Os Miseráveis
XXIV — Prisioneiro
E, ao dizer isto, levantou-se.
O clarão imenso de todo aquele combate a que ele não havia assis do revelou-se no olhar fulgurante do transfigurado bêbado.
Repetiu:
— Viva a república!
Atravessou a sala com passo firme e foi postar-se defronte das espingardas, ao lado de Enjolras.
— Escusam de matar um por cada vez! — disse ele.
E, voltando-se serenamente para Enjolras, disse-lhe:
— Dás licença?
Enjolras apertou-lhe a mão, sorrindo.
Ainda o rapaz não tinha acabado de sorrir, rebentou a descarga.
Enjolras, trespassado por oito balas, ficou como que pregado à parede, de pé e
apenas com a cabeça curvada.
Grantaire caiu fulminado a seus pés.
Instantes depois, os soldados desalojavam do alto da casa, onde se nham refugiado, os úl mos insurgentes, fazendo fogo por entre uma grade de madeira que havia nas águas-furtadas. Neste combate, travado na parte superior da casa, muitos corpos, alguns dos quais ainda vivos, foram arremessados pela janela. Dois soldados de caçadores, que tentavam levantar o ónibus, foram mortos por dois ros disparados da água-furtada, de onde um homem de blusa, momentos antes,
nha sido precipitado, com uma baionetada na barriga e agonizava no meio da rua. Um soldado e um insurgente, agarrados um ao outro, resvalavam pelo telhado abaixo e caíam ambos na rua, estreitamente ligados num abraço feroz.
Na adega, outra luta semelhante nha lugar. Gritos, ros, um rumor horroroso, a que se seguiu o silêncio.
A barricada estava tomada.
Os soldados principiaram a dar busca em todas as casas das imediações e a perseguir os fugitivos.
XXIV — Prisioneiro
Mário estava, na realidade, prisioneiro. Prisioneiro de Jean Valjean.
A mão que o agarrara por trás, no momento em que ele ia a cair, e cujo contacto havia sentido ao desmaiar, era a de Jean Valjean.
Jean Valjean não tomara parte no combate, a não ser a de se expor a ser morto. A não ser ele, ninguém, naquela suprema agonia, teria do o cuidado dos feridos. Graças a ele, presente como uma providência a todos os lugares onde se consumava aquela grande carnificina, os que caíam eram levantados, transportados para a loja e aí tratados. Nos intervalos livres da sua tarefa, ocupava-se a reparar a barricada. Nada, porém, que pudesse parecer-se com um ro, com um ataque, ou mesmo com uma defesa pessoal saiu de suas mãos. Calava-se e socorria. De resto, apenas tinha algumas arranhaduras. As balas haviam-no respeitado.
Se o suicídio fazia parte das suas cogitações, quando viera para aquele sepulcro, mal sucedido havia sido. Porém nós duvidamos que ele sequer se vesse lembrado desse irreligioso acto, o suicídio.
Jean Valjean parecia não dar por Mário com o espesso fumo do combate; a verdade, porém, é que não despegava os olhos dele.
Mal o rapaz caíra ferido, Jean Valjean saltou com a agilidade de um tigre, arremessou-se para ele como para uma presa e levou-o.
Nessa ocasião, o turbilhão do ataque estava tão violentamente concentrado em Enjolras e na porta da casa de pasto, que ninguém viu Jean Valjean, levando nos braços Mário desfalecido, atravessar o chão descalçado da barricada e desaparecer por trás da volta formada pela casa de pasto.
Como o leitor estará lembrado, a casa de pasto formava uma espécie de cabo na rua, que não só resguardava das balas e da metralha, mas também dos olhares, alguns pés quadrados de terreno. Há, assim, às vezes, num incêndio, um quarto isento das chamas, e nos mares mais tempestuosos, aquém de um promontório ou de uma cordilheira de
fragas, um can nho tranquilo. Fora nessa espécie de recanto do trapézio interior da barricada que Eponina tivera a sua agonia.
Chegado ali, Jean Valjean pousou Mário cautelosamente no chão, encostou-se à parede e circunvagou a vista em torno de si.
A situação era assustadora.
Por enquanto, durante dois ou três minutos talvez, aquele lanço de parede era um abrigo. Mas, depois, como escapar à terrível carnificina? Jean Valjean recordava a angús a em que, oito anos antes, se achara na rua de Polonceau e o modo porque conseguira escapar-lhe; mas, se então fora di cil, hoje era impossível. Diante de si nha aquela silenciosa e inexorável casa de seis andares, que apenas parecia habitada pelo homem morto, que se via debruçado a uma das janelas; à direita nha, é verdade, a pouco elevada barricada da Pequena Truanderie, que fácil era de saltar, porém por cima dela avistava-se uma fileira de baionetas. Era a tropa de linha, postada em observação do outro lado da barricada. Era evidente que transpor a barricada era ir expor-se a um fogo de pelotão e que toda a cabeça que se arriscasse a mostrar-se por cima do pequeno parapeito serviria de alvo a sessenta ros de espingarda. À esquerda ficava o campo do combate.
Era a morte por trás da volta da parede.
Que fazer?
Só um pássaro conseguiria pôr-se dali a salvo.
E era necessário decidir-se quanto antes, descobrir um expediente, tomar uma resolução. Apenas a alguns passos dele, travava-se a luta; felizmente, todos se encarniçavam num ponto único — a porta da casa de pasto; porém, se um soldado, um só, se lembrasse de costear a casa ou atacá-la de flanco, tudo ficaria perdido.
Jean Valjean olhou para a casa fronteira, olhou para a barricada, que lhe ficava à ilharga, e, por úl mo, fitou os olhos no chão com a violência da extremidade suprema, desvairado e como se tivesse por fim trespassar o solo com o olhar.
À força de olhar, um não sei quê vagamente visível em tal agonia se desenhou e tomou formas a seus pés, como se com o olhar vera o poder de fazer aparecer a coisa desejada. Jean Valjean acabava de avistar, a poucos passos de distância, na base da barricada pequena, tão inexoravelmente guardada e vigiada pela parte de fora, por baixo de um monte de pedras que, em parte, a escondia, uma grade de ferro, colocada ao nível do solo. Esta grade, formada de grandes varões transversais, nha quase dois pés quadrados. O caixilho de pedras a que estava segura havia sido arrancado, de modo que a grade estava meia despregada. Através dos varões entrevia-se uma escura abertura, quase semelhante ao cano de uma chaminé ou à abóbada de uma cisterna.
Jean Valjean correu para a grade, com o espírito iluminado pelo clarão da sua an ga ciência das evasões. Desviar as pedras, levantar a grade, pôr aos ombros o corpo de Mário, inerte como um cadáver, descer com este fardo às costas, segurando-se com os cotovelos e os joelhos, para aquela espécie de poço, felizmente pouco profundo, deixar cair por cima de si o pesado alçapão de ferro, sobre o qual tornaram a rolar as pedras arrancadas, tomar pé numa super cie lajeada, a três metros abaixo do solo, tudo isto foi