Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 267 de 359

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Os Miseráveis

III — Justa indignação de um cabeleireiro

A que dava pelo nome de a Patagon bateu as mãos uma na outra, com ar de escândalo, e exclamou:

— Não tem que ver! Está o mundo perdido! Vocês conhecem aquele barbicha ali da esquina? Pois até agora via-o passar sempre pela manhã com uma serigaita pelo braço; hoje vi-o passar dando o braço a uma arma! Disse-me a a Bacheux que houvera a semana passada uma revolução em... em... ora que não mie lembra... Onde há a vitela!

Em Pontoise. E senão vejam, aquele pelintra pequeno, o Senhor me perdoe, ali com uma pistola na mão! Creio que nos Celes nos está tudo atacado de peças. Ora como querem que haja paz com uns mafarricos assim, que não fazem senão causar sustos à gente e meter-nos a todos em trabalhos! E dizermos agora, quando tudo principiava a estar em sossego, depois de tantos barulhos que tem havido! Fortes malditos! Deram cabo daquela santa rainha, que eu vi por meus olhos passar para a guilho na, e ainda andam com mais coisas, tudo para fazer encarecer o rapé! Já é pouca vergonha! Mas deixa, meu cara estanhada, que também me hei-de regalar de te ver guilhotinar!

— Cala-te lá, centopeia! — disse Gavroche. — Assoa primeiro o promontório, se queres falar!

E, dito isto, continuou o seu caminho.

Ao chegar à rua da Calçada, a trapeira acudiu-lhe à lembrança e teve consigo este solilóquio:

— Fazes mal em insultar os (revolucionários, a carroça do lixo. Eu, se aqui vou com esta pistola, é para teu bem. É para achares pelas ruas mais coisas que ainda possam servir para comer!.

De repente, porém, ouviu bulha atrás de si e voltou-se. Era a porteira Patagon, que o tinha seguido e lhe gritava de longe, mostrando-lhe o punho cerrado:

— Bem mostras que és enjeitado, pedaço de tratante!

— Sabe que mais, minha avó? — exclamou Gavroche.

— Vá pregar a outra freguesia, que eu não estou para a aturar!

Pouco depois, ao passar defronte do palácio Lamoignon, soltou este brado de guerra:

— A caminho para a batalha!

E, subitamente acome do de um acesso de melancolia, acrescentou com um ar de lástima, que parecia querer enternecer a pistola:

— Que pena! Haver pôr aí tanto cão e tu não teres um!

Em seguida, encaminhou-se para o Olmo de S. Gervásio.

III — Justa indignação de um cabeleireiro

O digno cabeleireiro que expulsara os dois pequenos, aos quais Gavroche franqueara o intes no paternal do elefante, estava naquele momento na sua loja, ocupado em barbear um velho soldado legionário, que servira no tempo do império. Entretanto conversavam. O barbeiro nha provavelmente falado ao veterano da revolta, depois falaram no general Lamarque e do imperador. Daqui resultara um diálogo de barbeiro e de soldado, que se fosse ouvido por Proudhomme seria enriquecido com arabescos e intitulado: Diálogo da navalha de barba e do sabre.

— Que tal montava a cavalo o imperador? — dizia o barbeiro.

— Mal. Não sabia cair; por isso não caía nunca.

— Tinha bons cavalos? Devia ter bons cavalos o imperador.

— No dia em que ele me condecorou, reparei-lhe bem para a cavalgadura. Era uma égua de corridas, toda branca. Tinha as orelhas muito afastadas uma da outra, era muito selada, nha uma cabeça muito fina, com uma estrela preta na testa, o pescoço muito comprido, os jarretes fortemente ar culados, os ilhais salientes, as espáduas oblíquas e forte movimento de garupa. Tinha pouco mais de quinze palmos de altura.