Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 184 de 359

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Os Miseráveis

III — Efeitos da Primavera

Quando Mário passou por diante dela não pôde ver-lhe os olhos, que conservava constantemente baixos. Apenas lhe viu as compridas pestanas castanhas, carregadas de sombra e de pudor.

Isto não impedia que a linda criança se sorrisse ouvindo o que lhe dizia o homem dos cabelos brancos; e não havia nada tão arrebatador como aquele fresco sorriso com os olhos baixos.

No primeiro momento, Mário julgou que era outra filha do mesmo homem, uma irmã, sem dúvida, da primeira. Mas quando o invariável i nerário do passeio o fez passar segunda vez junto do banco e a examinou com mais atenção, reconheceu ser a mesma.

Em seis meses tornara-se a menina quase uma senhora; eis toda a diferença. Não há fenómeno mais frequente do que este. Há um momento em que as meninas

desabrocham num abrir e fechar de olhos, e em que de repente se tornam rosas. Ontem deixaram-se crianças, hoje acham-se inquietadoras.

Aquela não só nha crescido, mas nha-se idealizado. Como três dias de Abril são suficientes a certas árvores para se cobrirem de flores, assim seis meses lhe bastaram para ela se cobrir de beleza. Também tinha chegado o seu Abril.

Vêem-se às vezes pessoas que, pobres e mesquinhas, parecem despertar passando subitamente da indigência ao fausto, principiando a fazer despesas de toda a qualidade, tornando-se de repente salientes, pródigas e magnificentes. É o efeito de alguma grande pensão, cujo primeiro prazo se venceu ontem. Do mesmo modo a donzela chegara também ao termo do seu semestre.

Já não era a recolhida de outrora com o seu chapéu de pelica, o seu ves do de merino, os seus sapatos de rapaz de escola e as suas mãos vermelhas; com a beleza viera-lhe o gosto; era uma jovem bem trajada com uma espécie de simples, rica e despretensiosa elegância. Trazia um ves do de damasco preto, um mantelete da mesma fazenda e um chapelinho de crepe branco. Adivinhava-se-lhe através das alvas luvas a delicadeza daquela mão que brincava com o cabo de uma sombrinha de marfim chinês, e desenhava-lhe o borzeguim de seda a pequenez do pé. Quem por ela passava sen a um penetrante olor de juventude exalando-se-lhe da roupa.

Quanto ao velho que a acompanhava, em nada tinha mudado.

Da segunda vez que Mário passou por diante da jovem, esta levantou as pálpebras e deixou ver uns profundos olhos azuis celestes, mas a expressão do seu olhar era ainda simplesmente a do olhar de uma criança. Olhou para Mário com a mesma indiferença com que olharia para o gaiatozinho, que andava a brincar debaixo dos sicómoros, ou para o vaso de mármore que assombrava o banco em que ela se achava; e Mário continuou também o seu passeio com o pensamento noutra coisa.

Passou depois mais quatro ou cinco vezes próximo dela, mas sem ao menos lhe deitar os olhos.

Nos dias que se seguiram voltou, como de costume, ao Luxemburgo; como de costume, lá encontrou o «pai e a filha», porém não mais fez reparo neles. Tanto pensava na jovem agora que ela era bela, como quando ela era feia. Con nuava a passar próximo do banco em que ela ia sentar-se, porque era esse o seu costume.

III — Efeitos da Primavera

Certo dia, estando o ar tépido, o Luxemburgo inundado de sombra e sol, o céu puro como se os anjos o vessem lavado pela manhã cedo, os passarinhos soltando os seus costumados gorjeios na espessura dos castanheiros, Mário nha aberto toda a sua alma à natureza, e, alheado de tudo, vivia e respirava. Nesse dia, passando próximo do célebre banco, a jovem ergueu os olhos para ele e os dois olhares encontraram-se.