Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 209 de 359

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Os Miseráveis

XV — Jondrette efectua a compra de que falava

— Trá-la consigo?

— Trago.

— Dê-ma.

Mário tirou da algibeira a chave e entregou-a ao inspector, acrescentando:

— A minha opinião é de que deverá levar reforço.

O inspector olhou para Mário como Voltaire olharia para um académico da província,

que lhe propusesse uma rima. Acto con nuo meteu com um só movimento ambas as mãos, que eram enormes, nos bolsos do sobretudo, e rou deles duas pequeninas pistolas de aço, das chamadas pistolas de algibeira e apresentou-as a Mário, dizendo-lhe ao mesmo tempo com vivacidade e num tom breve:

— Pegue nisto. Volte para casa e feche-se no seu quarto, de modo que o julguem ausente. Olhe que estão carregadas, cada uma com duas balas. Segundo me disse, há um buraco na parede; espreite e deixe entrar os súcios; deixe-os mesmo encetar a obra.

Quando julgar a coisa em ponto,e que for tempo de lhe pôr cobro, dispare uma das pistolas. Não o façacedo de mais; o resto é comigo. Um ro para o ar, para o tecto, seja lá para onde for. O que é necessário é que não seja demasiado cedo. Espere que haja começo de execução; como é advogado, deve saber o que isto é.

Mário pegou nas pistolas e meteu-as no bolso.

— Assim não, que fazem muito volume e conhece-se — disse o inspector. — Meta-as antes nos bolsos das calças.

Mário aceitou a observação.

— Agora — prosseguiu o inspector — não há um minuto a perder. Que horas são?

Duas e meia. É para as sete, não é verdade?

— Para as seis — disse Mário.

— Tenho tempo — redarguiu o inspector — mas apenas o necessário. Não se esqueça do que lhe recomendei. Um tiro de pistola.

— Fique descansado — respondeu Mário.

E quando este punha a mão no fecho da porta para sair, o inspector gritou-lhe:

— É verdade, se precisar de mim até lá, venha ou mande aqui. Procure o inspector Javert.

XV — Jondrette efectua a compra de que falava

Instantes depois, seriam três horas, Courfeyrac e Bossuet passavam casualmente pela rua Mouffetard. A neve caía cada vez com mais força, enchendo completamente o espaço.

— Dir-se-ia, ao ver cair esta imensidade de flocos de neve — disse Bossuet a Courfeyrac — haver no céu uma praga de borboletas brancas!

De súbito, deu com os olhos em Mário, que ia mais adiante, a caminho da barreira, com um ar particular e exclamou:

— Olha, vai ali o Mário!

— Já o vi — disse Courfeyrac. — Não lhe falemos.

— Porquê?

— Porque vai ocupado.

— Em quê?

— Então não vês o aspecto dele?

— Que aspecto?

— Não vês que ele vai com ar de quem segue alguém?

— É verdade! — disse Bossuet.

— Olha que olhos aqueles! — tornou Courfeyrac.

— Mas atrás de quem diabo irá ele?

— Por aí atrás de alguma mocetona bem feita e bem parecida que lhe deu no goto!

— Mas é que eu não vejo em toda a rua mocetona nenhuma bem parecida nem por bem parecer! Não se avista uma única mulher!

— Vai atrás de um homem! — exclamou Courfeyrac, depois de se afirmar.

Um homem efec vamente, com um barrete na cabeça, caminhava vinte passos adiante de Mário. Conquanto os dois mancebos apenas o vissem pelas costas, distinguiam-lhe, contudo, a barba, que era grisalha.

Ves a um casaco novo, mas grande de mais para ele e umas calças esfarrapadas, todas sujas de lama.

— Que demónio de figura é aquela? — exclamou Bossuet, soltando uma gargalhada.

— Aquilo é um poeta! — respondeu Courfeyrac. — Os poetas gostam de andar com calças de negociantes de peles de coelho e casacos de pares de reino!

— Vamos atrás de Mário a ver para onde ele vai — disse Bossuet — vamos atrás do homem, heim?

— Bossuet! — exclamou Courfeyrac. — Águia de Meaux, és um bruto como uma casa!

Seguir um homem que vai atrás de outro!

E, apenas proferiu estas palavras, voltaram ambos para trás.

Efectivamente, Mário vira passar Jondrette pela rua Mouffetard e ia-lhe no encalço.

Jondrette caminhava adiante, longe de suspeitar que lhe iam a vigiar os passos.

O vizinho de Mário deixou a rua Mouffetard e entrou para uma das mais sujas baiucas da rua Graciosa, onde se demorou um quarto de hora, tornando depois pela rua Mouffetard. Chegado a esta, entrou numa loja de ferragens, que nesse tempo havia à esquina da rua de Pedro Lombardo, e, poucos minutos depois, Mário viu-o sair de dentro, trazendo na mão um grande formão com um cabo de pau branco, que escondeu debaixo do casaco.

Ao chegar ao princípio da rua do Pe t-Gen lly, tomou à esquerda, caminhando apressadamente na direcção da rua do Petit-Banquier.

O dia declinava; a neve, que durante um momento passara, principiava de novo a cair.

Mário emboscou-se à esquina da rua do Pe t-Banquier, que estava deserta como sempre, e deixou de seguir Jondre e. E fez muito bem, porquanto Jondre e, apenas chegou junto do muro baixo, por trás do qual Mário ouvira estar a falar o homem das barbas e o da cabeleira, voltou-se para se cer ficar de que ninguém o seguia nem o via e saltou rapidamente o muro, desaparecendo por trás dele.