Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 28 de 359

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Os Miseráveis

I — O ano de 1817

que fez depois de ter chorado? Para onde foi? Nunca ninguém o soube.

Apenas parece averiguado que, nessa mesma noite, o estafeta que conduzia a mala do correio de Grenoble para Digne e que chegava a este último ponto pelas três horas da manhã, ao atravessar a rua da catedral, viu um homem prostrado de joelhos, na a tude de quem orava, em frente da porta de Monsenhor Bemvindo.

LIVRO TERCEIRO — EM 1817

I — O ano de 1817

1817 é o ano que Luís XVIII, com certo aprumo régio, não des tuído inteiramente de al vez, denominava o vigésimo segundo ano do seu reinado. Foi o ano em que o senhor Bruguière de Sorsun se tornou célebre, em que todas as lojas de cabeleireiro foram pintadas de azul com flores de lis, esperando novamente o uso dos pós e o regresso da ave real.

Era o inocente tempo em que o conde de Lynch se apresentava todos os domingos, como tesoureiro, no seu banco de Saint-Germain-des-Prés, com o seu trajo de par de França, a sua fita vermelha e o seu grande nariz, aquele aspecto de majestade par cular ao homem que praticou uma acção célebre.

A acção célebre pra cada por Lynch consis a, sendo maire de Bordéus, em 12 de Março de 1814, em ter entregado a cidade demasiadamente cedo ao duque de Angoulême, do que lhe proveio a sua nomeação de par. Em 1817, a moda inventara para os rapazinhos de quatro a seis anos uns enormes bonés de couro fingindo marroquim, quase à maneira de barretes de esquimós, debaixo dos quais as pobres crianças desapareciam totalmente. O exército francês usava uniformes brancos à austríaca; os regimentos chamavam-se legiões e, em lugar de números, traziam os nomes dos departamentos Napoleão estava em Santa Helena, e como a Inglaterra lhe não dava pano verde, mandava virar os casacos do avesso Em 1817, cantava Pellegrini e dançava Bigo ni; reinava Po er e Odry ainda não exis a. Madame Saqui sucedia a Torioso Havia ainda prussianos em França O senhor Delalot era um homem notável. A sua legi midade acabava de se consolidar, cortando a mão e em seguida a cabeça a Pleignier, a Carbonneau e a Tolleron

O príncipe de Talleyrand, camarista-mor, e o abade Luís, apontado para ministro das finanças, encaravam-se, rindo com o riso de dois arúspices; ambos no dia 14 de Julho de 1790, haviam celebrado a missa da federação no Campo de Marte; Talleyrand oficiando-a como bispo, Luís como diácono. Em 1817, nos passeios laterais desse mesmo Campo de Marte, viam-se grossos cilindros de madeira, lançados por terra, expostos à chuva e apodrecendo no meio da erva, pintados de azul e ainda com ves gios de águias e abelhas, que nham sido douradas. Eram as colunas que dois anos antes nham servido para sustentar o estrado do imperador no Campo de Maio. Aqui e além divisavam-se-lhe manchas negras causadas pelas balas do acampamento dos austríacos situado próximo a Gros-Caillou. Duas ou três destas colunas haviam desaparecido nas fogueiras desses acampamentos e servido para aquecer as enormes mãos dos Kaiserliks.

Nesse ano de 1817, duas coisas eram populares: o Voltaire-Trouquet e as caixas de rapé à car sta A emoção parisiense mais recente era o crime de Dautun, que lançara a cabeça do irmão ao tanque da Praça das Flores. No ministério da marinha principiava a reinar inquietação por não haver no cias da fatal fragata Medusa, que devia cobrir de vergonha Chautnareix e de glória Géricault. O coronel Selves par a para o Egipto, onde devia tornar-se Solimão-Pachá. O palácio das termas, na rua de La Harpe, servia de oficina a um tanoeiro. Na plataforma do torreão octógono do palácio de Cluny, via-se ainda a barraquinha de tábuas que servira de observatório a Messier, astrónomo da marinha no reinado de Luís XVI. A duquesa de Duras lia a três ou quatro amigos ín mos, no seu toucador mobilado com XX estofados de ce m azul celeste, o manuscrito de Ourika, ainda inédito.

No Louvre raspavam-se os NN. A ponte de Austerlitz abdicava do seu tulo e passava a chamar-se ponte do Jardim do Rei, duplo enigma que encobria ao mesmo tempo o Jardim das Plantas e a Ponte de Austerlitz. Luís XVIII, ao mesmo tempo que anotava com a unha em Horácio, os heróis que chegavam a imperadores e os sapateiros que se fazem delfins, nha dois cuidados que seriamente o preocupavam: Napoleão e Mathurin Bruneau. A Academia Francesa dava para assunto de prémio: «a felicidade filha do estudo». O senhor Ballart era oficialmente eloquente; à sua sombra via-se germinar o futuro delegado geral de Broé, des nado aos sarcasmos de Paulo Luís Courier. Havia um falso Chateaubriand por nome Marchangy, à espera de um falso Marchangy, chamado de Arlincourt. Clara de Alba e Malek-Adel eram reputadas obras-primas, e Madame Co n era proclamada a primeira entre os escritores da época. O Ins tuto deixava riscar da sua lista o académico Napoleão Bonaparte. Em virtude de um decreto real, Angoulême era elevada a escola naval, pois sendo o duque de Angoulême almirante, era evidente que a cidade de Angoulême possuía de direito todas as qualidades de um porto de mar, sem o que ficaria abalado o princípio monárquico.

No conselho de ministros discu a-se se se deviam ou não consen r as vinhetas representando volan ns, que adornavam os cartazes de Franconi, e que juntavam grupos de garotada nos pontos em que se encontravam afixados. O senhor Paer, autor d a Agnese, ancião de rosto quadrado com uma verruga na face, dirigia os concertos ín mos da marquesa de Sassenaye, na rua de Ville-l’-Évêque. As jovens cantavam o Ermitão de Saint-Avelle, letra de Edmond Géraud. O Anão Amarelo transformava-se em Espelho. O café Lemblin era pelo imperador contra o café Valois, que era pelos Bourbons.

Acabava de casar com uma princesa da Sicília o duque de Berry, já olhado por Louvei do fundo das trevas. Havia um ano que Madame de Stael nha morrido. Os guardas de corpo pateavam Mademoiselle Mars. Os grandes jornais publicavam-se em formato pequeno. Este nha sido restringido, mas a liberdade era grande. O Constitucional era cons tucional. A Minerva chamava a Chateaubriand Chateaucriant. Este era mo vo para que os burgueses rissem muito à custa do grande escritor. Alguns pros tuídos jornalistas insultavam, em jornais vendidos, os proscritos de 1815; David não nha talento, Arnoult não nha espírito, Carnot era um homem sem probidade, Soult não ganhara uma só batalha; a verdade é que Napoleão deixara de ser o génio que fora. Ninguém ignora quanto à raro que as cartas dirigidas pelo correio a qualquer exilado lhes cheguem à mão, por isso que a policia tem como rigoroso dever interceptá-las. O facto não é novo; já Descartes, do seu desterro, se queixava disso. Ora, havendo David, num jornal belga, dado mostras de descontentamento por não receber as cartas que lhe escreviam, as folhas realistas achavam o caso digno de riso e aproveitavam a ocasião para ridicularizar e achincalhar o proscrito. Dizer«regicidas» ou «votantes», «inimigos» ou «aliados»,

«Napoleão» ou «Bonaparte», separava dois homens mais do que um abismo.

Todas as pessoas sensatas concordavam que a era das revoluções fora de uma vez para sempre encerrada por Luís XVIII, cognominado o imortal autor da Carta. No terraplano da Ponte Nova gravava-se a palavra Redivivas no pedestal des nado a receber a estátua de Henrique IV. Na rua Teresa, n.º 4, Piet dava princípio ao seu conciliábulo para consolidação da monarquia Os chefes da direita, diziam nas conjunturas graves: «É preciso escrever a Bacot». Canuel, O’Mahony e de Chappedelaine, esboçavam com tácita aprovação do irmão do rei, o que mais adiante havia de vir a ser a

«Conspiração da Borda d’agua».

O Alfinete Negro conspirava igualmente. Delaverderie conferenciava com Trogoff.

Decazes, espírito liberal até certo ponto, dominava Chateaubriand, todas as manhãs defronte da janela da sua casa, na rua de S. Domingos, n.º 27, em calças e de chinelas, com um lenço de seda da Índia atado na cabeça povoada de cabelos brancos, os olhos fitos num espelho e um estojo completo de den sta aberto diante de si, ocupava-se em limpar os dentes, que eram magníficos, ditando ao mesmo tempo a Pilorge, seu secretário, a Monarquia segundo a Carta.

A crí ca autorizada preferia Lafont a Talma. O senhor de Felatz assinava-se com um A e o senhor Hoffman com um Z Carlos Nodier escrevia Teresa Aubert. O divórcio fora abolido. Os liceus chamavam-se colégios e os colegiais, que traziam na gola uma flor de lis de oiro, sustentavam fortes altercações acerca do rei de Roma. A polícia secreta do castelo denunciava a Sua Alteza Real, Madame, o retrato, por toda a parte exposto, do duque de Orleãs, o qual nha melhor parecer com o uniforme de coronel-general de hussardos do que o duque de Berry com a farda de coronel-general de dragões, inconveniente gravíssimo. A cidade de Paris mandava dourar de novo à sua custa o zimbório dos Inválidos. Os homens sérios perguntavam uns aos outros o que faria o senhor de Tringuelague em tal ou tal conjuntura. Clausel de Montals divergia em diversos pontos, de Clausel de Coussergues, e o senhor de Salaberry não se sen a satisfeito.

O actor Picard, membro da Academia em que Molière não conseguiu ser admi do, fazia representar Os Dois Felisbertos no teatro do Odeón, em cuja frontaria, apesar dos esforços para arrancar as letras, se lia ainda dis ntamente: Teatro da Imperatriz. Uns eram a favor, outros contra Cugnet de Montarlot. Fabvier era faccioso, Bavoux revolucionário. O livreiro Pélicier publicava uma edição de Voltaire com o tulo Obras de Voltaire, da Academia Francesa. «Isto atrai os compradores», dizia o ingénuo editor. Era opinião geral que Carlos Loyson havia de vir a ser o génio do século; a inveja começava a morder-lhe, indício de glória, e recitava-se a seu respeito este verso: Até mesmo quando Loyson voa, mostra ter patas.