Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 59 de 359

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Os Miseráveis

VI — A irmã Simplícia em provação

— Preciso de lá estar esta noite.

— Isso então é outra coisa. Mas vá sempre à estalagem, alugue um cavalo de reforço e o rapaz que o conduzir servir-lhes-á de guia no atalho.

O viajante adoptou o conselho do cantoneiro, voltou para trás e dali a meia hora tornou a passar pelo mesmo sí o, mas a trote largo, puxado então por dois cavalos.

Sentado num dos varais do carro ia um moço de cavalariça que se intitulava postilhão.

Contudo, Madelaine sen a fugir-lhe o tempo. Tinha já anoitecido completamente quando entraram no atalho. O caminho tornou-se terrível. O carro dava solavancos horríveis, pelas desigualdades do terreno.

Madelaine disse ao postilhão:

— Sempre a trote e tens gorjeta dobrada.

Com um dos solavancos partiu-se um tirante.

— O caminho é levado do diabo — disse o pos lhão —, lá se par u o rante. Agora não sei como hei-de emparelhar os cavalos. Se o senhor quisesse voltar para Tinques ficava lá esta noite e de manhã cedo podíamos estar em Arras.

— Não tem um bocado de corda e uma navalha? — retorquiu-lhe o viajante.

— Tenho, sim, senhor.

Apeou-se, cortou um ramo de árvore e subs tuiu o rante. Perderam nisto mais vinte minutos, mas partiram depois a galope.

A planície estava tenebrosa. Nevoeiros muito baixos, espessos e negros, como que trepavam pelas colinas, destacando-se delas quais turbilhões de fumo. Nas nuvens apareciam de vez em quando clarões esbranquiçados. O vento rijo do mar produzia em todos os pontos do horizonte um ruído semelhante ao do arrastar de móveis. Tudo o que se entrevia apresentava aspectos aterradores. Quantas coisas se agitam com os vastos sopros da noite!

Madelaine sen a-se repassado pelo frio. Desde a véspera que não tomara o mínimo alimento. Recordava-se vagamente de outra corrida nocturna pelos campos, nas proximidades de Digne, havia oito anos, e parecia-lhe que fora na véspera.

De repente, ouvindo horas num relógio longínquo, perguntou ao postilhão:

— Que horas são?

— Sete; às oito estaremos em Arras. Faltam apenas três léguas.

Neste momento, fez pela primeira vez a seguinte reflexão, achando extraordinário que lhe não vesse ainda ocorrido: reflec u que era talvez inú l todo o seu trabalho, que nem ao menos sabia a hora da audiência; que devia ter ob do informações a tal respeito; e que era uma coisa extravagante caminhar de semelhante modo, sem saber se aproveitaria tamanha fadiga. Depois calculou que ordinariamente as sessões de júri começavam às nove horas da manhã; que o processo de que se tratava não devia ser demorado; que o roubo da fruta era coisa insignificante; que não haveria em seguida senão uma questão de iden dade, quatro ou cinco depoimentos, e muito pouco que dizer pelos advogados; que, portanto, chegaria depois de tudo concluído!

O pos lhão fus gava os cavalos. Tinha já transposto a ribeira e deixado atrás de si o Mont-Saint-Eloy.

A noite tornava-se cada vez mais escura.

VI — A irmã Simplícia em provação Na mesma ocasião, porém, em que isto se passava, sen u-se Fan ne sobremodo alegre, depois de ter passado uma noite péssima, com uma tosse terrível, em crescimentos febris e sonhos con nuos, de tal modo que, quando o médico pela manhã viera visitá-la, a encontrara a delirar e com o ar desvairado, que causam os acessos da febre.

Fan ne que havia recomendado que a prevenissem apenas chegasse Madelaine, esteve triste toda a manhã, falando pouco, fazendo dobras nos lençóis e murmurando

em voz baixa cálculos, que pareciam de distâncias. Tinha os olhos encovados e fixos, parecendo quase amortecidos, mas a intervalos incendiavam-se-lhe, resplandecendo então como estrelas. Parece que a claridade do céu inunda de luz os que estão privados da claridade da terra, ao aproximar-se de alguma hora sombria.

De todas as vezes que a irmã Simplícia lhe perguntava como se achava, respondia ela invariavelmente:

— Bem. O que eu queria era ver o senhor Madelaine.

Alguns meses antes, Fan ne, na ocasião em que acabara de perder o resto de pudor, vergonha e alegria que ainda possuía, era a sombra de si mesma; agora, porém, era o espectro do que fora. O mal sico completara a obra moral. Aquela criatura de vinte e cinco anos nha a fronte enrugada, as faces flácidas, as narinas contraídas, os dentes abalados, a cú s cor de chumbo, o pescoço descarnado, as clavículas salientes, os membros mirrados, a pele terrosa, e muitos dos seus cabelos loiros haviam embranquecido. Tal é o modo como a doença acelera estranhamente a velhice!

Ao meio-dia voltou o médico, receitou, perguntou se nha aparecido o senhor Madelaine, e abanou a cabeça.

Madelaine costumava visitar Fan ne pelas três horas. Como apontualidade provém da bondade, era pontual.

Pelas duas e meia, Fan ne começou a agitar-se. No espaço de vinte minutos perguntou mais de dez vezes à religiosa:

— Que horas são, minha irmã?

Deram afinal três horas. Apenas soou a terceira martelada do relógio, Fan ne, que apenas se podia mover, sentou-se de repente na cama: juntou com uma espécie de impulso convulsivo as duas mãos descarnadas e amarelas, e a religiosa ouviu sair-lhe do peito um suspiro profundo, dos que parece aliviarem de um grande peso Fan ne olhou em seguida para a porta. Não entrou ninguém; a porta nem mesmo se abriu.

Por um quarto de hora conservou-se na mesma posição, com os olhos fitos na porta, imóvel, e como contendo a respiração. A irmã não ousava dizer-lhe coisa alguma. O

relógio da igreja deu um quarto depois das três. Fan ne deixou cair novamente a cabeça no travesseiro. Não proferiu uma palavra e recomeçou a fazer dobras no lençol.

Passou a meia hora, a hora, e não apareceu ninguém. De cada vez que se ouvia o som do relógio, Fan ne erguia-se um pouco, olhava para a porta e tornava logo a deixar-se cair.

Sem que pronunciasse nome nenhum, sem que se queixasse, sem que acusasse ninguém, via-se-lhe claramente opensamento. A tosse é que era cada vez mais lúgubre.

Parecia que baixara sobre ela o que quer que era de obscuro. Estava lívida e nha os lábios azulados. Por momentos sorria-se.

Soaram cinco horas; a irmã ouviu-a dizer suavemente em voz baixa:

— Mas visto que eu me vou embora amanhã, ele faz mal em não vir cá hoje!

A própria irmã se sentia surpreendida pela demora do senhor Madelaine.

Entretanto, Fan ne olhava para o dossel do leito; parecia diligenciar recordar-se de alguma coisa. De repente, pôs-se a cantar com voz fraquíssima. A religiosa apurou o

ouvido. Eis o que Fantine cantava:

Havemos de ir à cidade

Comprar mil coisas formosas;

Encarnadas são as rosas,

Roxo o lírio amo-te, amor!

Veio ontem visitar-me.

Lá do céu, a virgem pura;

Nos ombros trazia um manto

De bordada cercadura.

Entrou, sentou-se-me ao lado.

Pôs-se comigo a falar:

Aqui te trago, disse ela,

Envolto neste meu véu,

O menino que me pediste

Duma vez, toma-o, é teu.

Parte à cidade, traz pano,

Compra linhas e dedal.»

Havemos de ir à cidade

Comprar mil coisas formosas.

Virgem santa, um lindo berço,

Que de fitas enfeitei,

Para o meu querido menino.

Ao pé do lar coloquei.

Não trocara o lindo infante

Pela estrela mais brilhante,

Que Deus faz luzir no céu.

Dizei-me, agora, senhora.

Deste pano que farei?

Faz um lindo enxovalzinho

Para o menino que te dei.

Encarnadas são as rosas,

Roxo o lírio amo-te, amor!

Lava-o primeiro no rio,

Bem lavado, com sabão,

E faz dele um roupãozinho,

Que eu, por minha própria mão, De mil flores bordarei.

Mas, senhora, que farei,

Pois não vejo o meu menino?

Que farei, ó virgem pura?

Faz-me de pano um lençol,

Para ir nele a sepultura.

Havemos de ir à cidade

Comprar mil coisas formosas;

Encarnadas são as rosas,

Roxo o lírio amo-te, amor!

Esta canção era uma velha romanza de embalar crianças, com que outrora ela adormecia a sua Cose e, e que não se lhe tornara a apresentar ao espírito desde que deixara de a ter consigo. Cantava-a, pois, com uma voz tão triste e numa toada tão suave, que fazia chorar até uma religiosa. A irmã de caridade, habituada às coisas austeras, sentiu lágrimas nos olhos.

O relógio deu seis horas. Fan ne decerto não as ouviu. Parecia não dar atenção a coisa alguma das que a rodeavam.

A irmã Simplícia mandou uma servente perguntar à porteira da fábrica se o senhor

maire já nha entrado, e se iria sem demora à enfermaria. A servente voltou passados poucos minutos. Fan ne conservava-se imóvel e parecia pouco atenta às ideias que a dominavam. A servente contou em voz baixa, à irmã Simplícia, que o senhor maire saíra antes das seis horas da manhã num pequeno tilbury, apesar do frio que fazia,que nha ido só, sem ao menos levar cocheiro; que não sabia o caminho que seguira; que algumas pessoas diziam tê-lo visto tomar pela estrada de Arras, e que outras asseguravam tê-lo encontrado na estrada de Paris; que quando par ra se mostrara bondoso como de costume, e que apenas dissera à porteira que o não esperasse naquela noite.

Enquanto as duas mulheres segredavam, com as costas voltadas para a cama da doente, a irmã fazendo perguntas, e a servente conjecturas, Fan ne, com a vivacidade febril de certas doenças orgânicas, que confunde os movimentos livres da saúde com a medonha magreza da morte, ajoelhara na cama, com ambos os punhos cerrados e apoiados no travesseiro, e dali passando a cabeça pela abertura das cor nas, pusera-se a escutar.

De repente, exclamou:

— Estão a falar do senhor Madelaine! Mas porque falam tão baixo. O que fez ele?

Porque é que não vem?

A sua voz era tão áspera e rouca que as duas mulheres, julgando ouvir uma voz de homem, voltaram-se muito assustadas.

— Respondam! — gritou Fantine.

A criada balbuciou:

— A porteira disse-me que o senhor Madelaine não podia vir hoje.

— Deite-se, minha filha — disse-lhe a irmã —, sossegue.

Fan ne, porém, sem mudar de a tude, tornou em voz alta e com um acento ao mesmo tempo imperioso e dilacerante:

— Não pode vir? Porquê? Conhecem a razão, porque a diziam há pouco uma à outra.

Também eu a quero saber.

A criada disse apressadamente ao ouvido da religiosa:

— Diga-lhe que está ocupado no conselho municipal.

A irmã Simplícia corou ligeiramente: era uma men ra o que a criada lhe aconselhara.

Por outro lado bem sabia que dizer a verdade à doente seria decerto descarregar sobre ela um golpe terrível, coisa extremamente grave no estado em que se achava Fantine.

Este rubor durou pouco. A irmã ergueu para Fan ne os olhos tranquilos e tristes e disse-lhe:

— O senhor maire ausentou-se da cidade.

Fan ne endireitou-se e sentou-se sobre os calcanhares. Os olhos apresentaram de repente extraordinário brilho; na dolorosa fisionomia resplandeceu-lhe a mais inesperada alegria.

— Partiu! — exclamou ela. — Foi buscar a minha Cosette!

Depois ergueu ambas as mãos ao céu, patenteando em todas as feições a mais inefável expressão. Movia os lábios: orava em voz baixa. Quando terminou a oração, continuou:

— Minha irmã, vou tornar a deitar-me; vou fazer tudo que me mandarem. Ainda agora fui muito má, peço-lhe que me perdoe por ter falado tão alto; bem sei que não se deve falar alto, minha querida irmã, mas bem vê, agora estou sa sfeita. Deus é de muita bondade e o senhor Madelaine é muito boa pessoa. Imagine que foi a Mon ermeil, só para trazer a minha Cosette.

E tornou a deitar-se, ajudou a religiosa a acomodar o travesseiro, e beijou uma cruzinha de prata que trazia ao pescoço e que lhe fora dada pela irmã Simplícia.

— Veja se sossega, minha filha — disse a irmã —, não fale mais.

Fan ne tomou entre as suas a mão da irmã Simplícia, a qual sofria extraordinariamente por lhe sentir aquele suor e prosseguiu:

— Foiesta manhã para Paris. Nem mesmo tem precisão de passar por lá. Vindo de lá, Mon ermeil fica um pouco à esquerda. Lembra-se como ele me dizia: Não tarda, não tarda? quando eu ontem lhe falava de Cose e? É uma surpresa que me quer fazer. Olhe, não sabe? Ontem fez-me assinar uma carta, dando ordem aos Thenardier para a entregarem. Eles não podem negá-la, entregá-la-ão, não é verdade? Não se lhes deve nada. As autoridades não consen rão que neguem uma criança, tendo-se-lhes pago tudo. Minha irmã, não me faça sinais para que não fale! Sinto-me muito sa sfeita, estou muito melhor, estou até já boa, porque vou tornar a ver Cose e; até sinto vontade de comer. Há quase cinco anos que não a vejo. As religiosas como a minha irmã não imaginam o apego que se tem aos filhos! E depois, como ela deve estar bonita, verá!

Tem uns dedinhos tão rosados Há-de ter umas mãos muito bonitas: quando nha um ano eram ridículas. Agora já está muito crescida; tem sete anos, é uma senhora. Eu chamo-lhe Cose e, mas o seu nome é Eufrásia. Olhe, esta manhã, estava eu olhando para a poeira que está sobre o fogão, e não sei porque me veio à ideia que veria muito breve a minha Cose e. Meu Deus! Que coisa tão má que é estar assim anos sem ver os filhos! A gente devia lembrar-se de que a vida não é eterna! Mas que bondade a do senhor maire, em se ter posto a caminho! É verdade que faz muito frio, não é? Levaria ele ao menos o seu capote? Amanhã deve estar de volta, não é assim? Há-de ser dia de festa. Amanhã pela manhã, minha irmã, há-de lembrar-me que ponha a minha touca de rendas. Mon ermeil é uma terra pequena. Noutro tempo andei aquele caminho a pé; para mim era muito longe, mas as diligências andam depressa! Amanhã estará aqui com a minha Cosette. Quantas léguas são daqui a Montfermeil?

A irmã de caridade que não tinha a mínima ideia das distâncias, respondeu-lhe:

— Parece-me que poderá estar de volta amanhã.