Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 314 de 359

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Os Miseráveis

XXIII — Orestes em jejum e Pílades embriagado

Em seguida aproximou-se da mesa em que jaziam Mabeuf e Gavroche, e onde, por

baixo do xaile preto, se viam dois vultos estendidos e inteiriçados, um maior outro mais pequeno, e de modo que os dois rostos se desenhavam vagamente sob as frias dobras do sudário. Debaixo do xaile saía uma mão lívida, que pendia para o chão. Era a do velho.

Enjolras inclinou-se e beijou aquela veneranda mão, como no dia antecedente lhe beijara a fronte.

Eram aqueles dois beijos os únicos que ele, em toda a sua vida, tinha dado.

Resumamos. A barricada lutara como uma porta de Tebas; a casa de pasto lutou com uma casa de Saragoça. Estas resistências costumam ser agrestes. Não se concede quartel.

Não há parlamentado possível, Resignam-se todos a morrer, contanto que matem.

Quando Suchet diz:

— Capitulai!

Palafox responde:

— Até aqui a guerra a tiros de peça, agora a guerra a facadas!

Nada faltou no assalto da casa de pasto, nem as pedras arremessadas de cima do telhado e das janelas sobre os assaltantes, de modo a exasperarem os soldados, esmagando-os horrorosamente, nem os ros dados pelas frestas da adega e das águas-furtadas, nem o furor do ataque, nem o desespero da defesa, nem, finalmente, quando a porta cedeu, as demências frené cas do extermínio. Os assaltantes, ao precipitarem-se pela casa de pasto dentro, tropeçando nas almofadas da porta arrombada e a rada ao chão, não depararam com um único combatente. A escada de caracol, cortada a golpes de machado, jazia no meio da loja; alguns feridos acabavam de expirar; os que não haviam morrido achavam-se no primeiro andar, de onde, pela abertura do tecto, que fora a entrada da escada, rebentou um roteio terrível. Eram os úl mos cartuchos.

Apenas os gastaram, quando àqueles temíveis agonizantes escasseou de todo a pólvora e as balas, cada qual pegou em duas garrafas das que Enjolras nha reservado, e com essas massas Horrivelmente frágeis se postaram na abertura do tecto fazendo, frente aos assaltantes. As garrafas continham água-forte.

Apresentamos em toda a sua nudez estas coisas sombrias da carnificina. Num assalto, de tudo se faz armas. O fogo de ar

cio não desonrou Arquimedes nem o pez a ferver

deslustrou Bayard. Toda a guerra é um horror em que se não repara na escolha dos meios. O fogo dos assaltantes, bem que feito de baixo para cima, e por isso menos comodamente, era terrivelmente mor fero. O rebordo da abertura do tecto não tardou, a cobrir-se de cabeças mortas, das quais escorriam compridos fios vermelhos e fumegantes. O estrondo era inexprimível; um fumo cerrado e ardente quase cobria de trevas o combate. Faltam-nos as palavras para descrever semelhante grau de horror. Já não eram homens os que sustentavam aquela luta, agora infernal. Já não eram gigantes contra colossos. Aquilo nha mais de Milton e de Dante que de Homero. Era um ataque de demónios e uma resistência de espectros!

Era o heroísmo monstro.

XXIII — Orestes em jejum e Pílades embriagado

Finalmente, trepando aos ombros uns dos outros, servindo-se do esqueleto da escada, trepando pelas paredes, agarrando-se ao tecto, acu lando mesmo à beira do alçapão os úl mos que ainda resis am, uns vinte assaltantes, soldados, guardas nacionais, guardas municipais, desordenadamente, a maior parte desfigurados pelos ferimentos que nham recebido, naquela terrível ascensão, os olhos cobertos de sangue, furiosos, selvagens, penetraram na sala do primeiro andar, onde apenas restava de pé um único homem: Enjolras. Sem cartuchos, sem espada, apenas conservava na mão o cano da sua clavina, cuja coronha havia par do na cabeça dos que entravam.

Interpusera o bilhar entre ele e os assaltantes e encostou-se ao canto da sala, onde com olhar al vo, de cabeça erguida, com aquele fragmento de arma na mão, conseguia conservar os assaltantes em respeito, de modo que nenhum ousava acercar-se-lhe.

— Aquele é o chefe! — gritaram os soldados. — Foi o que matou o ar lheiro! Uma vez que ele escolheu o lugar fuzilemo-lo ali mesmo!

— Fuzilem! — disse Enjolras.

E, lançando fora o cano da clavina, cruzou os braços e apresentou o peito.

O heróico desprezo da morte abala sempre os homens. Tão depressa Enjolras cruzou os braços, oferecendo o peito às balas, assim cessou na sala o indefinível rumor da luta, pacificando-se subitamente aquele caos numa espécie de solenidade sepulcral. Parecia que a ameaçadora majestade de Enjolras, desarmado e imóvel, pesava sobre aquele tumulto, e que só com a autoridade do seu olhar tranquilo aquele rapaz, o único que nem levemente nha sido ferido, soberbo, coberto de sangue que nha feito derramar, de agradável aspecto, indiferente como um invulnerável, obrigava aquele sinistro bando a matá-lo com a sua beleza, a que, naquela ocasião, acrescia a al vez, era um como resplendor, e como se fosse tão inacessível à fadiga como aos golpes, conservava-se corado como se nada fosse. Era a ele decerto que aludia a testemunha que perante o conselho de guerra dizia:

— Um dos insurgentes chamava-se Apolo, segundo ouvi dizer.

Um guarda nacional, que já lhe tinha feito a pontaria, baixou a arma, dizendo:

— Parece-me que vou fuzilar uma flor!

No canto oposto onde se encontrava Enjolras, formaram-se doze homens em pelotão e principiaram a preparar silenciosamente as espingardas.

Em seguida, um sargento gritou:

— Apontar!

— Esperem! — atalhou do lado um oficial.

E acrescentou, dirigindo-se para Enjolras:

— Quer que lhe vendem os olhos?

— Não!

— Foi realmente o senhor quem matou o sargento de artilharia?

— Fui!

Grantaire havia alguns instantes que tinha acordado.

Grantaire, como o leitor há-de estar lembrado, dormia, desde o dia antecedente, na sala do primeiro andar, sentado numa cadeira e debruçado sobre uma mesa.

O rapaz era a realização completa da an ga metáfora bebedeira de morte. O

hediondo filtro, composto de cerveja, aguardente e absinto, lançara-o em letargia. Como a mesa sobre que adormecera era pequena, e por isso não servia para a barricada, deixaram-lha. Sempre na mesma posição, com o peito fincado na mesa, a cabeça apoiada nos braços, rodeado de copos, garrafas e canjirões, Grantaire dormia o pesado sono do urso transido de frio ou da sanguessuga saciada. Nada conseguira despertá-lo; nem o estrondo da mosquetaria, nem o dos ros de peças, nem a metralha, que entrava pela janela da sala em que ele se achava, nem o prodigioso sussurro do assalto. Apenas, de espaço a espaço, respondia ao canhão com um ronco. Parecia achar-se ali à espera que alguma bala viesse poupar-lhe o trabalho de acordar. Em volta dele vários cadáveres jaziam, e, à primeira vista, nada o dis nguia dos que dormiam o profundo sono da morte.

O que faz acordar um bêbado não é o estrondo, é o silêncio. Tem-se observado esta singularidade por mais de uma vez. A queda de tudo em volta dele aumentava o aniquilamento de Grantaire; o desabamento servia a embalá-lo. A espécie de pausa que fez o tumulto diante de Enjolras foi um abalo para aquele pesado sono, à semelhança do que produz em nós uma carruagem que roda a galope e de repente pára, fazendo-nos acordar, se nhamos adormecido. Grantaire ergueu a cabeça sobressaltado, estendeu os braços, esfregou os olhos, olhou, bocejou e compreendeu.

O termo da embriaguez assemelha-se ao rasgar de um véu. O bêbado vê um globo e de um só lance de olhos, tudo o que ela lhe ocultava. Volta-lhe de súbito a memória, e conquanto nada saiba do que durante vinte e quatro horas se tem passado, mal abre os olhos, acha-se ao facto de tudo. Tornam-lhe as ideias com instantânea lucidez e o escurecimento da embriaguez, espécie de nuvem de pó que lhe cerrava o cérebro, dissipa-se para dar lugar à clara e límpida intuição das realidades.

Me do a um canto e como que escondido por trás do bilhar, os soldados, com os olhos fitos, não nham sequer dado por Grantaire, e O sargento preparava-se para repe r a ordem de apontar, quando de súbito, ouviram este grito, entoado por uma voz forte que ao lado deles se elevou:

— Viva a república! Esperem lá por mim!