de Javert
Javert re rara-se vagarosamente da rua do Homem Armado, com a cabeça inclinada, pela primeira vez na sua vida, e, pela primeira vez na sua vida igualmente, com as mãos atrás das costas.
Até àquele dia, Javert apenas imitara de Napoleão a primeira das suas duas a tudes, expressiva de resolução — os braços cruzados sobre o peito; a das mãos atrás das costas, expressiva de incerteza, essa era-lhe desconhecida. Agora, porém, operara-se nele uma mudança: toda a sua pessoa, lenta e sombria, inculcava ansiedade, Embrenhou-se nas ruas silenciosas.
Contudo, seguia uma direcção.
Tomou o caminho mais curto para o Sena, em direcção aos cais dos Olmos, costeou-os, passou a Greve e parou a pequena distância do posto da praça do Chatelet, à esquina da ponte de Nossa Senhora, onde o Sena forma, entre a ponte de Nossa Senhora e o Pot-au-Change de um lado e entre o cais da Megisserie e o das Flores do outro, uma espécie de lago quadrado, atravessado por uma torrente. Este ponto do Sena é temido dos navegantes.
Nada mais perigoso do que aquela torrente, naquela época apertada e embravecida pelas estacas do moinho da ponte, hoje demolido. As duas pontes, tão próximas uma à outra, aumentam o perigo; a água corre com medonha velocidade por baixo dos arcos, acumulando-se em cachões terríveis, que vão bater de encontro aos pilares das pontes, como se tentassem arrancá-los com grossas cordas líquidas. Quem ali cai nunca mais torna a aparecer e os melhores nadadores ali se afogam.
Javert firmou os cotovelos no parapeito, apoiou o queixo entre as mãos, afagando convulsivamente as espessas suíças e embrenhou-se em profunda cogitação.
Uma novidade, uma revolução, uma catástrofe, acabava de se dar nele; por isso era necessário que se examinasse.
Javert sofria dolorosamente.
Havia duas horas que ele perdera a sua habitual serenidade. Estava perturbado; aquele cérebro, tão límpido no meio da sua cegueira, havia perdido a sua transparência; tornara-se um como cristal embaciado. Javert sentia na sua consciência a transgressão de um dever e não podia dissuadi-lo a si próprio. Quando tão inopinadamente se encontrara com Jean Valjean na ribanceira do Sena, experimentara um sen mento semelhante ao do lobo que torna a apoderar-se da presa e ao do cão que depara de novo com o dono.
Via abertos diante de si dois caminhos, ambos direitos, mas eram dois, e esta vista amedrontava-o, porque ele nunca na sua vida conhecera senão uma linha recta.
E, angús a pungente!, estes dois caminhos eram opostos! Qualquer destas duas linhas rectas excluía a outra.
Qual delas era a verdadeira?
A sua situação era inexprimível.
Dever a vida a um malfeitor; aceitar esta dívida e pegá-la; achar-se, mau grado seu, ao
nível de um reincidente e pagar-lhe serviço por serviço; consen r que ele lhe dissesse:
«Vai-te embora!» e dizer-lhe a seu turno: «Estás livre!» Sacrificar a mo vos pessoais o dever, essa obrigação geral, e sen r nesses mo vos pessoais alguma coisa de geral e talvez até de superior; trair a sociedade para permanecer fiel à consciência; eis o que o aterrava — a realização de todos estes absurdos, a ideia de os ver acumulados sobre a sua cabeça.
Uma coisa o maravilhava, e vinha a ser que Jean Valjean o vesse poupado; outra coisa o petrificava, e vinha a ser que ele, Javert, tivesse poupado Jean Valjean.
Que aberração era esta?
Quanto mais o indagava, menos o sabia.
Que fazer agora?
Entregar Jean Valjean, era mau; deixar Jean Valjean livre, mau era.
No primeiro caso, o homem da autoridade descia abaixo do homem das galés; no segundo, subia um forçado acima da lei e calcava-a aos pés.
Em ambos os casos resultava desonra para Javert.
Qualquer que fosse a resolução por ele tomada, nha de se rebaixar. O des no tem certas extremidades que deitam a prumo sobre o impossível e para além das quais a vida é um precipício.
Javert achava-se numa dessas extremidades.
Uma das coisas que mais o torturavam era ver-se constrangido, a reflec r, ao que a própria violência de todas as emoções contraditórias que sentia o obrigava.
Reflectir, para ele era uma coisa desacostumada e singularmente dolorosa.
Há sempre na reflexão uma certa quan dade de rebelião ín ma, com que ele se irritava.
A reflexão sobre qualquer objecto estranho ao circunscrito círculo das suas funções era sempre para ele uma coisa escusada e molesta, mas a reflexão sobre o que naquele dia tinha passado era uma tortura.
Após semelhantes abalos, porém, era-lhe forçoso meter a mão na consciência e sujeitar-se a um rigoroso exame consigo mesmo.
O que ele acabava de pra car fazia-o estremecer. Contra todos os regulamentos da polícia, contra toda a organização social e judiciária, contra o código inteiro, houvera Por bem soltar um homem que devia prender, porque assim lhe convinha; sacrificar aos seus os negócios públicos não era abuso inqualificável? De cada vez que reflec a sobre o nefando acto que cometera estremecia desde a cabeça até aos pés. Que resolução deveria ser a sua? Restava-lhe apenas um recurso: voltar a toda a pressa à rua do Homem Armado e dar voz de prisão a Jean Valjean. Era evidente que era isto o que ele devia fazer, mas não podia.
Um obstáculo indefinível lhe obstruía esse caminho.
Um obstáculo? De que qualidade? Pois no mundo existe mais alguma coisa além dos tribunais, das sentenças executórias, da polícia e da autoridade?
Javert sentia-se estranhamente agitado.
Um criminoso das galés sagrado! Um forçado inacessível à jus ça! e isto por causa de
Javert!
Pois não era de fazer horror a ideia de que Javert e Jean Valjean, o executor da lei e o criminoso, chegassem ao ponto de calcar a lei, de lhe serem superiores?
Pois haviam de dar-se monstruosidades desta natureza e a impunidade seria o único resultado?
Ficar livre Jean Valjean, como se fosse superior a toda a ordem social, e ele a continuar a comer o pão do governo!
As suas cogitações gradualmente :se tornavam terríveis.
No meio de tudo isto, pudera também acusar-se do modo como procedera rela vamente ao insurgente que fizera transportar para a rua das Mulheres do Calvário, mas nem tal coisa lhe lembrava.
A falta maior fazia esquecer a menor.
Além disso, o insurgente era, evidentemente, um homem morto, e, legalmente, a morte obsta a qualquer procedimento da justiça.
Jean Valjean, esse é que era o seu pesadelo.
Jean Valjean desvairava-o.
Em presença desse homem, caíam por terra todos os axiomas que nham sido a norma da sua vida até então.
Torturava-o a lembrança da generosidade de Jean Valjean para com ele.
Outros factos de que ele se recordava, e que, noutro tempo, apodara de mentiras e de loucuras, agora voltavam-lhe como realidade.
Por trás de Jean Valjean aparecia Madelaine, e as duas figuras sobrepunham-se de modo que não formavam senão uma só, que era veneranda.
Javert via-se a braços com um sentimento horrível — o da admiração por um forçado.
Pois era possível sentir-se tomado de respeito diante de um criminoso das galés?
Este sentimento apavorava-o e não podia esquivar-se-lhe.
Por mais que forcejasse, via-se constrangido a confessar no seu foro ín mo a sublimidade de semelhante miserável.
Odiosa coisa!
Um malfeitor benfazejo, um forçado compadecido, meigo, prestável, clemente, tomando o bem pelo mal, perdoando a quem o odiava, preferindo a compaixão à vingança, preferindo até perder-se a perder um inimigo, salvando quem o nha hos lizado, ajoelhado no cume da virtude, com mais de anjo do que de homem; Javert via-se forçado a confessar que semelhante monstro existia!
Isso não podia durar assim.
É certo que ele não se rendera sem resistência àquele monstro, àquele anjo infame, àquele herói hediondo, que quase lhe causava tanta indignação como pasmo.
Inúmeras Vezes, quando se achara cara a cara com Jean Valjean dentro do carro, o tigre legal rugira interiormente.
Inúmeras vezes lhe veio a tentação de se arremessar sobre Jean Valjean e devorá-lo, queremos dizer, prendê-lo.
Em verdade, nada mais simples. Bastaria gritar ao primeiro posto, diante do qual
passasse:
— Aqui vai um reincidente fugido das galés!
Bastaria chamar os gendarmes e dizer-lhes:
— Este homem pertence-lhes!
E con nuar o seu caminho, deixando-lhes entregue aquele condenado, sem se importar nem querer saber de mais nada.
Este homem é um prisioneiro da lei; a lei fará dele o que lhe aprouver.
Haveria coisa mais justa?
Javert nha reflec do sobre tudo isto: quisera fazer mais alguma coisa, prender o homem, e então, como agora, não pudera; e de cada vez que levantara convulsivamente a mão para a deitar a Jean Valjean, tornara a deixá-la cair, como se um peso enorme lha sujeitasse, e ouvira no fundo do seu pensamento uma voz, uma estranha voz que lhe bradasse:
— Está bem. Entrega o teu salvador. Depois manda vir a bacia de Pôncio Pilatos e lava as garras!
Em seguida, volvia a reflec r sobre si mesmo, e, ao confrontar-se com Jean Valjean, sentia-se rebaixado.
Ser seu benfeitor um forçado!
Mas também para que não se deixara matar às mãos de semelhante homem? Naquela barricada, o seu dever era morrer, e devia tê-lo posto em execução. Chamar os outros insurgentes contra Jean Valjean, fazer-se fuzilar à força, eis o que ele deveria ter feito.
A sua suprema angús a era a desaparição da certeza. Sen a-se desarreigado. Já não nha na mão senão um fragmento do código. Experimentava escrúpulos de natureza desconhecida; dava-se nele uma revolução sen mental, inteiramente dis nta da afirma va legal, única norma do seu proceder até àquela data. Não era bastante permanecer na an ga hones dade. Surgia uma ordem completa de factos inesperados que o subjugava. Despontava-lhe na alma um mundo inteiramente novo; o bene cio aceito e retribuído, a dedicação, a misericórdia, a indulgência, as violências feitas pela piedade à austeridade, a dis nção de pessoas, o termo da condenação; defini va, a possibilidade de uma lágrima nos olhos da lei, uma certa jus ça segundo Deus, caminhando em sen do inverso da jus ça segundo os homens. Javert avistava no meio das trevas o medonho despontar de um sol moral desconhecido, que o horrorizava e deslumbrava. Mocho constrangido a olhares de águia.
Convencia-se de que, efec vamente, havia excepções, que a autoridade podia ser confundida, que a regra podia estacar perante um facto, que nem tudo ajustava no texto do código, como num molde, que havia casos imprevistos a que era forçoso obedecer, que a virtude de um forçado podia armar laços à virtude de um funcionário, que o monstruoso podia tornar-se divino, que o des no nha destas ciladas, e não podia esquivar-se à angustiosa lembrança de que ele mesmo fora vítima de uma surpresa.
Via-se na necessidade de confessar que a bondade exis a. Aquele forçado nha sido bom. E até ele, maravilhosa coisa!, acabava de dar uma prova de bondade. Por conseguinte, é porque se ia a depravar.
Achava-se cobarde. Tinha horror a si mesmo.
Para Javert, o ideal não era ser humano, nem grande nem sublime; era ser irrepreensível.
Ora ele acabava de se mostrar digno de censura.
Como chegara ele a isso? Como se tinha passado tudo isto?
Nem ele próprio o soubera dizer. Apertava as mãos na cabeça, mas, apesar dos seus esforços, não conseguia achar explicação.
Fora sempre decerto intenção sua entregar Jean Valjean à lei, de que este era ca vo e Javert escravo. Nem pelo pensamento lhe passara, enquanto o vera em seu poder, soltá-lo. Fizera-o, para assim dizer, sem consciência do que fazia.
Mil dúvidas se lhe suscitavam no espírito. Interrogava-se e as respostas que a si mesmo dava aterravam-no.
Perguntava, ele:
«Esse forçado, esse desesperado que persegui incessantemente e que me teve debaixo dos pés, podendo então vingar-se, que o devia mesmo fazer, não só por ódio como para sua segurança, que fez ele em me poupar a vida? O seu dever? Não. Mais do que isso. E eu em lhe perdoar o que fiz? O meu dever? Não. Mais do que isso. Pois há alguma coisa superior ao dever?»
A esta lembrança, Javert estremecia; a sua balança deslocava-se; uma das conchas descia até ao abismo, a outra subia até ao Céu, e Javert não se assustava menos com a que subia do que com a que descia.
Sem ser de modo nenhum o que chamamos voltairiano, filósofo ou incrédulo, pelo contrário respeitoso por ins nto para com a igreja estabelecida, não a conhecia senão como um fragmento augusto do todo social; a ordem era o seu dogma, e bastava-lhe; desde que era empregado pusera sempre na polícia quase toda a sua religião, sendo espião — empregamos aqui as palavras sem a menor ironia e na sua mais séria acepção
— sendo espião como qualquer seria padre. Tinha um superior: o senhor Gisquet; até àquele dia, nunca pensara nesse outro superior —Deus.
Esse novo chefe apresentava-se-lhe inesperadamente e incomodava-o.
Desorientava-o esta inesperada presença; não sabia qual devia ser o seu procedimento para com este superior, ele que não ignorava que o subordinado é obrigado a curvar-se sempre, que não deve nem desobedecer, nem censurar, nem discu r, e que, defrontado com U superior que o espante, o único recurso do inferior é demitir-se.
Mas como conseguir dar a sua demissão a Deus?
Como quer que fosse, o seu pensamento constante era que ele acabava de cometer uma medonha infracção. Acabava de dar alta a um criminoso fugido das galés. Acabava de soltar um forçado. Acabava de roubar às leis um homem que lhes pertencia. Fizera isto. Não se conhecia. Desconfiava de si mesmo. Até as razões da sua acção lhe escapavam, apenas sen a a ver gem. Tinha vivido, até então, dessa fé cega que produz a probidade tenebrosa. Essa fé abandonava-o, essa probidade desamparava-o.
Dissipava-se quanto ele acreditara e via-se perseguido inexoravelmente por verdades
que ele não queria reconhecer. Era necessário agora ser outro homem. Javert sofria as singulares dores de uma consciência subitamente operada da catarata. Via o que lhe repugnava ver. Sen a-se vazio, inú l, deslocado da sua vida passada, des tuído, dissolvido. A autoridade morrera nele. Já não tinha razão de ser. Terrível situação! Estar a tal ponto impressionado!
Ser o granito e duvidar! Ser a estátua do cas go fundida de um jacto no molde da lei, e, de súbito, dar fé de um não sei quê absurdo e indócil por baixo do peito de bronze, que quase parecia um coração! Chegar a ponto de pagar o bem com o bem, posto que, até então, reputasse aquele bem como o mal! Ser cão de guarda e não morder! Ser gelo e não derreter! Ser tenaz e tornar-se mão! Sen r abrirem-se-lhe de repente os dedos!
Largar a presa! Coisa medonha!
O homem não sabendo já o seu caminho e recuando!
Ser obrigado a confessar que a infalibilidade não é infalível, que pode haver erro no dogma, que um código não prevê tudo, que a sociedade não é perfeita, que a autoridade é complicada ide hesitação, que pode dar-se um abalo no imutável, que os juízes são homens, que a lei pode enganar-se, que os tribunais podem errar! Ver uma fenda na imensa vidraça azul do firmamento!
O que se passava em Javert era o Fampoux de uma consciência rec línea, o extravio de uma alma, o esmagamento de uma probidade irresis velmente lançada em linha recta e despedaçando-se em Deus. De certo era singular que o fogueiro da ordem, o maquinista da autoridade, montado no cego cavalo de ferro de via rígida, pudesse ser prostrado por um relâmpago! Que o incomunicável, o directo, o geométrico, o passivo, o perfeito, pudesse falhar!
Deus sempre no interior do homem, e ele, a verdadeira consciência, refractário à falsa; proibição à faísca de apagar-se; ordem ao raio de se recordar do Sol; in mação à alma para reconhecer o verdadeiro absoluto, quando confrontado com o absoluto fic cio; a humanidade imperdível; o coração humano inadmissível; acaso Javert compreendia este esplêndido fenómeno, o mais belo talvez de nossos prodígios ín mos? Acaso Javert o penetrava? Acaso o conhecia? Por certo que não. Porém, sob a pressão deste incompreensível incontestável, sentia entreabrir-se-lhe o crânio. Javert era mais a ví ma que o transfigurado deste prodígio. Sofria-o, desesperado. Em tudo isto não via mais do que uma imensa dificuldade de exis r. Parecia-lhe que sen a a respiração para sempre opressa.
Ter por cima da cabeça o incógnito era coisa a que não estava acostumado.
Até então, tudo o que vira por cima de si afigurara-se-lhe uma como super cie clara, simples, límpida, em que não havia nada de ignorado, nem de obscuro nada que não fosse definido, coordenado, ligado, preciso, exacto, circunscrito, limitado, fechado, tudo previsto; a autoridade era uma coisa plana, sem abismo, sem fragosidade. Javert nunca vira o incógnito senão nas regiões subjacentes. O irregular, o inesperado, a abertura desordenada do caos, a possibilidade de uma queda num precipício, tudo isto era privativo das regiões inferiores, dos rebeldes, deus maus, dos miseráveis.
Javert agora recuava assustado ante essa assombrosa aparição: um abismo nas
alturas.
Como? Pois a sua confusão era tão completa? Como? Pois a abertura da couraça da sociedade podia ser descoberta por um miserável magnânimo? Como? Pois um honesto servidor da lei podia ver-se, de repente, entre dois crimes — o de deixar fugir um homem; e o de prendê-lo?
Nem tudo, pois, era certo nas prescrições do Estado aos funcionários.
Podia haver muros erguidos ante o dever.
Como? tudo isso era real? Era verdade que um an go facínora, curvado ao peso das condenações, podia erguer-se e vir a ter razão? Pois era isto crível? Havia, porventura, casos em que a lei devesse re rar-se diante do crime transfigurado, balbuciando desculpas?
Havia.
Javert não podia fugir à realidade. Não podia negá-lo, porque tomava parte nisso.
Assim, pois, e na exageração da angús a e na ilusão de óp ca da consternação, tudo quanto houvera podido restringir e corrigir a sua impressão, esvaecia-se, e a sociedade, e o género humano e o Universo se resumiam agora, a seus olhos, em um vulto simples e terrível; assim, pois, a penalidade, a coisa julgada, a força devida à legislação, os arrestos dos tribunais soberanos, a magistratura, o governo, a repressão, a sabedoria oficial, a infalibilidade legal, o princípio de autoridade, todos os dogmas em que se baseiam a segurança polí ca e civil, a soberania, a jus ça, a lógica derivando-se do código, o absoluto social, a verdade pública, tudo isto ruína, destroços, caos; ele próprio, Javert, o vigia da ordem, a incorrup bilidade ao serviço: da polícia, a providência, mas m da sociedade, vencido e posta fora de combate, e em cima de toda esta ruína um homem em pé com a carapuça verde na cabeça e a auréola na fronte; eis a que estado de confusão tinha chegado; eis a terrível visão que tinha na alma.
Isto era intolerável.
Estado violento, a mais não poder ser, de que só nha dois modos de livrar-se. Um, ir resolutamente prender Jean Valjean e restituir ao cárcere o homem das galés. O outro...
Javert deixou o parapeito, e, desta feita, de cabeça erguida, dirigiu-se com passo firme para o posto indicado por um lampião a uma das esquinas da praça do Chatelet.
Chegado aí, viu, por entre os vidros, um agente de polícia e entrou. Estes homens reconhecem-se até pelo modo de abrir a porta de um: corpo de guarda. Javert disse como se chamava, mostrou o seu diploma ao empregado e sentou-se a uma mesa, em cima da qual ardia uma vela, e se via conjuntamente uma pena, um tinteiro de chumbo e um sortimento de papel para os autos eventuais e partes das rondas nocturnas.
Javert tomou uma folha de papel, pegou na pena e principiou a escrever.
Eis o que ele escreveu:
ALGUMAS OBSERVAÇÕES EM BEM DO SERVIÇO
Primeiro — Rogo ao senhor prefeito que tenha a bondade de atender-me.
Segundo — Os presos, quando voltam do interrogatório, ram os sapatos e ficam com os pés descalços nas lajes, enquanto os revistam,. Muitos são acome dos de tosse ao recolher-se à prisão, do que provém um aumento de despesa com a enfermaria.
Terceiro — O sistema de dar caça é bom, mudando-se os agentes de distância em distância, porém seria melhor que, nas ocasiões importantes, dois agentes, pelo menos, nunca se perdessem de vista, porquanto
se, por qualquer causa, um deles deixasse de cumprir o seu dever, o outro o vigiaria e emendaria a falta do primeiro.
Quarto — Não a no com a razão por que é proibido aos presos das Madelonne es ter cadeiras, ainda mesmo pagando-as.
Quinto — Nas Madelonne es, o pos go da taberna só tem dois varões de ferro; de modo que a taberneira pode estender a mão aos presos.
Sexto — As presas, chamadas ladras, quando chamam as outras presas ao parlatório, pagam dois soldos de multa por gritarem o nome da presa em voz alta. É um roubo.
Sé mo — Por um fio corrido, paga de multa o prisioneiro, na oficina de tecelagem, dez soldos; é um abuso do empreiteiro, pois que a teia não. é menos má.
Oitavo — É inconveniente que as pessoas que vão visitar alguém na Force tenham de atravessar o pá o das crianças para entrar no locutório de Santa Maria Egipcíaca.
Nono — É certo que tenho todos os dias, no gabinete da prefeitura, ouvido aos gendarmes recontar o —
que escutaram no interrogatório dos condenados feito pelos magistrados; um gendarme deve ser sagrado, não pode repetir aquilo que ouviu no gabinete da instrução porque isso é muito grave.
Décimo — A senhora Henry é uma honrada mulher a sua taberna está sempre com limpeza; mas não é conveniente que se ache à testa dum tal estabelecimento uma mulher. É uma coisa indigna da Conciergerie de uma grande civilização.
Javert escreveu estas linhas com a maior serenidade e com a sua melhor letra, não omi ndo uma vírgula e fazendo ranger a pena no papel. Por baixo da úl ma linha escreveu:
JAVERT, Inspector de 1.ª classe.
Casa da Guarda da praça do Chatelet.
7 de Junho de 1832, à uma hora da noite.
Javert enxugou o papel, dobrou-o em forma de carta, escreveu no reverso Nota para a administração, deixou-o sobre a mesa e saiu.
Atravessou diagonalmente a praça do Chatelet, chegou ao cais, dirigindo-se com precisão automá ca para o ponto que, um quarto de hora antes, deixara, e encostou-se outra vez ao parapeito.
Era completa a escuridão. Era o momento sepulcral que vem após a meia-noite. Uma abóbada de nuvens encobria as estrelas. O céu não apresentava mais do que uma profundeza sinistra. Nas casas da Cite não se via uma só luz; não passava um único transeunte; todas as ruas e cais que dali se avistavam estavam desertos; a igreja de Nossa Senhora e as torres do tribunal de justiça pareciam fantasmas.
O lugar em que Javert se achava ficava justamente por cima da corrente do Sena, a prumo sobre essa medonha espiral de turbilhões, que se enrosca e desenrosca como um parafuso sem fim.
Javert estendeu a cabeça e olhou. Era tudo escuridão. Ouvia-se apenas o referver dos cachões, mas não se via o rio. De espaço a espaço, no meio daquelas trevas, aparecia um clarão, serpejando vagamente, porque a água tem o poder de, no meio da maior escuridão, tirar luz não sabemos de onde e transformá-la em serpente.
Esta luz desaparecia e tudo voltava à primi va negrura. Parecia achar-se ali aberta a imensidade. O que ali estava não era água, era voragem. Não se via nada, mas sen a-se a frialdade hos l da água e o cheiro das pedras molhadas. Um hálito feroz se elevara daquele abismo. A crescente do rio mais adivinhada do que avistada, o trágico murmúrio da água, a lúgubre enormidade dos arcos da ponte, tudo isto inspirava horror.
Javert permaneceu alguns minutos imóvel, olhando para aquela abertura de trevas, contemplando o invisível com uma fixidez que parecia atenção. A água rumorejava. De
súbito, tirou o chapéu e pousou-o em cima do parapeito.
Um momento depois, um vulto alto e negro, que alguém de longe tomaria por um fantasma, apareceu de pé em cima do muro do cais, debruçou-se para o Sena, ergueu-se e caiu direito no meio das trevas.