Os Miseráveis
I — Luz plena
E não obstante, quem segue a clínica social encolhe por instantes os ombros. Os mais fortes, os mais compassivos, os mais lógicos, têm as suas horas de desânimo.
O futuro chegará? Parece que se pode quase fazer esta pergunta, quando se vêem tantas sombras terríveis. Sombras face a face dos egoístas e dos miseráveis. Nos egoístas, os preconceitos, as trevas da educação rica, o ape te crescendo pelo inebriamento, uma atordoação de prosperidade que ensurdece, o receio de sofrer que, em alguns chega até à aversão pelos que sofrem, um contentamento implacável, o eu tão inchado que fecha a alma; nos miseráveis, a cobiça, a inveja, a raiva de ver os outros gozar, os profundos abalos da besta humana para as saciedades, os corações cheios de nevoeiro, a tristeza, a fatalidade, a ignorância impura e simples.
Deve continuar-se a erguer os olhos para o céu?
O ponto luminoso que ali se dis ngue é acaso dos que se apagam? O ideal é medonho, visto assim, perdido nas profundidades, pequeno, isolado, impercep vel, brilhante, mas rodeado de todas as grandes ameaças negras, monstruosamente amontoadas em torno dele; todavia não está em maior perigo do que uma estrela nas goelas das nuvens.
LIVRO OITAVO — ENCANTOS E AMARGURAS
I — Luz plena
O leitor compreendeu, decerto, que Eponina, tendo reconhecido através da grade a habitação da casa da rua Plumet, aonde a Magnon a mandara, começara por afastar dela os bandidos, depois conduzira ali Mário, e que este ao cabo de muitos dias de êxtase diante daquela grade, arrastado pela força que impele o ferro para o imã e o apaixonado para as pedras de que é feita a casa de sua amada, acabara por entrar no jardim de Cosette como Romeu no de Julieta. Isto mesmo fora-lhe mais fácil do que Romeu; Romeu era obrigado a escalar um muro e Mário só teve de entortar um dos varões da decrépita grade, que vacilava em seu alvéolo enferrujado ao modo dos dentes da gente velha.
Mário era delgado, portanto passou facilmente pela estreita abertura. Como nunca passava ninguém pela rua e, como além disso, Mário nunca entrava no jardim senão de noite, não corria o risco de ser visto.
A par r do momento abençoado e santo em que um beijo desposara aquelas duas almas, Mário voltou ali todas as noites. Se Cose e, num tal momento da sua vida, vesse caído no amor de um homem pouco escrupuloso e liber no, estava perdida; por que existem naturezas generosas que se entregam, e Cose e era uma delas. Uma das magnanimidades da mulher consiste em ceder. O amor, na altura em que é absoluto, par cipa de não sei que celeste cegueira do pudor. Mas que perigos correis, oh, nobres almas! Muitas vezes dais-nos o coração e nós tomamos-vos o corpo! Ficais com o coração, e, estremecendo, olhais para ele na sombra. O amor não tem meio termo: ou perde ou salva. O destino humano está todo neste dilema.
Não há fatalidade que estabeleça mais inexoravelmente o problema da perdição ou salvação como o amor. O amor é a vida, se não é a morte. Berço, mas também cova. O
mesmo sen mento diz sim e não no coração humano. De todas as coisas feitas por Deus, é o coração humano a que destaca maior porção de luz e maior escuridão!
Quis Deus que o amor que Cosette encontrou fosse um dos amores que salvam.
Enquanto durou o mês de Maio daquele ano de 1832, encontraram-se todas as noites no pobre jardim selvá co, sob aquela moita cada vez mais odorífera e mais espessa, dois entes compostos de todas as cas dades e de todas as inocências, trasbordando todas as felicidades, mais vizinhos dos arcanjos que dos homens, puros, honestos, inebriados, brilhantes, que resplandeciam um para o outro nas trevas.
Cose e julgava ver uma auréola em Mário, e Mário julgava ver um resplendor em Cose e. Tocavam-se, contemplavam-se, apertavam-se reciprocamente as mãos, estreitavam-se um contra o outro; mas havia entre eles uma distância que nunca transpunham. Não porque a respeitassem; ignoravam-na. Mário sen a uma barreira, a pureza de Cose e; esta sen a um apoio, a lealdade de Mário. O primeiro beijo fora também o úl mo. Depois, não fora Mário além de tocar com os lábios a mão, ou o lencinho do pescoço, ou um anel dos cabelos de Cosette.
Cosette era para ele um perfume e não uma mulher.
Respirava-a. Ela não recusava nada, ele nada pedia.
Cose e era feliz e Mário sen a-se sa sfeito. Viviam no arrebatador estado a que
poderia chamar-se deslumbramento de uma alma por outra alma. Era o inefável e primeiro abrasamento de duas virgindades no ideal. Dois entes encontrando-se na Jungfrau. Naquela hora em que a voluptuosidade se cala absolutamente sob a omnipotência do êxtase, Mário, o puro e seráfico Mário, seria mais capaz de entrar em casa de uma mulher pública do que de erguer o ves do de Cose e até à altura do tornozelo.
Uma vez ao luar, Cose e curvou-se para apanhar um objecto que lhe caíra; com este movimento abrira-se-lhe um pouco o peito do ves do e deixou ver o começo do seio; Mário afastou os olhos.
Que se passava entre aqueles dois entes? Nada. Adoravam-se.
À noite, quando estavam juntos, parecia-lhes aquele jardim um lugar vivo e sagrado.
Todas as flores se abriam em torno deles e lhes enviavam incensos; eles abriam as almas e espalhavam-nas pelas flores. A vegetação lasciva e vigorosa estremecia cheia de seiva e de transporte em torno daqueles inocentes, e eles diziam palavras de amor que faziam estremecer as árvores.
Que palavras eram estas? Eram sopros. Nada mais. Bastavam estes sopros para perturbar e abalar aquela natureza. Mágico poder que dificilmente se compreenderia, se acaso se lessem num livro aquelas conversações próprias para serem arrebatadas e dissipadas como fumo pelo vento sobre a folhagem. Tirai aos murmúrios de dois amantes a melodia que sai da alma e que os acompanha como uma lira, o que resta não é mais do que uma sombra; dizeis então: O quê! Pois é apenas isto! Decerto; são criancices, repe ções, risos por nada, inu lidades, Frioleiras, quanto há no mundo de mais sublime e de mais profundo! As únicas coisas que valem a pena serem ditas e escutadas!
O homem que não ouviu nunca estas bagatelas, estas pobrezas, o homem que nunca as pronunciou, é um imbecil e um mau homem.
Cosette dizia a Mário:
— Queres saber?...
(Em tudo isto, e através de tão celeste virgindade, sem que fosse possível mais a um do que a outro dizer como, tratavam-se por tu).
— Queres saber? Chamo-me Eufrásia.
— Eufrásia? Não é tal, chamas-te Cosette.
— Ora! Cose e é um nome muito feio que me deram quando eu era pequenina, mas o meu verdadeiro nome é Eufrásia. Não gostas do nome de Eufrásia?
— Gosto... Mas Cosette não é um nome feio.
— Gostas mais dele do que de Eufrásia?
Eu... gosto, sim.
— Então também eu gosto mais. É bem bonito Cosette. Chama-me Cosette.
E o sorriso com que acompanhava as suas palavras, fazia deste diálogo um idílio dum bosque que fosse situado no céu.
Noutra ocasião, ela fitou-o e exclamou:
— O senhor é interessante, bonito, tem muita inteligência, é muito mais instruído do
que eu, mas desafio-o com esta palavra: Amo-te!
E Mário, em pleno firmamento, julgava ouvir uma estrofe recitada por uma estrela.
Outras vezes era ela que lhe batia com o dedo na face para ele não tossir e lhe dizia:
— O senhor faz favor de estar calado? Em minha casa não é permi do tossir sem minha licença. Não é bonito tossir, para dar cuidados à gente! Quero que tenhas saúde, porque, se não a tens, que será de mim? Que queres tu que eu faça?
Isto era tudo simplesmente divino.
Uma vez, Mário disse a Cosette:
— Durante certo tempo acreditei que te chamavas Úrsula.
Foi isto uma coisa que a fez rir durante todo o tempo que naquela noite es veram juntos.
No meio de outra destas tagarelices, sucedeu-lhe exclamar:
— Um dia no Luxemburgo tive vontade de acabar de destruir um inválido!
Mas calou-se de repente e não se adiantou mais. Teria de falar na liga de Cose e e isso ser-lhe-ia impossível. Havia nisto uma aproximação desconhecida, a carne, diante da qual recuava com uma espécie de susto sagrado aquele imenso amor inocente.
Mário não fazia outra ideia da vida com Cose e senão aquela; ir todas as noites à rua Plumet, afastar o velho e condescendente varão da grade do presidente, sentar-se ao lado dela naquele banco, ver através do arvoredo a cin lação da noite em seu começo, fazer coabitar a prega do joelho da sua calça, com a roda do ves do de Cose e, acariciar-lhe a unha do dedo polegar, tratá-la por tu e respirar um depois do outro a mesma flor, sempre, indefinidamente. Durante este tempo passavam-lhe nuvens por sobre a cabeça. De cada vez que o vento sopra leva mais sonhos do homem do que de nuvens do céu.
E não se diga que este amor quase severo fosse absolutamente des tuído de galantaria, Não. Dirigir cumprimentos àquela que se ama, é a primeira maneira de fazer carícias, é uma semi-audácia ensaiando-se. O cumprimento é uma espécie de beijo através do céu. A voluptuosidade sente-se nele não obstante ocultar-se. O coração em presença da voluptuosidade recua, para amar melhor. As carícias de Mário, todas saturadas de quimeras, eram para assim dizer, da cor do céu.
Os passarinhos que voando nas alturas passam pelo lado dos anjos devem ouvir daquelas palavras. Não obstante, aliava-se a elas a vida, ahumanidade, toda a quan dade de posi vo de que Mário era capaz. Era o que se dizia na gruta, prelúdio do que se dirá na alcova; uma expansão lírica, a estrofe e o soneto confundidos, as graciosas hipérboles do arrulho, todos os requintes da adoração compondo um ramalhete e exalando subtil perfume, um inefável chilrear de coração para coração.