Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 245 de 359

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Os Miseráveis

III — As peripécias da evasão

Pelo fim da hora que precede imediatamente o despontar do dia, desembocou da rua de Santo António um homem, correndo, atravessou a praça, contornou o grande tapume da coluna de Julho e meteu-se por entre a estacada, até se achar sob o ventre do elefante. Se uma luz qualquer alumiasse aquele homem, ter-se-ia adivinhado, pelo modo como estava encharcado, que passara a noite à chuva. Chegando debaixo do elefante, soltou um grito extravagante, que não pertencia a nenhuma língua humana, e que só um periquito poderia reproduzir. O homem, repe u duas vezes o tal grito de que a seguinte ortografia dá imperfeitamente uma ideia:

— Kirikikiou!

Ao segundo grito respondeu do ventre do elefante uma voz clara, fresca e alegre:

— Pronto!

Quase imediatamente a tábua que estava tapando o buraco foi afastada e deu passagem a um rapazinho que se deixou escorregar pela mão do elefante e foi cair ao pé do homem. Era Gavroche. O homem era Montparnasse.

Quanto àquele grito kirikikiou, era sem dúvida o que o rapaz queria dizer por procurarás pelo senhor Gavroche.

Ouvindo-o, acordara sobressaltado, arrastara-se para fora da «alcova», afastando um pouco a rede, que logo tornara a aconchegar cuidadosamente; depois abrira o alçapão e descera.

O homem e a criança reconheceram-se silenciosamente mesmo na escuridão; Montparnasse limitou-se a dizer:

— Precisamos de ti, vem dar-nos uma ajuda.

O gaiato não pediu mais explicações.

— Pronto — tornou ele.

E dirigiram-se ambos para a rua de Santo António, de onde viera Montparnasse, serpenteando rapidamente por entre a comprida fileira de carroças de hortelões, que àquela hora iam para o mercado.

Os hortelões, agachados nas carroças entre a hortaliça e os legumes, meio adormecidos, embrulhados até aos olhos nos seus gabões, por causa da chuva, nem mesmo reparavam nos dois estranhos transeuntes.

III — As peripécias da evasão

Eis o que naquela mesma noite tinha lugar na Force:

Babet, Brujon, Gueulemer e Thenardier nham combinado entre si um plano de evasão, embora Thenardier jazesse no segredo. Babet evadiu-se nesse mesmo dia, sem esperar pelos companheiros, como sem dúvida se depreendeu da narração de Montparnasse a Gavroche. Montparnasse devia ajudá-los de fora a levar a cabo a di cil empresa.

Brujon passara um mês num cárcere de cas go, e, por conseguinte, vera o tempo necessário para duas coisas essenciais. Quer dizer, aproveitara o tempo do seu isolamento a tecer uma corda e a delinear um plano. Noutro tempo, esses severos lugares, em que a disciplina da prisão deixava o sentenciado entregue a si mesmo, constavam de quatro paredes de pedra, com abóbada e pavimento de igual natureza, uma maca ou cama de lona, um postigo gradeado, uma porta forrada de folha de ferro, e dava-se a isto o nome de «masmorras». A masmorra, porém, foi julgada em demasia horrível, e esta espécie de cárceres compõe-se agora de uma porta de ferro, um pos go gradeado, uma maca, quatro paredes de pedra com tecto e pavimento igualmente de pedra, e chama-se-lhes «casas de correcção». A hora do meio-dia dificilmente se vê dentro destas casas, cujo inconveniente, apesar de, como se vê, não serem masmorras, é deixar entregues à meditação criaturas que se deveriam fazer trabalhar e não meditar.

Brujon, pois, meditara, e quando saiu da casa de correcção, trazia consigo uma corda.

Como, porém, julgassem que da sua permanência na prisão denominada de Carlos

Magno se poderiam seguir perigosas consequências, mandaram-no para o Edi cio Novo.

A primeira coisa que ele ali encontrou foi Gueulemer, a segunda um prego, isto é, em Gueulemer o crime, no prego a liberdade.

Brujon, de quem é tempo de dar uma ideia completa, não obstante a aparente delicadeza da sua compleição e a languidez que inculcava, languidez finamente fingida, era um cortês, inteligente e ladino gatuno, de olhar meigo e sorriso atroz. Isto provinha de que o olhar era o resultado da vontade, o sorriso a expressão da natureza. Os primeiros estudos do bandido na sua arte nham do por alvo os telhados, havendo neste ramo dado valente impulso à indústria dos larápios do chumbo das clarabóias por um processo muito conhecido deles e que nós nos julgamos dispensados de nomear.

Acrescia ainda, para tornar mais oportuno o ensejo de uma tenta va de evasão, andarem exactamente os retalhadores naquela ocasião concertando e reparando parte dos telhados das prisões, de modo que a de S. Bernardo já não se podia dizer isolada da de Carlos Magno e da de S. Luís. Em qualquer delas se viam numerosas pranchas e escadas, ou, por outras palavras, pontes e passadiços para o lado da liberdade.

O ponto fraco da prisão era o Edi cio Novo, assim chamado, embora fosse impossível haver coisa mais decrépita e assinalada dos estragos do tempo. O salitre fora carcomendo as paredes a ponto tal, que o governo viu-se na necessidade de mandar forrar de madeira as abóbadas dos dormitórios, porque às vezes despegavam-se de cima as pedras que as formavam e vinham cair sobre os presos que jaziam deitados. Não obstante, porém, o precário estado desta prisão, come a-se a falta de encarcerar nela os réus de que mais se receava, «os maus de amanhar», como se diz na linguagem das prisões.

Con nha o Edi cio Novo quatro dormitórios sobrepostos e um apenso denominado a Galeria do Ar Livre. Par a do andar térreo um largo tubo de chaminé, talvez de alguma an ga cozinha dos duques da Force, que, depois de atravessar os quatro andares do edi cio e dividir ao meio todos os dormitórios, figurando um como pilar quase chato, ia terminar pela parte superior do telhado.

Gueulemer e Brujon jaziam no mesmo dormitório, no andar inferior, para onde à cautela nham sido mandados. Quis o acaso que os seus leitos ficassem justamente com a cabeceira encostada ao tubo da chaminé de que agora mesmo acabamos de falar.

Thenardier achava-se exactamente por cima da cabeça deles, no apenso ou dormitório superior, denominado Galeria do Ar Livre.

Quem hoje passar pela rua Culture-Sainte-Catherine, e, transposto o quartel dos bombeiros, parar em frente do portão da casa dos Banhos, avista um terraço cheio de flores e arbustos em caixões, ao fundo do qual se eleva um pequeno pavilhão redondo, de persianas verdes e risonho aspecto, tal como o sonhara Jean Jacques nas horas do seu bucólico devanear. Por cima, pois, desse pavilhão erguia-se, não há ainda dez anos, um muro negro, descomunal, medonho e descarnado, que lhe ficava sobranceiro. Era o muro de circunvalação da Force.

Ao ver-lhe encostado o gracioso pavilhão, dir-se-ia que era Milton escoltado por Berquin.

Não obstante a grande altura do muro, avistava-se dentro um telhado interior, que subia acima do nível da parede. Era o telhado do Edi cio Novo, no meio do qual se avistavam quatro trapeiras gradeadas, que eram as janelas da Galeria do Ar Livre. Além disto, via-se mais uma chaminé, que era a que passava pelos dormitórios. A parte superior do Edi cio Novo, apelidada Galeria do Ar Livre, era como que um extenso mercado com barracas, fechado por tríplices grades e por portas chapeadas de ferro e cravejadas de enormes pregos. Entrando pela extremidade norte, ficavam à esquerda os quatro pos gos e à direita, em frente dos pos gos, quatro gaiolas, bastante espaçosas, mas desviadas umas das outras e separadas por corredores estreitos, até a metade da altura de um homem, de pedra, e o resto até ao telhado de grades de ferro.

Thenardier jazia incomunicável numa destas gaiolas desde a noite do dia 3 de Fevereiro. Nunca se pôde descobrir como nem por conivência de quem ele conseguiu obter e ter oculta uma garrafa desse vinho, segundo se diz, inventado por Desrues. Este vinho, que possui uma virtude narcó ca, veio depois a tornar-se célebre, em razão das aplicações que teve entre a quadrilha dos Adormecedores.

Há em muitas prisões empregados infiéis, meios carcereiros, meios ladrões, que auxiliam as evasões tentadas pelos presos, recebendo da polícia a paga dos seus infiéis serviços e vendendo aos encarcerados os meios da sua fuga.

Naquela mesma noite, pois, em que Gavroche recolhera os dois rapazinhos vagabundos, Brujon e Gueulemer, sabendo que Babet, que pela manhã se evadira, os esperava na rua, bem como Montparnasse, ergueram-se devagarinho e puseram-se a furar o tubo da chaminé, junto do qual nham as camas, com o prego que Brujon achara, e como a caliça caía sobre a cama de Brujon, era impossível serem pressen dos no seu trabalho. Além disto, de vez em quando as lufadas de vento, misturadas com o reboar do trovão, abalavam as portas nos gonzos, produzindo dentro da prisão um estrondo, que os auxiliava eficazmente no seu intento. Alguns presos acordaram; porém, demasiadamente bons companheiros para mutuamente se lesarem, fizeram que não viram os dois e tornaram a adormecer. Brujon era lesto, Gueulemer vigoroso. Portanto, antes do guarda, que dormia no quarto gradeado imediato ao dormitório, para onde nha um pos go, chegar a ouvir o mínimo ruído, estava arrombada a parede, escalada a chaminé, forçada a grade de ferro que fechava o ori cio superior do tubo e os temerosos bandidos sobre o telhado, naquela ocasião em extremo escorregadio, por causa da chuva, que cada vez caía com mais fúria, impelida por violentos tufões de vento.

— Que xoina tão mística para uma piranga! 19 — disse Brujon.

Um abismo de seis pés de largura e oitenta de profundidade os separava do muro de circunvalação, abismo no fundo do qual viam reluzir por entre a escuridão a arma de uma sen nela. Presa uma ponta da corda, que Brujon arranjara na sua masmorra, aos restos das grades que nham descolado, a raram a outra ponta por cima do muro de circunvalação, transpuseram o abismo, dando um salto, agarraram-se à aresta do muro, escarrancharam-se nele, deixaram-se escorregar, um depois do outro, pela corda abaixo, saltando para um telhado imediato à casa dos Banhos, puxaram a corda a si, saltaram ao terraço dos Banhos, atravessaram-no, abriram um dos batentes do portão levantando-

lhe o fecho onde pendia o cordão que o porteiro puxava sem sair para fora e acharam-se na rua.

Decorridos alguns instantes, juntaram-se a Babet e a Montparnasse, que giravam pelos arredores, não havendo ainda três quartos de hora que eles, no meio das trevas, se nham posto de pé sobre as camas em que dormiam, com o prego, instrumento da sua liberdade, na mão, e o seu plano na cabeça.

Ao puxarem a corda para si, esta nha quebrado, ficando um bocado preso à chaminé, em cima do telhado.

Quanto ao mais, a única avaria sofrida fora esfolarem quase completamente a pele das mãos, ao deixarem-se escorregar pela corda abaixo.

Nessa noite, Thenardier, prevenido, sem que nunca se pudesse averiguar de que modo o fosse, em lugar de dormir, como de costume, conservava-se de atalaia.

Por volta da uma hora, apesar da escuríssima cerração da noite, da chuva e das lufadas do vendaval, Thenardier viu passar dois vultos no telhado, por diante do pos go ou janela gradeada fronteira à gaiola em que ele jazia Um dos vultos parou ao pos go, detendo-se apenas o tempo de um olhar, e con nuou imediatamente o seu caminho Era Brujon, a quem Thenardier para logo conheceu e entendeu, sem haver necessidade de mais amplos esclarecimentos.

Thenardier, considerado como perigoso e réu do crime de cilada nocturna com emprego de meios violentos, era, portanto, guardado à vista por uma sen nela, que passeava diante da prisão dele de arma carregada, sendo rendida por outra de duas em duas horas. Um único lampião alumiava toda a Galeria do Ar Livre. Aos pés nha o preso duas correntes de ferro, que pesavam cinquenta libras. As quatro horas da tarde entrava todos os dias no cárcere do bandido um guarda, escoltado por dois mas ns (naquela época ainda isto nha lugar), pousava-lhe ao pé da cama um pão negro de duas libras, uma bilha de água e uma escudela cheia de caldo mal adubado, em cuja super cie se viam nadar algumas raras favas, passava-lhe revista aos ferros, corria, batendo, os varões das grades e ausentava-se, voltando duas vezes durante a noite, sempre escoltado pelos seus dois inseparáveis mastins.

Thenardier ob vera licença de conservar uma espécie de cavilha de ferro, de que se servia para espetar a sua ração de pão numa fenda da parede, a fim de, dizia ele, «o livrar dos ratos». Como o bandido era guardado à vista, ninguém viu inconveniente em conceder-lhe o uso de tal cavilha. Mais tarde, porém, lembraram-se que um guarda nha dito:

— Era melhor darem-lhe uma cavilha de pau do que consentirem-lhe a de ferro.

As duas horas foi rendida a sen nela, que era um veterano, sendo subs tuída por um recruta. Instantes depois veio o homem dos cães fazer a costumada visita e ausentou-se sem nada notar, a não ser a pouca idade e «o ar espantadiço» do bisonho soldado.

Passadas duas horas, isto é, às quatro, vindo outra sen nela render o recruta, encontraram-no a dormir, es rado no chão, como uma massa de pedra, à porta da gaiola de Thenardier. Quanto a este, nha-se evaporado, jazendo no chão os ferros que quebrara para se evadir. No tecto da prisão em que estava encerrado via-se um buraco e

no telhado outro. Na cama faltava uma tábua, que ele nha arrancado, e decerto levado consigo, porque não foi possível dar com ela. Apareceu ainda uma garrafa meia cheia, que con nha o resto do vinho narco zado que servira para adormecer o soldado. A baioneta deste tinha desaparecido.

Quando se deu por tudo isto, supôs-se que Thenardier estaria completamente fora de alcance; a realidade, porém, é que conquanto ele já não es vesse dentro dos muros do Edifício Novo, o perigo em que se achava nem por isso era menor.

Thenardier, chegado ao telhado do Edi cio Novo, encontrou o resto da corda de Brujon dependurada nos varões da abertura superior da chaminé, porém como esta parte que ficara era demasiado curta, tornava-se-lhe impossível saltar para o muro de circunvalação, como para se evadir tinham feito Brujon e Gueulemer.

Quando se volta da rua dos Ballets para a do Rei da Sicília, encontram-se quase imediatamente à direita umas ruínas sórdidas. Havia ali no século passado uma casa de que já não resta mais que a parede do fundo, verdadeira parede de pardieiro, que se eleva à altura de um terceiro andar entre os prédios vizinhos. Estas ruínas reconhecem-se facilmente por duas grandes janelas quadradas que ainda existem; a do centro, mais próxima da empena da direita, está trancada com uma viga carunchosa. Através das janelas dis nguia-se noutro tempo uma alta muralha lúgubre, parte da qual fechava o caminho de circunvalação da Force.

O vão que a casa demolida deixou na rua, está quase preenchido por um tapume de tábuas quase podres, e sustentado por cinco pilares de pedra. Dentro deste tapume oculta-se uma barraquinha encostada à parede, que ficou de pé no meio das ruínas. O

tapume tem uma porta que há poucos anos ainda se fechava só com uma tranqueta.

Foi ao alto destas ruínas que Thenardier conseguiu chegar pouco depois das três horas da manhã.

Como chegara até ali? Foi o que nunca se pôde explicar nem compreender. Os relâmpagos nham-no decerto ajudado e constrangido ao mesmo tempo. Ter-se-ia servido das escadas de mão e dos andaimes dos pedreiros para chegar, de telhado em telhado, de recinto em recinto, de compar mento em compar mento, aos edi cios do pátio de Carlos Magno, depois aos do pátio de S. Luís, ao muro de circunvalação e depois ao pardieiro que deita para a rua do Rei da Sicília? Mas neste trajecto havia soluções de con nuidade que pareciam torná-lo impossível. Teria atravessado a tábua da barra, como uma ponte, da Galeria para o muro do caminho de circunvalação e arrastar-se-ia de bruços sobre o muro em toda a volta da prisão até ao pardieiro? Mas o muro do caminho de circunvalação da Force desenhava uma linha dentada e desigual, subia e descia, baixava-se para o quartel dos bombeiros, tornava a levantar-se ao pé da casa dos Banhos, era tudo cortado por construções, não nha a mesma altura do lado da rua Pavée; havia nele por toda a parte, declives e ângulos rectos; e depois as sen nelas deveriam ter visto o sombrio vulto do fugi vo; deste modo ainda o caminho percorrido por Thenardier fica pouco mais ou menos inexplicável. De ambos os lados fuga impossível. Thenardier, iluminado pela medonha sede de liberdade, que faz dos precipícios fossos, que transforma as grades de ferro em caniçado, um coxo em atleta,

um gotoso em pássaro, a estupidez em ins nto, o ins nto em inteligência e a inteligência em génio, teria inventado e improvisado uma terceira maneira? Nunca se soube.

Nem sempre se podem perceber as maravilhas da evasão. O homem que escapa, repe mo-lo, é um inspirado; o misterioso barão da fuga par cipa da estrela e do relâmpago; o esforço para a liberdade não é menos surpreendente do que o voo para o sublime; e diz-se de um ladrão evadido: como fez ele para escalar aquele telhado? Do mesmo modo que se diz de Corneille: Onde achou ele que tivesse morrido?

Fosse como fosse, escorrendo suor, encharcado pela chuva, com o fato esfarrapado, as mãos todas feridas, os cotovelos e os joelhos ensanguentados, chegara Thenardier ao que os rapazes, na sua linguagem figurada, chamam o cimo do muro das ruínas, deitara-se sobre ele ao comprido e sentira-lhe faltarem-lhe as forças.

Estava separado da rua por um declive a prumo, da altura de um terceiro andar.

A corda de que poderia dispor era demasiado curta.

E esperava ali, pálido, exausto, já sem resto algum da esperança que vera, coberto ainda pela noite, mas lembrando-se de que dentro em pouco amanheceria, espantado com a ideia de ouvir dentro de poucos instantes soar as quatro horas no vizinho relógio de S. Paulo, hora em que iam render a sen nela e em que a achariam adormecida sob o tecto furado, vendo com espanto, numa profundidade terrível, à luz dos lampiões, a calçada molhada e negra, aquela calçada tão desejada e medonha, que era a morte e a liberdade.

Perguntava a si mesmo se os seus três cúmplices de evasão nham sido bem sucedidos, se o nham esperado, e se iriam socorrê-lo. Aplicava o ouvido À excepção de uma patrulha, não passara ninguém pela rua desde que ele ali se achava. O caminho de quase todos os hortelões de Montreuil, de Charonne, de Vincennes e de Berey, para o mercado, é pela rua de Santo António.

Deram quatro horas. Thenardier estremeceu. Poucos minutos depois rebentou por toda a prisão o confuso rumor que sucede à descoberta de uma evasão. O ranger das portas que se abriam e fechavam, o tumulto no corpo da guarda, as vozes roucas dos chaveiros, o estampido produzido pelas coronhas das armas nas pedras do pá o, tudo chegava aos ouvidos de Thenardier. Pelas janelas de grades dos dormitórios viam-se subir e descer algumas luzes no telhado da Galeria do Ar Livre, um archote andava de um lado para o outro, nham sido chamados os bombeiros do quartel vizinho e viam-selhes os capacetes alumiados pelo archote, agitando-se debaixo das torrentes da chuva de um para outro ponto, ao longo dos telhados. Ao mesmo tempo, Thenardier via do lado da Bas lha um cambiante lívido que ia aclarando lugubremente o ponto mais baixo.

Estava sobre um muro de dez polegadas de grossura, estendido ao comprido, debaixo das torrentes de chuva, com um abismo à direita e outro à esquerda, não podendo fazer o mínimo movimento, preso da ver gem de uma queda possível, e do horror de uma prisão certa, e o seu pensamento, qual badalo de um sino, ba a ora numa, ora noutra destas duas ideias:

— Se caio morro, se fico aqui sou preso.

No meio desta aflição avistou de repente na rua, ainda completamente escura, um homem que caminhava muito encostado às paredes, que vinha do lado da rua Pavée e que parou na cova por sobre a qual estava Thenardier como que suspenso. A este homem veio juntar-se outro, que caminhava com as mesmas precauções, depois terceiro, e finalmente quarto. Estes homens depois de todos reunidos, levantaram a tranqueta que fechava a porta do tapume e entraram no recinto em que estava a barraca.

Achavam-se precisamente por baixo de Thenardier. Os quatro homens nham

evidentemente escolhido aquele lugar escuso para poderem conversar sem serem vistos por quem passasse pela rua, nem pela sen nela do pos go da Force, que ficava a pequeníssima distância. É preciso também dizer que a chuva conservava a sen nela bloqueada na guarita. Thenardier, não podendo dis nguir-lhes os rostos, prestou o ouvido às suas palavras, com a atenção desesperada de um miserável que se sente perdido.

Thenardier viu passar diante dos olhos alguma coisa semelhante a uma esperança: os quatro homens falavam em calão.

O primeiro dizia em voz baixa, mas distintamente:

— Piremo-nos. O que é que nós empatamos cigol? 20

O segundo respondeu:

— É palhim capaz de apagar o aceso do nhoso. E depois não tarda que passe a gente da fusca; e o fundo que ali está de pasma?

Vamos fazer com que nos estardem icicaille. 21

Estas duas palavras leigo e icicaille, que querem ambas dizer aqui e que pertencem, a primeira à gíria das barreiras, e a segunda à do Templo, foram dois raios de luz para Thenardier. No icigo reconheceu Brujon, que era ratoneiro das barreiras, e pelo icicaille.

Babei, que entre todas as suas variadas ocupações, fora adelo do Templo.

A an ga gíria do grande século já se não fala senão no Templo; e mesmo Babet era o único que falava com toda a pureza. Senão fosse o inicicaille, Thenardier não o teria conhecido, por isso que tinha mudado completamente a voz.

Entretanto interviera o terceiro:

— Não há por enquanto motivo para nos apressarmos.

— Esperemos um bocado. Quem é que nos diz que ele não precisa de nós?

Por isto, que era linguagem vulgar, logo Thenardier reconheceu Montparnasse, cuja elegância nestes casos consistia em entender todas as gírias e em não falar nenhuma.

Quanto ao quarto conservava-se calado, mas era denunciado pela largura dos ombros.

Thenardier não hesitou. Era Gueulemer.

Brujon replicou quase impetuosamente, mas sempre em voz baixa:

— Que estás tu para aí a cantar? O tasqueiro pode lá xalar-se! Não entruja nentes da can ga. Par bulinar a mimosa, trinchar os respaldes da pildra e avelar uma comprida, para lazer bufos nas tapadas, fazer mãos macanjas, cortar os metais, es car a viúva, alapar-se e trocar o beque, é preciso ser nente! O gebo não pôde

raspar-se, não sabe brincar . 22

Babet acrescentou, sempre no sábio calão clássico que falavam Poulailer e Cartouche, e que está para o calão atrevido, novo, colorido e aventuroso de que usava Brujon, como a língua de Racine para a de André Chenier:

— O seu tasqueiro deixou-se estardar na piresa. É preciso ter unhas e não ser tanso.

Deixou-se azoinar por algum fusco, ou por a léria de alguma cabra. Cogia, Montparnasse: intrujas estes bramos no estarim? Viste os quar lhos? Pois está aguentado. Ficará pronto com os seus vinte longos. Eu cá não avelo fageca, não sou carunfa, é corrente; mas não há já que empatar cá no cote, e se não passarmos os canhantes, podem-nos dar pró azar; mas não te escames, anda piar

uma barra de cinopla geba . 23

— Não se abandonam assim os amigos no meio de embaraços resmungou Montparnasse.

— Já cantei — tornou Brujon — o tasqueiro a estas burantas está estardado, não vale lepes! Já não adiçámos mentes; xalemo-nos. Está-me sempre a parecer que coco um guita presente a fisgar-me

a bata! 24

Montparnasse já quase não resis a. O facto é que estes quatro homens, com a fidelidade própria dos bandidos em nunca se abandonarem uns aos outros, nham girado toda a noite pelos arredores da Force, conquanto fosse grande o perigo, com a esperança de verem surgir Thenardier no alto de algum muro. Mas a noite, realmente boa, era um dilúvio que tornava absolutamente desertas todas as ruas, o frio que os enregelava, o fato encharcado, os sapatos rotos, o mo m inquietador que acabava de se manifestar na prisão, as horas que iam passando, as patrulhas que se encontravam, a esperança que se ia desvanecendo e que ia sendo subs tuída pelo medo, era o que os impelia à re rada. O próprio Montparnasse, que era um tanto genro de Thenardier, cedia.

Um momento mais e teriam par do. Thenardier arquejava sobre o muro como os náufragos da Medusa na sua jangada, vendo desaparecer no horizonte o navio que nha avistado.

Não se atrevia a chamá-los; um grito que se ouvisse podia deitar tudo a perder. Teve uma ideia, a úl ma, um clarão: rou da algibeira o bocado da corda de Brujon, que ele nha desatado da chaminé do Edi cio Novo e a rou-a para o recinto fechado pelo tapume.

A corda caiu aos pés dos que se achavam em baixo.

— Uma viúva25 — exclamou Babet.

— A minha tortosa! 26 — disse Brujon.

O estalajadeiro está ali volveu Montparnasse.

Olharam todos para cima. Thenardier estendeu um pouco a cabeça

— Depressa! — exclamou Montparnasse. — Tens o outro bocado de corda, Brujon?

— Tenho.

— Ata os dois bocados; nós depois a ramos-lha e ele, prendendo-a ao muro, poderá descer.

Thenardier arriscou-se a levantar a voz:

— Estou gelado.

— Depois te aqueces.

— Já não me posso mexer.

— Deixa-te escorregar, que nós te aparamos.

— Não tenho força nas mãos.

— Prende só a corda ao muro.

— Não poderei.

— É preciso que um de nós trepe — disse Montparnasse.

— Três andares! — exclamou Brujon

Um an go tubo de pedra e cal, que servira noutro tempo a um fogão que se acendia na barraca, prolongava-se pelo muro e subia quase até ao sí o onde se achava Thenardier. Este condutor, então muito escalavrado e cheio de fendas desmoronou-se depois, mas ainda se conhece o sítio em que esteve.

Era em extremo delgado.

— Podia subir-se por ali — disse Montparnasse.

— Por aquele cano? — exclamou Babet. — Um orgue?27 Isso não

pode ser, era preciso um mion28 .

— Era preciso um môrne29 — acudiu Brujon.

— Mas onde se há-de ir buscar um mosquito?

— Esperem — disse Montparnasse — eu arranjo isso.

Em seguida entreabriu vagarosamente a porta do tapume, cer ficou-se de que não passava ninguém pela rua, saiu com precaução, tornou a fechar a porta atrás de si e deitou a correr na direcção da Bastilha.

Passaram-se sete ou oito minutos, que foram oito séculos para Thenardier; Babet, Brujon e Gueulemer, não disseram uma palavra; a porta tornou enfim a abrir-se, e deu entrada a Montparnasse esbaforido, acompanhado de Gavroche. A chuva con nuava a conservar a rua de todo deserta.

O pequeno Gavroche entrou no recinto fechado pelo tapume e encarou aqueles rostos de malfeitores com ar tranquilo.

Os cabelos escorriam-lhe água. Gueulemer dirigiu-lhe a palavra.

— Tu és um homem, petiz?

Gavroche encolheu os ombros e respondeu:

— Um petiz como eu é um homem, e homens como vocês são petizes.

— Como o tal miou tem o badalo esticado! 30 — exclamou Babet.

— O môme pantinense não é feito de forra palhinada31 — acrescentou Brujon.

— Que é que querem? — disse Gavroche.

Montparnasse respondeu:

— Que trepes por aquele cano.

— Com esta viúva32 — disse Babet.

— E que afiances a tortosa33 — acrescentou Brujon.

— Lá no tope do montante34 — tornou Babet.

— No valente da ventana35 — disse Brupon.

— E depois? — perguntou Gavroche.

— Mexe-te! — retorquiu Gueulemer.

O gaiato examinou a corda, o cano, o muro e as janelas, e fez o inexplicável e desdenhoso ruído com os beiços, que significa:

— Mas para quê?

— Para salvares um homem que está lá em cima — disse Montparnasse.

— Não queres? — Perguntou-lhe Brujon.

— Que gajo! — respondeu o rapaz, como se a pergunta lhe parecesse inaudita; e descalçou os sapatos.

Gueulemer pegou em Gavroche por um braço, pô-lo sobre o tecto da barraca, cujas duas tábuas carunchosas pareciam desfazer-se com tão pequeno peso e entregou-lhe a corda que Brujon nha acrescentado durante a ausência de Montparnasse. O gaiato dirigiu-se em seguida para o cano, onde era fácil entrar por um grande buraco que nele havia junto do telhado. No momento em que ia para subir, Thenardier, que via aproximar-se a salvação e a vida, debruçou-se da borda do muro; os primeiros alvores da manhã branqueavam-lhe já a fronte inundada de suor, as faces lívidas, o nariz afilado e selvá co, a barba grisalha e toda eriçada, de tal modo, que logo foi reconhecido por Gavroche.

— Olha! — disse ele. — É meu pai... Vá lá, isso não tira!

E, pegando na corda com os dentes, começou resolutamente a escalada.

Chegou ao alto do pardieiro, montou-se no muro como num cavalo, e amarrou solidamente a corda a um dos varões transversais da janela.

Passado um momento estava Thenardier ao pé dos companheiros.

Apenas pôs os pés no chão, apenas se viu fora de perigo, já não se sen u fa gado, nem gelado, nem trémulo; as coisas terríveis de que acabava de sair desvaneceram-se como fumo, toda aquela estranha e feroz inteligência despertou: achou-se em pé e livre, pronto a caminhar para a frente. Eis as primeiras palavras deste homem:

— Agora o que vamos nós comer?

É inú l explicar o sen do desta palavra medonhamente transparente, que significa ao mesmo tempo, matar, ferir e roubar. Comer, verdadeiro sentido: Devorar.

— Cheguem-se bem — disse Brujon. — Acabemos a coisa com três palavras, e depois separar-nos-emos imediatamente.

— Havia um negócio que parecia bom na rua Plumet, uma rua deserta, uma casa isolada, grades ferrugentas num jardim e mulheres sozinhas.

— E então porque não se fez? — perguntou Thenardier.

— Porque a tua fada36 Eponina foi ver a coisa — respondeu Babei.

— E trouxe uma bolacha à Magnon — acrescentou Gueulemer. —

Não há lá que chafurdar . 37

— A fada não é tansa38 — disse Thenardier. — Mas sempre será bom ver.

— Sim, sim — repetiu Brujon — sempre é bom ver.

Entretanto, nenhum daqueles homens parecia lembrar-se de Gavroche, o qual, durante este colóquio, se sentara num dos pilares que sustentavam o tapume; esperou alguns instantes talvez que seu pai se voltasse para ele, depois tornou a calçar os sapatos e disse: