Os Miseráveis
IV — Composição da quadrilha
Aos dezoito anos já nha por trás de si um rasto de muitos cadáveres. Mais de um viandante jazia de braços estendidos na sombra deste miserável, com o rosto num lago de sangue. Frisado, embanhado, cintura delgada, espáduas de mulher, busto de oficial prussiano, admirado das pros tutas do boulevard, casse-tête no bolso, flor ao peito; eis o retrato deste peralta do sepulcro.
IV — Composição da quadrilha
Estes quatro bandidos juntos formavam uma espécie de Proteu, serpenteando por entre a polícia e forcejando por escapar às indiscretas vistas de Vidocq «sob diversa figura, árvore, chama, fonte», emprestando-se mutuamente os nomes e a lábia, escondendo-se na própria sombra, caixas de segredos e asilos uns dos outros, desfazendo as suas personalidades como quem ra um nariz pos ço num baile de máscaras, às vezes simplificando-se a ponto de se tornarem num só, outras multiplicando-se a ponto do próprio Ooco-Lacouor os tomar por uma multidão.
Estes quatro homens não eram quatro homens, eram uma espécie de misterioso ladrão com quatro cabeças operando sobre Paris em ponto grande; eram o monstruoso pólipo do mal habitando a cripta da sociedade.
Em consequência das suas ramificações e da rede subjacente das suas relações, Babet, Gueulemer, Claquesous e Montparnasse nham a empresa geral das ciladas do departamento do Sena. Pra cavam no transeunte o golpe de Estado inferior. Os descobridores de ideias neste género, os homens de imaginação nocturna, dirigiam-se a eles para a execução. Fornecia-se aos quatro gatunos a lona e eles encarregavam-se de pôr o espectáculo em cena. Estavam sempre em circunstâncias de poder prestar um pessoal proporcional e conveniente a todos os atentados em que se tornasse necessário um empuxão de ombros e que fossem bastante lucra vos. A qualquer crime que andasse à busca de braços, eles alugavam-lhe cúmplices. Tinham uma companhia de actores de trevas à disposição de todas as tragédias de cavernas De ordinário, reuniam-se ao anoitecer, hora do seu despontar nas steppes próximas à Salpêtrière, e aí conferenciavam sobre o emprego que dariam às doze horas de trevas que tinham diante de si.
Patron-Minette, eis o nome que na Circulação subterrânea davam à associação destes quatro homens. Na an ga e extravagante linguagem popular, que vai gradualmente decaindo, Patron-Minette significa a manhã, assim como entre cão e lobo significa a noite.
A denominação de Patron-Minette derivava, provavelmente, da hora a que terminava a sua missão, sendo a madrugada o momento da desaparição dos fantasmas e da separação dos bandidos. Estes quatro homens eram conhecidos sob esta rubrica.
Quando o presidente do tribunal criminal foi à prisão interrogar Lacenaire sobre certo crime que ele negava, perguntou-lhe: «Quem fez isto?» Ao que Lacenaire deu a seguinte resposta enigmática para o magistrado, mas clara para a polícia:
— Talvez fosse Patron-Minette.
Às vezes adivinha-se uma peça pelo enunciado dos personagens; do mesmo modo pode quase apreciar-se uma quadrilha pela lista dos bandidos. Eis as denominações dos
principais filiados da associação Patron-Mine e, denominações que sobrevivem nas memórias especiais:
Panchaud, ou Printanier ou Bigrenaille.
Brujon (havia uma dinas a de Brujon, de que não nos damos por desobrigados de dizer alguma coisa).
Boulatruelle, o cantoneiro, de quem já nesta história fizemos menção.
Laveuve.
Finistère
Homero-Hogu, negro.
Mardisoir.
Dépêche.
Fauntleroy, conhecido por Ramalheteira.
Glorieux, forçado solto.
Barrecarosse, conhecido por senhor Dupont.
Lesplanade-du-Sud.
Poussagrive.
Carmagnolet.
Kruideniers, conhecido por Bizarro.
Mangedentelle.
Les-pieds-en-air.
Demi-liard, ou DeuxnMilliarids.
Etc., etc.
Omi mos outros, que não são dos piores. Estes nomes têm figuras. Não exprimem somente criaturas, mas espécies. Cada um destes nomes corresponde a uma variedade destes disformes tortulhos do subterrâneo da civilização.
Estas criaturas, pouco pródigas dos seus rostos, não eram das que se vêem pelas ruas.