Os Miseráveis
III — De como Gavroche teria feito melhor aceitando a carabina de Enjolras
— É o votante! O convencional! É o representante do povo!
É de crer que ele os não ouviu.
Mabeuf foi direito a Enjolras — os insurgentes afastaram-se diante dele com um certo temor religioso arrancou a bandeira a Enjolras, que ficou petrificado, e então sem que ninguém ousasse cortar-lhe o passo, nem ajudá-lo o velho de oitenta anos, com a cabeça trémula e o pé firme, começou a subir vagarosamente a escada de pedras pra cada na barricada. Era isto tão sombrio e tão grandioso, que todos em volta gritaram: «Chapéus na mão!» A cada degrau que subia, tornava-se mais medonho; os cabelos brancos, a face decrépita, a elevada fronte calva e enrugada, os olhos encovados, a boca aberta e como pasmada, o seu velho braço sustentando a bandeira vermelha, surgindo da sombra e aparecendo cada vez mais à claridade sanguinolenta do archote; todos julgavam ver sair da terra o espectro de 93, empunhando a bandeira do terror.
Quando subiu o úl mo degrau, quando aquele fantasma trémulo e terrível, de pé sobre aquele montão de entulho, na presença de mil e duzentas espingardas invisíveis, se ergueu em face da morte e como se fosse mais forte do que ela, toda a barricada assumiu nas trevas um vulto sobre-humano e colossal.
Houve um silêncio dos que só se observam em volta dos prodígios.
No meio deste silêncio, o velho agitou a bandeira vermelha e gritou:
— Viva a Revolução! Viva a República, a Igualdade, a Fraternidade e a Morte.
Ouviu-se então na barricada um murmúrio ininteligível e rápido, semelhante ao de um sacerdote apressado, desejando chegar ao fim de uma oração. Era provavelmente o comissário de polícia fazendo as intimações legais no outro extremo da rua.
Depois, a mesma voz estridente que tinha perguntado quem vive?, gritou:
— Retirai-vos!
O senhor Mabeuf, pálido, desorientado, as pupilas iluminadas com as lúgubres chamas do desvairo, ergueu a bandeira acima da cabeça e repetiu:
— Viva a república!
— Fogo! — disse a voz,
A esta ordem, segunda descarga, espessa como a primeira, foi dada sobre a barricada.
O velho ajoelhou, tornou a erguer-se, largou a bandeira e caiu para trás na calçada, como uma prancha, estendido e com os braços em cruz.
Debaixo dele surgiu um rio de sangue. O seu velho rosto lívido e triste, parecia olhar para o céu.
Os insurgentes sen ram-se dominados por uma das comoções tão superiores ao homem, que até fazem com que se esqueça da sua defesa e aproximaram-se do cadáver, com um espanto respeitoso.
— Que homens são estes regicidas! — disse Enjolras.
Courfeyrac aproximou-se dele e disse-lhe ao ouvido:
— Isto é só para , não quero diminuir o entusiasmo: este homem estava muito longe de ser um regicida. Conhecia-o, chamava-se Mabeuf; mas não sei o que ele nha hoje.
Foi destemido o pobre diabo!
— Pobre diabo, mas coração de Brutus! — respondeu Enjolras.
E depois erguendo a voz: