Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 238 de 359

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Os Miseráveis

II — Sustos de Cosette

que sustentam um templo de generosos sen mentos e nobres ideias, assim muitos homens do mundo, sa sfeitos e opulentos, de polimento nos pés e verniz nas palavras, analisados, não exterior, mas interiormente, isto é, na parte reservada à mulher, não são mais do que um estúpido barrote em contacto tenebroso com as paixões violentas, imundas e avinhadas. Esteios de taberna!

Que abrigava a alma de Cose e? Alguma paixão acalmada ou adormecida; algum amor no estado flutuante; o que quer que fosse de límpido e brilhante, a certa profundidade turvo e mais profundamente sombrio. Por baixo, bem por baixo da super cie, em que se reflec a a imagem do belo oficial de lanceiros, estaria alguma recordação? Talvez, bem que Cosette não o soubesse.

Deu-se então um acontecimento singular.

II — Sustos de Cosette

Em meados de Abril, Jean Valjean fez uma viagem, caso que, como é sabido, só de tempos a tempos e com longos intervalos se dava no seu pacífico viver. A sua ausência, nessas ocasiões, não passava de um, ou quando muito de dois dias. Aonde ia ele?

Ninguém o sabia, nem mesmo Cose e. Apenas, por ocasião de uma das suas costumadas saídas, a jovem o acompanhara de carruagem até à entrada de um beco, em cuja esquina se lia «Beco da Planche e». Chegados a esse lugar, Jean Valjean apeou-se e Cose e voltou na carruagem para a rua de Babilónia. De ordinário, estas viagens de Jean Valjean só tinham lugar quando em casa havia falta de dinheiro.

Estava, pois, Jean Valjean ausente, e, segundo ele declarara no momento da par da, só daí por três dias voltaria.

Assim, a jovem encontrava-se sozinha; uma noite, na sala, lembrou-se de se sentar no seu piano-órgão para se entreter e pôs-se a cantar o coro de Euryanto «Caçadores perdidos nos bosques», que talvez seja o mais belo trecho de música conhecido. Por fim, deixou descair a cabeça para uma das mãos, fincando o cotovelo no bordo do piano, e ficou pensativa.

Estava Cose e nesta a tude, quando de súbito se lhe afigurou ouvir passos no jardim.

Seu pai não podia ser, porque estava para fora; Toussaint também não, porque estava deitada, visto já passar das dez horas.

Dirigiu-se a uma janela da sala, colou o ouvido à madeira e escutou.

Efectivamente, pareceu-lhe ouvir passos de homem caminhando cautelosamente.

Subiu rapidamente ao seu quarto, que ficava no primeiro andar, abriu um pos go interior da janela e pôs-se a examinar o jardim por entre os vidros. Era lua cheia, fazia um luar como se fosse dia.

Não viu ninguém.

Não contente com o exame por dentro dos vidros, abriu a janela e circunvagou a vista por todos os recantos do jardim. Estava tudo em absoluto sossego e deserta, como de costume, a parte da rua que se avista de casa.

Em vista disto, Cose e capacitou-se que se nha enganado com o rumor que se lhe afigurara ouvir, tomando como realidade o que não passava de uma alucinação

produzida pelo sombrio e maravilhoso coro de Weber, que abre diante do espírito voragens assustadoras, que treme diante do olhar como uma floresta ver ginosa e em que se ouve o estalido dos ramos secos sob os pés dos assustados caçadores, entrevistos à luz do crepúsculo.

A jovem satisfez-se com a explicação e esqueceu completamente o caso.

Cose e, além disso, era de natureza pouco atreita a medos. Girava-lhe nas veias sangue de boémia e de aventureira descalça. Se bem se recordam, Cose e, interiormente animosa e resoluta, tinha mais de cotovia do que de pomba.

No dia seguinte, ao cair da noite, andando a passear no jardim, parecia-lhe ouvir de vez em quando, próximo dela, por entre os confusos pensamentos em que andava embebida, um ruído de passos semelhante ao da noite antecedente. Não obstante, porém, tal circunstância, con nuava tranquilamente o seu passeio, sem prestar atenção ao rumor que ouvia, o qual perfeitamente explicava a sós consigo pelo roçar de dois ramos agitados pela viração da noite, explicação plausível, por isso que não via ninguém.

Findo o seu passeio, a jovem saiu de entre as moitas, entre as quais andava como encoberta, e dirigiu-se para casa. Faltava-lhe apenas atravessar um tabuleiro de relva para chegar à varanda, quando, ao clarão da Lua, que se elevava por trás dela, projectando-lhe a sombra no espaço coberto de relva, recuou apavorada. Ao lado da sua, a Lua desenhava dis ntamente na relva outra sombra, sobremodo medonha, que simulava um homem de pé, com um chapéu redondo na cabeça e colocado junto à orla do arvoredo a pequena distância de Cosette.

Após um instante de susto, em que ficara sem poder falar, nem gritar, nem chamar, nem mexer-se, nem voltar a cabeça, encheu-se de coragem e voltou resolutamente a cabeça para o lugar onde devia estar o homem, cuja sombra terrível tanto a atemorizara.

Não estava ninguém.