Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 163 de 359

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Os Miseráveis

II — Um dos espectros vermelhos daquele tempo

O conde de Lamothe, que em 1815 era um velho de setenta e cinco anos, não possuía coisa que o tornasse notável, a não ser o seu ar silencioso e sentencioso, o seu anguloso e frio rosto, as suas maneiras perfeitamente polidas, a sua casaca abotoada até ao pescoço e as suas pernas enfiadas numas calças cor de gengibre amarelo e constantemente cruzadas. O rosto era da mesma cor das calças.

Este senhor conde de Lamothe era «dos contados» naquele salão, em virtude da sua

«celebridade», e, coisa singular, mas em todo o caso verídica, em virtude de seu apelido de Valois.

Quanto a Gillenormand, a veneração que lhe tributavam era do melhor cunho. O que ele dizia era um dogma. Apesar da sua leviandade, e sem que isso em nada lhe atenuasse a natural jovialidade, nha uns modos respeitáveis, dignos, honestos e burguesmente al vos, a que se unia o aspecto da sua avançada idade. Um século de alguma coisa serve a quem viveu. Os anos chegam por derradeiro a circundar a fronte de qualquer de um resplendor que infunde respeito.

Além disso, Gillenormand

nha ditos coruscantes, só próprios dos caracteres

enérgicos. Quando o rei da Prússia, por exemplo, depois de ter restaurado Luís XVIII, veio visitar este monarca com o pseudónimo de conde de Ruppin e foi recebido pelo neto de Luís XIV quase como um marquês de Brandeburgo, quer dizer, com a mais delicada impolidez, Gillenormand aprovou, dizendo: «Todos os mais reis, tirando o de França, não passam de reis de província». Um dia, na presença dele, fizeram esta pergunta e deram esta resposta: «Então a que foi condenado o redactor do Correio Francês!» «A ser suspenso. Mas não pelo pescoço», observou Gillenormand. Palavras assim fazem a reputação de quem as profere.

Por ocasião de um Te-Deum comemora vo da restauração dos Bourbons, vendo ele passar o senhor Talleyrand, disse para os circunstantes: «Ali vai S. Ex.ª o Mal».

Gillenormand, de ordinário, ia acompanhado de sua filha, e esguia donzela que havia então completado quarenta anos, mas que parecia ter cinquenta, e de um galante rapazinho de sete anos, branco, rosado, fresco, olhos transluzindo de prazer e confiança, que nunca aparecia naquele salão que não ouvisse em roda dele este zumbido de todas as vozes dos que se achavam presentes: «Tão bonito! Que pena! Pobre menino!»

Este menino era o de quem acima falámos. Chamavam-lhe «pobre menino» porque seu pai era «um bandido do Loire».

O bandido do Loire era o genro de Gillenormand, de quem já fizemos menção e aquele a quem ele apelidava «a vergonha da sua família».

II — Um dos espectros vermelhos daquele tempo

Quem naquela época passasse pela pequena cidade de Vernon e dirigisse o seu passeio para a sua bela e monumental ponte, a que dentro em pouco esperamos ver suceder alguma desgraciosa ponte-pênsil, teria ocasião de notar, se alongasse os olhos de cima do parapeito, um homem dos seus cinquenta anos, com um barrete de couro na cabeça, umas calças e uma jaqueta de grosseiro pano escuro, a que estava cosido um objecto amarelo que se conhecia ter sido uma fita vermelha, tamancos nos pés, crestado do sol, o rosto quase negro e os cabelos quase brancos, com uma larga cicatriz na testa, que se con nuava até uma das faces, curvado, alquebrado, velho antes do tempo, certo ali quase todos os dias com uma enxada e uma foice na mão dentro de um dos recintos murados que ficam ao pé da ponte, orlando como uma cadeia de terraços a margem esquerda do Sena, vergéis graciosos cheios de flores, aos quais se poderia dar o nome de jardins, se fossem maiores, ou chamar ramalhetes, se fossem mais pequenos. Todos estes quintalinhos confinam por um lado com o rio e pelo outro com uma casa. Em 1817, o homem de quem acabamos de falar, habitava o menos amplo desses quintalinhos e a casa de mais humilde aparência de entre todas elas, onde vivia só e solitário, sem ruído e pobremente, na companhia de uma mulher, nem nova nem velha, nem bonita nem feia, nem camponesa nem da cidade, que era quem o servia. Era célebre na cidade o quadrado de terra a que ele chamava o seu jardim, pela beleza das flores que nele cultivava, cultura que constituía a sua única ocupação.

A poder de trabalho, de perseverança, de cuidados e regas, aquele homem conseguira criar depois do criador e inventar certas túlipas e dálias que pareciam ter esquecido à

natureza, O seu engenho precedera o de Soulange Bodin, na formação de alegretes de terra brava para a cultura dos raros e preciosos arbustos da América e da China. De Verão, ao romper do dia, já estava no seu cuidado vergel, sachando, mondando, cortando, regando, passeando pelo meio das suas flores com ar de bondade, de tristeza e doçura, às vezes pensa vo e imóvel durante horas seguidas, escutando o canto de algum passarinho empoleirado nas árvores ou o ruidoso travessear de alguma criança nas casas da vizinhança, outras vezes com os olhos fixos numa gota de orvalho suspensa de alguma haste de erva, semelhando um carbúnculo pela reflexão dos raios do Sol.

A sua mesa era frugal. O apaixonado cultor de túlipas bebia mais leite do que vinho.

Ralhava-lhe a criada, uma criança bastava para o fazer ceder. A sua midez chegava a ponto de o tornar insociável, saindo à rua raras vezes e falando apenas com os pobres que lhe ba am à porta e com o seu abade, o padre Mabeuf, que era um santo velho.

Todavia, se alguns habitantes da cidade ou pessoas de fora lhe ba am à porta movidos da curiosidade de ver as suas túlipas e as suas rosas, ele abria-lha risonho, mostrando-lhes tudo com atenciosas maneiras.

Era este o bandido do Loire.

Quem ao mesmo tempo lesse as memórias militares, as biografias, o «Moniteur» e os bole ns do exército, ficaria impressionado com um nome frequentes vezes repe- do em tudo isto, o nome de Jorge Pontmercy. Quando jovem, este Jorge Pontmercy fora soldado no regimento de Saintonge. Rebentou a revolução. O regimento de Saintonge fez parte do exército do Reno, conservando o nome da sua província, porquanto os an gos regimentos da monarquia nem mesmo depois da queda dela os perderam, vindo a ser organizados em brigadas somente em 1794. Pontmercy combateu em Spire, Worms, Neustadt, Turkheim, Alzey e em Mayença, onde fazia parte dos duzentos que formavam a retaguarda de Houchard. Ali fez frente só com doze companheiros ao corpo do príncipe de Hessc, por trás da an ga trincheira de Andernach, re rando-se para juntar-se ao corpo do exército, somente quando o canhão do inimigo abriu brecha na trincheira desde o rebordo do parapeito até à escarpa do fosso. Em Marchiennes e na acção de Mont-Palissel, combateu às ordens de Kleber, ficando nesta úl ma com um braço quebrado por uma bala de biscainho. Em seguida passou à fronteira de Itália, onde fez parte dos trinta granadeiros que defenderam o desfiladeiro de Tende com Joubert.

Joubert, em virtude disso, foi nomeado ajudante-general e Pontmercy alferes. Na batalha de Lodi que fez dizer a Bonaparte: «Berthier serviu de ar lheiro, de granadeiro e de soldado de cavalaria», Pontmercy combateu ao lado de Berthier debaixo de uma chuva de balas. Em Novi viu cair o seu an go general Joubert no momento em que de espada em punho, gritava: «Avançar!» Tendo uma ocasião embarcado com a sua companhia por assim o exigirem as necessidades da campanha, numa embarcação ligeira que se dirigia de Génova para não sabemos que portozito da costa, entestou com sete ou oito navios ingleses pela proa. Queria o capitão genovês a rar as peças ao mar, esconder os soldados no porão e escapulir-se como navio mercante, mas Pontmercy mandou içar a bandeira tricolor no mastro de ré e passou al vamente em frente dos canhões das fragatas britânicas. Daí a vinte léguas, animado pelo próspero sucesso da sua audácia,

atacou e apresou um transporte inglês que conduzia tropas para a Sicília, o qual ia atulhado de homens e cavalos até às esco lhas. Em 1805, fizera parte da divisão Malher que rou Gunzburgo do poder do arquiduque Fernando. Em We ngen amparou em seus braços, debaixo de uma saraivada de balas, o coronel Maupetit, mortalmente ferido à frente do 9.º regimento de dragões. Em Austerlitz, dis nguira-se na admirável subida feita debaixo do fogo do inimigo.

Quando a cavalaria da guarda municipal russa derrotou um batalhão do 4 de infantaria de linha, Pontmercy foi um dos que se desforraram desbaratando aquela guarda, o que lhe mereceu ser condecorado pelo imperador. Pontmercy viu sucessivamente ficarem prisioneiros Wurmser em Mantua, Melas em Alexandria, Make em Ulm.

Fez parte do oitavo corpo do grande exército que Mor er comandava e que tomou Hamburgo. Depois passou para o 55 de linha, que era o an go regimento de Flandres.

Em Eylau, achou-se no cemitério onde o heróico capitão Luís Hugo, o do autor deste livro, susteve durante duas horas, só com a sua companhia que constava de oitenta e três homens, todo o ímpeto do exército inimigo. Pontmercy foi um dos três que saíram vivos daquele cemitério. Esteve em Friedland, depois do que viu Moscovo, Beresina, Lutzen, Bautzen, Dresde, Wachau, Leipzick e os desfiladeiros de Gelenhau-sen; depois Montmirail, Chateau-Thierry, Craon, as margens do Marne, as do Aisne e a temível posição de Laon. Em Arnay-le-Duc, sendo então capitão, carregou à espada dez cossacos e salvou não o seu general, mas o seu cabo. Nessa ocasião ficou gravemente ferido e só do braço esquerdo raram-lhe vinte e sete esquirolas. Oito dias antes da capitulação de Paris, havia pouco que ele nha trocado com um camarada e passado para a cavalaria.

Pontmercy possuía o que no an go regime se chamava a mão dupla, isto é, igual ap dão para manejar como soldado a espada ou a espingarda, e para fazer manobrar como oficial um esquadrão ou um batalhão.

Foi desta ap dão, aperfeiçoada pela educação militar, que nasceram certas armas especiais; os dragões, por exemplo, que são ao mesmo tempo cavaleiros e infantes.

Pontmercy acompanhou Napoleão à ilha de Elba. Em Waterloo era chefe de esquadrão de couraceiros na brigada Dubois, Foi ele quem tomou a bandeira do batalhão de Luneburgo e em seguida a foi lançar coberto de sangue, aos pés do imperador. No momento de se apoderar da bandeira recebera uma cu lada no rosto. O imperador, cheio de contentamento, gritou-lhe: «És coronel, barão e oficial da Legião de Honra!»

Pontmercy respondeu: «Sire, agradeço-vos pela minha viúva». Passada uma hora, caía na vala de Ohain.

Agora, quem era Jorge Pontmercy? Era aquele mesmo salteador do Loire.

Já se viu, pois, alguma coisa da sua história. Depois de Waterloo, Pontmercy rado, como se não deve ter esquecido, do caminho enterrado de Ohain, conseguira reunir-se ao exército, e arrastara-se de ambulância em ambulância, até aos acantonamentos do Loire.

A restauração pusera-o a meio soldo e depois reformara-o, isto é, afastara-o, sob a vigilância superior para Vernon. O rei Luís XVIII, não confirmando nada do que fora feito durante os Cem Dias, não lhe reconhecera a sua qualidade de oficial da Legião de Honra, nem o posto de coronel, nem o tulo de barão. Ele pela sua parte não desprezava a mínima ocasião de se assinar: «Coronel barão Pontmercy», não nha senão uma casaca azul bastante velha, e não saía nunca sem que lhe pusesse na botoeira a roseta de oficial da Legião de Honra. O procurador-régio mandou-o prevenir de que o ministério público o perseguiria por «usar indevidamente» aquela condecoração.

Quando lhe foi comunicado este aviso por um intermediário oficioso, Pontmercy respondeu com amargo sorriso: «Não sei se sou eu que já não entendo francês, ou se é o senhor que já o não fala; o facto é que não entendo». Em seguida saiu oito dias sucessivos com a roseta. Não ousaram mais inquietá-lo. Por duas ou três vezes, o ministro da guerra e o general da província, lhe escreveram com este sobrescrito: Ao senhor comandante Pontmercy. O coronel reenviou as cartas sem as abrir. Por esta ocasião, tratava Napoleão do mesmo modo em Santa Helena, as missivas de Sir Hudson Lowe, dirigidas ao general Bonaparte. Pontmercy chegara afinal, desculpem-nos a frase, a ter na boca a mesma saliva que o seu imperador.

Do mesmo modo havia em Roma soldados cartagineses, prisioneiros, que se recusavam a saudar Fiamínio, e que participava da alma de Aníbal.

Uma manhã, encontrou numa rua de Vernon o procurador-régio, e foi direito a ele:

«Senhor procurador-régio», disse-lhe ele, «ser-me-á permitido usar o meu gilvaz?»

Pontmercy não nha mais coisa alguma além do exíguo meio soldo de chefe de esquadrão. Arrendara em Vernon a casa mais pequena que pudera encontrar e nela vivia só, como há pouco se viu.

No tempo do império, entre duas guerras, achara meio de ter tempo para desposar a menina Gillenormand. O idoso burguês, indignado do ín mo do coração, dera o seu consentimento, suspirando: «Até as mais nobres famílias se vêm obrigadas a isto».