Os Miseráveis
IV — O senhor Mabeuf
Fora isto o que se passara em Mário. Chegara mesmo, para dizermos tudo, a pender demasiadamente para o lado da contemplação. No dia em que ganhara a vida, pouco mais ou menos com segurança, não se adiantara mais, mas achando que era bom ser pobre e rando ao trabalho para dar ao pensamento. Isto quer dizer que passara algumas vezes dias inteiros a meditar, mergulhado como um visionário, em mudas
voluptuosidades de êxtase e brilho interior. O problema da sua vida estabelecera-o assim; trabalhar o menos possível em trabalho material, para trabalhar o mais que pudesse em trabalho impalpável; noutros termos: dar algumas horas à vida real, e lançar o resto no infinito. Não notava, julgando não lhe faltar coisa alguma, que a contemplação assim compreendida acaba por ser uma das formas da preguiça; que se contentava com vencer as primeiras dificuldades da vida, e que repousava demasiadamente cedo.
Era evidente que para uma organização tão enérgica e generosa, não podia um tal estado deixar de ser transitório, e que, ao primeiro embate com as inevitáveis complicações do destino, Mário despertaria.
Entretanto, apesar de ser advogado, e apesar do que pensava o avô Gillenormand, não pleiteava, nem mesmo chicanava. A meditação afastara-o da advocacia. Conviver com os procuradores de causa, ter de ir ao tribunal, angariar causas, que enfado! E para quê? Não via o mínimo mo vo para mudar de ganha-pão. A obscura livraria acabara por lhe dar trabalho certo, de pouca fadiga, o que lhe era suficiente.
Um dos editores para quem trabalhava, Magimel, segundo me parece, nha-lhe oferecido alojá-lo em sua casa, dar-lhe trabalho regular e mil e quinhentos francos por ano. Ter boa casa e mil e quinhentos francos! Era decerto excelente. Mas a perda da liberdade! Ser assalariado! Ser uma espécie de literato-caixeiro! No pensar de Mário, aceitando esta vantajosa proposta, melhorava e piorava ao mesmo tempo a sua posição; ganhava comodidades e perdia dignidade; era a troca de uma infelicidade completa e bela, por uma prisão feia e ridícula; uma coisa como um cego que se tornasse torto.
Rejeitou portanto a proposta.
Mário vivia solitário. Pelo seu decidido gosto em se conservar fora de tudo, e mesmo por se ter demasiadamente desgostado da primeira vez, não tornara a entrar no grupo presidido por Enjolras. Tinham ficado em boa harmonia, prontos, a ajudar-se mutuamente, sempre que se oferecesse ocasião, mas nada mais. Mário nha dois amigos, um moço que era Courfeyrac, o outro velho, que era Mabeuf. A sua maior inclinação era para o velho. Em primeiro lugar devia-lhe a revolução que se operara no seu modo de pensar; devia-lhe o ter conhecido e amado seu pai. Fez-me a operação da catarata, dizia ele.
Com efeito, a operação do sacristão de S. Sulpício fora decisiva.
E, contudo, o senhor Mabeuf naquela ocasião não fora mais do que o agente tranquilo e pacífico da Providência. Iluminara Mário por acaso, e sem o saber, como faz uma luz conduzida por alguém; fora a luz e não quem a conduzia.
Quanto à interior revolução política de Mário,
Mabeuf era completamente incapaz de a compreender, de a promover e de a dirigir.
Como mais para diante teremos de encontrar o senhor Mabeuf, não serão inúteis algumas palavras a seu respeito.
IV — O senhor Mabeuf
Na ocasião em que o senhor Mabeuf dissera a Mário: — Certamente, aprovo as opiniões polí cas —, exprimia o verdadeiro estado do seu espírito. Todas as opiniões
polí cas lhe eram indiferentes e aprovava-as todas sem dis nção, para que elas o deixassem tranquilo, pelo mesmo modo que os gregos chamavam às Fúrias «belas, bondosas e encantadoras» Euménides.
O senhor Mabeuf nha por opinião polí ca a apaixonada afeição às plantas, e sobretudo aos livros. Possuía como toda a gente a sua determinação em ista, sem a qual ninguém teria podido viver naquele tempo; mas não era nem realista, nem bonapar sta, nem cartista, nem orleanista, nem anarquista; era alfarrabista.
Não compreendia que os homens se ocupassem a odiar-se por causa de ninharias como a Carta, a democracia, a legi midade, a monarquia, a república, etc., quando havia no mundo toda a espécie de musgos, de ervas e de arbustos que eles podiam contemplar, e montões de in-fólios e até de livros em formato de 32, que podiam folhear. O senhor Mabeuf nha o maior cuidado em não ser inú l; ter livros não o impedia de ler, ser botânico, não o privava de ser jardineiro. Quando conhecera Pontmercy, o que determinara a simpa a entre eles fora que o coronel faria pelas flores o que ele fazia pelos frutos.
O senhor Mabeuf nha chegado a produzir peras de semente, tão saborosas como as de S. Germano; é de uma destas combinações que nasceu, segundo parece, a ameixa amarela de Outono, tão célebre hoje, e não menos perfumada do que a de Verão. Ouvia missa mais por doçura de carácter do que por devoção e porque, gostando da presença dos homens, mas odiando o seu ruído, só na igreja os achava reunidos e silenciosos.
Conhecendo que era preciso ser alguma coisa, adoptara a vida de sacristão. Enquanto ao mais, nunca conseguira amar tanto uma mulher como uma cebola de túlipa, ou es mar mais um homem do que os caracteres elzeverianos. Tinha já passado havia muito tempo os sessenta anos quando um dia lhe perguntaram:
— Nunca se casou?
— Não me lembra — disse ele.
Quando lhe sucedia algumas vezes — a quem não sucede isto? — dizer: «Se eu fosse rico» Não era nunca mirando uma bonita rapariga, como Gillenormand fazia, mas quando contemplava um alfarrábio. Vivia só com uma velha governanta. Era um tanto gotoso nas mãos, e quando dormia, os seus velhos dedos, pela força do reuma smo, curvavam-se todos nas dobras dos lençóis. Coligira e publicara uma Flora dos arrabaldes de Cauferefz com gravuras coloridas, obra assaz es mada, de que ele possuía as chapas, e que por si mesmo vendia. Todos os dias ba am duas ou três vezes à sua porta, na rua Mezières, por este mo vo. Ob nha assim os seus dois mil francos por ano; o que resumia toda a sua fortuna. Ainda que pobre, vera o talento de juntar, à força de paciência, de privações e de tempo, uma colecção preciosa de exemplares raros em todos os géneros. Nunca saía de casa sem levar um livro debaixo do braço, mas voltava sempre trazendo dois. A única decoração das quatro salas do rés-do-chão que, com um jardinzinho, compunham a sua habitação, consis a em herbários emoldurados e gravuras de velhos mestres. A presença de um sabre ou de uma espingarda gelava-o.
Nunca na sua vida se aproximara de uma peça de ar lharia, nem mesmo nos Inválidos.
Tinha um estômago sofrível, um irmão cura, os cabelos todos brancos, completa falta de
dentes tanto na boca como no espírito, tremura em todo o corpo, pronunciado acento picardo, riso infan l, a maior facilidade em se assustar, e o todo de um velho cordeiro.
Para juntar a tudo isto, não nha outra amizade ou relações entre os vivos, senão um velho livreiro da porta S. Jacques, chamado Royol. O seu grande sonho era naturalizar o anil em França.
A sua governanta era também uma das variedades da inocência. A pobre e excelente velha conservara-se solteira. O seu gato, chamado Sultão, que teria podido miar o miserere de Allegri na capela Sis na, preenchera-lhe o coração e absorvera-lhe toda a quan dade de paixão de que era suscep vel. Nenhum dos seus sonhos chegara até ao homem. Não pudera nunca ultrapassar o seu gato; e nha barbas como ele. Passava o tempo, ao domingo, depois da missa, a contar a roupa que possuía na sua caixa, e a estender sobre a cama diferentes cortes de ves do, que comprava e nunca fazia. Sabia ler. O senhor Mabeuf pusera-lhe o apelido de tia Plufarco.
Mabeuf simpa zava com Mário, porque, sendo moço e de uma índole meiga, lhe aquecia a velhice sem assustar a midez. A mocidade com doçura produz nos velhos o efeito do sol sem vento.
Quando Mário estava saturado de glória militar, de pólvora, de marchas e contramarchas, e de todas as prodigiosas batalhas em que seu pai dera e recebera tão grandes cu ladas, e ia visitar Mabeuf, este falava-lhe do herói debaixo do ponto de vista das flores.
Em 1830 morrera-lhe o irmão, abade, e quase imediatamente, como quando vem chegando a noite, se lhe toldara o horizonte de cerrada escuridão. Com a falência de certo banqueiro perdeu uns dez mil francos, que era a quanto subiam todos os seus haveres e os que herdara de seu irmão. A revolução de Julho produziu uma crise no comércio de livros. Em tempos crí cos a primeira coisa que deixa de se vender é uma Flora. Por conseguinte, o consumo da Flora dos arredores de Cauferetz cessou de súbito.
Passavam-se semanas sem se vender um só exemplar. Às vezes, Mabeuf estremecia a um toque de campainha, cuidando que seria algum comprador. A a Plutarco, porém, chegava-se a ele e dizia-lhe tristemente: «É o aguadeiro». Em suma, um dia, Mabeuf deixou a rua de Mezières, abdicou das funções de sacristão, renunciou a S. Sulpício, vendeu uma parte, não dos seus livros, mas das estampas que era o que menos apreciava e foi estabelecer-se numa casinha do boulevard Montparnasse, onde, todavia, morou apenas três meses, por duas razões: a primeira porque o andar térreo e o jardim custavam trezentos francos, e ele não ousava gastar mais do que duzentos para renda de casa; a segunda, porque ficava próximo à escola de ro de Fatou, e por consequência a cada instante estava a ouvir tiros de pistola, o que se lhe tornava insuportável.