Os Miseráveis
VIII — Dois homens impossíveis de descobrir
A vida tem destas cortinas que descem, e Deus passa ao acto seguinte.
E ele próprio, seria, realmente, o mesmo homem?
Ele, o pobre, estava rico; ele, o abandonado, nha uma família; ele, o desesperado, estava em vésperas de desposar Cosette.
Parecia-lhe que nha atravessado um: túmulo, em que entrara negro e de que saíra branco, tendo ficado dentro dele os que o haviam acompanhado.
Às vezes estes entes do passado apresentavam-se-lhe todos, volteavam em roda dele e enchiam-no de tristeza; o seu pensamento refugiava-se então em Cose e e ele recobrava a sua primi va serenidade, mas só esta felicidade era capaz de afugentar semelhante catástrofe.
Fauchelevent quase pertencia ao número desses entes desaparecidos.
Mário hesitava em acreditar que o Fauchelevent da barricada fosse aquele
Fauchelevent em carne e osso tão gravemente sentado ao lado: de Cosette.
O primeiro não podia deixar de ser um dos muitos pesadelos que o acometeram nas suas horas de delírio.
Como, porém, os seus génios pareciam totalmente diversos, era impossível a Mário dirigir a menor pergunta a Fauchelevent. Nem sequer se lembrou de o fazer.
Já noutra parte deixámos apontada esta particularidade característica.
É mais frequente do que se julga o caso de dois homens que têm um segredo comum, e que por uma espécie de tácito acordo, não trocam entre si a menor palavra a tal respeito.
Uma ocasião, porém, Mário tentou uma experiência. Fez convergir a conversa sobre a rua de Chanvrerie, e voltando-se para Fauchelevent, disse-lhe:
— Conhece perfeitamente essa rua?
— Que rua?
— A rua da Chanvrerie?
— Não tenho ideia nenhuma do nome dessa rua! — respondeu Fauchelevent, no tom mais natural do mundo.
A resposta, que se referia ao nome da rua e não à própria rua, pareceu a Mário mais concludente do que na realidade era.
— Decididamente — disse ele consigo —, tenho estado a sonhar. Tive uma alucinação!
Era alguém que se parecia com ele. Fauchelevent nunca esteve na barricada!
VIII — Dois homens impossíveis de descobrir
Apesar da sua grande ventura, Mário não sen a o espírito totalmente isento de outras preocupações.
Enquanto não chegava o dia do casamento, cujos prepara vos prosseguiam, o rapaz mandou proceder a escrupulosas averiguações retrospectivas.
Mul plicadas razões de gra dão a isso o moviam; devia-a por seu pai, devia-a por si mesmo.
Merecia-lha Thenardier, merecia-lha o desconhecido que o transportara da barricada para casa de seu avô.
Mário empregava toda a sua diligência em descobrir esses dois homens, não querendo esquecê-los exactamente quando ia casar, isto é, ser feliz, receoso de que estas dívidas do dever não pagas viessem a turvar-lhe a existência, tão luminosa agora.
Era-lhe impossível deixar em aberto estas dívidas atrasadas, e por isso não queria entrar no futuro sem levar quitação do passado.
Embora Thenardier fosse um celerado, nem por isso deixava de ter sido o salvador do coronel Pontmercy. Para todos seria um facínora, menos para Mário.
E Mário, ignorando a verdadeira cena do campo de batalha de Waterloo, não sabia por isso de uma par cularidade — que seu pai se achara para com Thenardier na estranha situação de lhe dever a vida, mas não lhe ser devedor de reconhecimento.
Nenhum dos diversos agentes que Mário empregou para esse fim conseguiu saber onde parava Thenardier. Quanto a este, pareciam perdidas todas as esperanças de o encontrar. A mulher morrera na prisão antes de concluído o processo. Os únicos
membros vivos desse las moso grupo, Thenardier e sua filha Azelma, nham-se de novo sumido nas trevas. Sobre eles se fechara silenciosamente o abismo do incógnito social.
Nem ao menos se avistava na super cie aquele tremor, aqueles sombrios círculos concêntricos, que denunciam ter caído naquele ponto um objecto e poder-se deitar ali a sonda.
Tendo morrido a Thenardier, estando Boulatruelle fora de cena, havendo Claquesous desaparecido, e tendo fugido da prisão os principais réus, o processo instaurado por ocasião da cilada do casarão Gorbeau quase havia abortado. O negócio ficara sobremodo obscuro. O tribunal criminal teve de contentar-se com os dois réus de menos importância, Panohaud, por outra, Printanier ou Bigrenaille, e Demi-Liard, por outra, Deux Milliards, que foram contraditoriamente condenados a dez anos de galés. Aos seus cúmplices evadidos e contumazes foi imposta a pena de trabalhos forçados por toda a vida. Thenardier, como chefe da quadrilha, foi também julgado à revelia e condenado à morte.
A única coisa que se sabia a respeito de Thenardier era esta condenação, reflec ndo o seu sinistro clarão sobre esse nome perdido, como uma tocha junto de um esquife.
É evidente que esta condenação, fazendo que Thenardier se ocultasse ainda mais com receio de ser agarrado, tornava dobradamente espessas as trevas em que ele já se achava envolto.
Quanto ao outro, ao desconhecido salvador de Mário, as averiguações foram ao princípio coroadas de bom êxito, porém em seguida o resultado foi nulo. Conseguiu-se descobrir o carro em que Mário nha sido transportado à rua das Mulheres do Calvário na noite do dia 6 de Junho. O cocheiro declarou que, nesse dia, es vera «estacionado», por ordem de um agente de polícia, desde as três horas da tarde até à noite, no cais dos Campos Elíseos, por cima do; desaguadouro do Cano Grande; que, por volta das nove horas, se abrira a grade que deita para a ribanceira, dando saída a um homem que conduzia às costas outro, na aparência morto; que o agente, que se achava de observação naquele sí o, prendera o homem vivo e se apoderara do morto; que, por ordem do mesmo agente, ele, cocheiro, recebera no seu carro «aquela turbamulta»; que se dirigiram primeiro para a rua das Mulheres do Calvário, onde deixaram o homem morto, o qual era o senhor Mário, pois muito bem o conhecia, conquanto «agora»
estivesse vivo; que em seguida o agente e o outro homem se tinham metido outra vez no carro, e que ele chicoteara os cavalos e se pusera de novo a caminho, até que, a poucos passos dos Arquivos, o mandaram parar, e, aí desceram ambos e o mandaram: embora, depois de lhe pagar; que não sabia mais nada, senão que, nessa noite, fazia um escuro de meter medo.
Mário, conforme noutra parte já dissemos, de nada se lembrava. Recordava-se apenas de ter sen do o contacto de uma robusta mão. agarrando-o por trás, no momento em que ia a cair no meio da barricada; desde esse instante, não tornara a ter conhecimento de nada, senão quando recobrara os sentidos em casa de seu avô.
Debalde se perdia em conjecturas.
Não podia duvidar da sua própria identidade.
Porém como era que, tendo ele caído ferido na barricada da rua da Chanvrerie, foi encontrado pelo agente de polícia na ribanceira do Sena, próximo à Ponte dos Inválidos?
Alguém o transportara daquele sí o para os Campos Elíseos. Mas como? Pelo encanamento. Maravilhosa dedicação.
E quem fora esse alguém?
Eis o homem que Mário procurava.
A respeito desse homem, que fora o seu salvador, nada era possível encontrar; nem, o menor vestígio nem o mais pequeno indício.
Posto que se visse na necessidade de proceder com a maior cautela, Mário levou as suas indagações até à prefeitura de polícia, onde as informações que lhe deram nem o mais leve esclarecimento lhe proporcionaram.
A prefeitura ainda sabia menos a esse respeito do que o cocheiro do carro. Não se recebera ali parte de nenhuma prisão efectuada no dia 5 de Junho, junto ao Cano Grande; não se conhecia par cipação de nenhum agente sobre semelhante facto, que na prefeitura era considerado como uma fábula, cuja invenção era atribuída ao cocheiro.
Um cocheiro é capaz de tudo, mesmo de imaginação, se se trata de fazer jus a alguma boa gorjeta. O facto, contudo, era certo, e tão certo, que Mário não podia duvidar dele, sem duvidar da sua própria identidade.
Tudo, neste singular enigma, era inexplicável.
Que caminho teria levado aquele misterioso homem que o cocheiro vira sair da grade do Cano Grande, conduzindo às costas Mário desfalecido, esse homem a quem o agente de polícia, ali postado de vigia, prendera em flagrante delito de salvação de um insurgente? Que caminho teria levado o próprio agente? Porque mo vo se teria calado?
O homem sempre conseguiria, enfim, evadir-se-lhe? Teria subornado o agente? Porque mo vo não dava esse homem o menor rumor de si a Mário, que lhe devia tudo? Não era menos para admirar o seu desinteresse do que a sua dedicação. Porque mo vo se não dava esse homem a conhecer? Por ser superior à recompensa? Mas ninguém o é ao reconhecimento. Teria, acaso, morrido? Que homem seria? Como seriam as suas feições?
Ninguém o podia dizer.
O cocheiro respondia:
— Nessa noite fazia um escuro de meter medo.
Biscainho e -Nicole e, no meio do seu susto, apenas nham feito reparo no seu jovem amo todo ensanguentado. Só o porteiro, que alumiara com a sua vela a trágica chegada de Mário, reparara no homem de que se tratava, e eis os sinais que ele dava:
— Só olhar para semelhante figura metia medo!
Na esperança de que algum dia lhe poderia ser ú l para o fim que nha em vista, Mário mandou conservar a roupa ensanguentada que trazia ves da, quando o conduziram a casa de seu avô. Ao examinar o casaco, reparou que uma das abas se achava extravagantemente-rasgada. Faltava-lhe um bocado.
Uma noite, estando Mário a falar em presença de Cose e e de Jean Valjean de toda esta singular aventura, do sem número de informações a que havia procedido e da inu lidade dos seus esforços, reparou no rosto do «senhor Fauchelevent» e a sua frieza