Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 257 de 359

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Os Miseráveis

I — Jean Valjean

— Acudam! Acudam!

Aos gritos de Gillenormand acudiu sua filha, em seguida os criados, e ele con nuou em tom lastimoso e quase sufocado:

— Corram atrás dele, agarrem-no! Que mal lhe fiz eu? Ele está doido! Lá vai! Meu Deus! Meu Deus! Desta vez vai e não torna a voltar! E dirigiu-se à janela que deitava sobre a rua, abriu-a com as trémulas mãos e começou a gritar, meio debruçado sobre o peitoril, enquanto Biscainho e Nicolette o seguravam.

— Mário! Mário! Mário!

Porém, Mário já o não podia ouvir, porque a este tempo dobrava a esquina da rua de S. Luís.

O contristado octogenário apertou então por duas ou três vezes com gesto de angús a a cabeça entre as mãos, recuou, cambaleando, até junto de uma cadeira, e deixou-se, por fim, cair nela, sem pulso nem voz, sem poder suster as lágrimas, com a cabeça pendente, os lábios trémulos, o gesto estúpido, os olhos embaciados e o coração enlutado, como se um véu negro lho cobrisse.

LIVRO NONO — QUE DESTINO É O SEU?

I — Jean Valjean

Quer fosse por prudência, quer por desejo de se concentrar todo em si, quer, finalmente, em virtude de uma dessas insensíveis mudanças de hábitos, que pouco a pouco se introduzem em todas as existências, Jean Valjean, por esta época, só muito raras vezes se resolvia a sair com Cose e. As quatro horas do mesmo dia em que Mário foi a casa de seu avô, achava-se ele só, sentado na base de um dos taludes mais solitários do Campo de Marte, ves do com a sua jaqueta de operário e umas calças de fazenda escura, tendo na cabeça o seu boné de comprida viseira, que lhe escondia quase todo o rosto. Os seus temores e apreensões a respeito de Cosette tinham passado; o que durante algum tempo o assustara e perturbara nha-se dissipado; porém havia uma ou duas semanas que o torturavam ansiedades de outra natureza.

Um dia, andando a passear no boulevard, avistara Thenardier; graças ao disfarce, Thenardier não o conhecera; porém, daí por diante, Jean Valjean tornou-o a ver muitas vezes e actualmente nha a certeza de que ele girava pelas imediações da sua casa da rua Plumet. Esta circunstância bastara para o fazer tomar uma resolução decisiva. Em Thenardier resumiam-se todas as espécies de perigos. Além disto, Paris principiava de se alvoroçar, e destas perturbações polí cas resultava o inconveniente, em verdade gravíssimo para quem nha a ocultar algum facto da sua vida, de que a polícia se nha tornado em extremo desassossegada e sombria, podendo portanto acontecer que ela, procurando um homem como Pepin ou Morey, descobrisse outro homem como Jean Valjean. Por conseguinte, Jean Valjean resolvera sair de Paris e até de França, e passar a Inglaterra. Prevenira Cose e da sua resolução e queria par r antes de oito dias. Naquela tarde, sentara-se no talude do Campo de Marte e pusera-se a perpassar pelo espírito todas estas coisas: Thenardier, a polícia, a viagem e a dificuldade de conseguir um passaporte.

Todos estes pensamentos, portanto, o tornavam sobremodo cuidadoso.

Acrescia ainda, para maior desassossego dele, um facto inexplicável e recente, de que ele ainda estava muito impressionado. Na manhã daquele dia, tendo-se levantado muito cedo e andando a passear no jardim, antes de Cose e abrir as janelas do seu quarto, dera de chofre com os olhos nesta linha gravada na parede, talvez com algum prego:

«Rua dos Vidraceiros, número 16».