Os Miseráveis
V — Originalidade de Paris
Realmente, aquilo era uma revolução?
Os revoltosos
nham transformado o centro de Paris numa como cidadela inextrincável, tortuosa e colossal.
Era aquele o foco; a questão resumia-se toda ali.
Quanto ao resto, eram tudo simples escaramuças. O que provava que a questão se resolveria toda ali era que o combate, naquele ponto, ainda não nha principiado. Em alguns regimentos, os soldados estavam indecisos, o que aumentava a temerosa
obscuridade da crise, ao lembrarem-se da ovação popular com que em Julho de 1830
fora acolhida a neutralidade do 53 de linha. Comandavam as tropas, naquela ocasião, dois homens intrépidos e experimentados nas grandes guerras, o marechal Lobau e o general Bugeaud, às ordens do primeiro. Aqui e além, viam-se numerosas patrulhas compostas de batalhões de tropa de linha, fechados por companhias inteiras de guardas nacionais, reconhecendo as ruas insurgidas, precedidos de um comissário de polícia de banda. Pela sua parte, os insurgentes distribuíam vedetas pelas esquinas das encruzilhadas e mandavam patrulhas com toda a ousadia para a parte exterior das barricadas. De ambos os lados, estavam os adversários em observação. O governo, apesar de ter à sua disposição um exército, hesitava; era quase noite e principiava a ouvir-se o sino de Saint-Merry, tocando a rebate. O marechal Soult, ministro da guerra naquela época, que nha assis do à batalha de Austerlitz, olhava para tudo aquilo com gesto sombrio.
Estes marinheiros velhos, afeitos à manobra correcta, e que só se deixam guiar pela tác ca, que é a bússola das batalhas, em presença dessa imensa escuma chamada cólera pública, ficam completamente desorientados. O vento das revoluções torna a manobra difícil.
Dos arrabaldes corriam também alguns destacamentos de guardas nacionais, apressadamente e em desordem. Em S. Diniz via-se um batalhão do 12 de linha, avançando a marche-marche; de Courbevoie chegava o 14; no Carroussel, tomavam posição as baterias da Escola Militar; pelo lado de Vincennes, vinham entrando algumas peças.
As Tulherias principiavam a ficar desertas, porém, Luís Filipe, conservava-se na maior serenidade.
V — Originalidade de Paris
Como noutra parte dissemos, Paris nha visto mais de uma insurreição dentro do espaço de dois anos. Ordinariamente, fora dos locais da insurreição não há coisa mais estranhamente serena do que a fisionomia de Paris neste dias revoltos Paris depressa se habitua a tudo.
— É apenas uma revolta! — dizem os parisienses, e por tão pouca coisa não se incomodam nem abandonam os numerosos negócios com que se vêem assoberbados.
Só cidades colossais como Paris podem oferecer espectáculos assim Só recintos imensos como o dele podem conter, ao mesmo tempo, a guerra civil e uma não sei que estranha tranquilidade. De ordinário, quando principia uma insurreição, o lojista, ao ouvir os tambores, os clarins, o toque a generala, limita-se a dizer:
— Parece que anda rusga acolá para a rua de S. Martinho.
Ou:
— Para o lado do bairro de Santo António.
Muitas vezes, mesmo, acrescenta com indiferença:
— Ele é para aí para esses sítios.
Passado tempo, quando se ouve dis ntamente o lúgubre estrondear do roteio entre o povo e a tropa, diz o lojista:
— A coisa pega! Bravo! O negócio agora sempre vai a mais!
Um instante depois, se a revolta se aproxima e dobra de fúria, o lojista fecha precipitadamente as portas da sua loja, enfia rapidamente o uniforme, quer dizer, põe a bom recato as suas mercadorias, e arrisca a sua própria pessoa.
Rebenta um roteio em cada encruzilhada, em cada beco, em cada esquina; tomam-se, perdem-se, tornam-se a tomar as barricadas; corre o sangue, crivam-se de metralha as fachadas dos prédios, entram as balas pelas casas e matam quem nelas encontram; atulham-se as calçadas de cadáveres, e, no meio de tudo isto, apenas a alguns passos de toda esta efervescência de uma revolta, ouve-se o choque das bolas de marfim dentro das salas dos cafés.
Abrem-se as portas dos teatros; os actores representam, os curiosos conversam e riem a dois passos daquelas ruas, onde tudo é tumulto e guerra. As seges passam, os transeuntes vão jantar onde lhes faz conta, às vezes, mesmo aos lugares onde anda travado o combate. Em 1831, os combatentes -de uma rua interromperam o roteio para deixar passar um acompanhamento nupcial.
Por ocasião da insurreição de 12 de Maio de 1839, via-se andar na rua de S. Mar nho, da barricada para a tropa e desta para aquela, um velho aleijado, puxando um carro de mão, do meio do qual saía um pau com um farrapo tricolor na ponta. Con nha o carro algumas garrafas cheias não sabemos de que líquido, as quais ele andava imparcialmente oferecendo ora à anarquia, ora ao governo.
Não há mais singular espectáculo; é este o caracterís co das revoltas de Paris e em nenhuma outra capital se dão cenas iguais. Para isso seriam necessárias duas coisas: a grandeza de Paris e o seu humor folgazão. Seria mister a cidade de Napoleão e a de Voltaire.
Desta feita, porém, isto é, por ocasião da revolta de 5 de Junho de 1832, a grande cidade sen u o que quer que fosse maior do que ela. Teve medo. Viram-se, por toda a parte, portas, janelas e pos gos fechados em pleno dia, ainda nos lugares mais remotos e «alheios à revolta». Os animosos armaram-se, os poltrões esconderam-se. O
transeunte indiferente ou preocupado desapareceu. Muitas ruas viam-se completamente desertas, como às quatro horas da madrugada. Corriam de boca em boca boatos assustadores, espalhavam-se no cias fatais. Que «eles» estavam senhores do Banco; que só no claustro de Saint -Merry estavam seiscentos, entrincheirados na igreja; que a tropa de linha não estava segura; que Armand Cairel nha ido falar com o marechal Clausel e que o marechal nha dito: «Arranjem primeiro um regimento»; que Lafaye e se achava doente, porém que assim mesmo lhes dissera: «Estou às suas ordens e segui-las-ei para toda a parte onde houver lugar para uma cadeira»; que era necessário estar de vigia, porque de noite não faltariam ladrões nos lugares mais desertos de Paris (nisto reconhecia-se a imaginação da polícia, essa Ana de Radcliffe adjunta do governo); que na rua de Aubry-le-Boucher se nha estabelecido uma bateria; que Lobeau e Bugeaud nham estado em conferência, e que pela meia-noite ou de madrugada, o mais tardar, marchariam quatro colunas, ao mesmo tempo, sobre o centro da revolta, a primeira pelo lado da Bas lha, a segunda pela porta de S. Mar nho, a terceira pelo lado da Greve, a
quarta pelo dos Mercados; que, provavelmente, as tropas evacuariam Paris, Re rando-se para o Campo de Marte; que não se sabia o que viria a acontecer ou não, mas que, em todo o caso, desta vez o negócio era sério».
Por outro lado, as hesitações do marechal Soult davam azo a numerosas apreensões.
— Porque razão não atacava ele já?
O certo é que o experimentado guerreiro andava profundamente preocupado, como se, leão amestrado, através daquelas sombras, pressen sse pelo faro um monstro desconhecido.
Chegou a noite, porém desta vez os teatros não se abriram; circulavam as patrulhas com gesto irritado; revistavam-se os transeuntes, prendiam-se os que se tornavam suspeitos. Às oito horas, já o número das pessoas presas subia a mais de oitocentas, de modo que se achava atulhada a prefeitura de polícia, a Conciergerie e a Force. Na Conciergerie, especialmente, o comprido subterrâneo denominado rua de Paris estava juncado de molhos de palha, sobre os quais jazia um montão de prisioneiros, a quem Lagrange, o homem de Lyon, arengava calorosamente. Quando eles revolviam toda aquela palha ao mesmo tempo, produzia-se um sussurro semelhante ao de uma forte pancada de água. Além destes, via-se ainda um sem número de presos deitados nos pá os ao relento e quase uns por cima dos outros. Em todos os rostos se via pintada a ansiedade e o temor dos acontecimentos que poderiam sobrevir no dia seguinte.
Nas casas, cada qual tratava de se entrincheirar o melhor que podia, e as mulheres que nham seus filhos ou maridos fora, cheias de inquietação, exclamando a cada momento:
— Valha-nos Deus! E ele ainda sem vir para casa!
Pelas ruas já não transitava uma só carruagem; apenas de espaço a espaço, porém com grandes intervalos, se ouvia o rodar de alguma lá ao longe. Os mais animosos vinham às portas escutar os rumores, os gritos, os tumultos, o surdo e indis nto rumorejar, que ora diziam ser a cavalaria, ora os carros do trem a galope, os clarins, os tambores, o roteio, e, sobretudo, o lamentoso som dos sinos de Saint-Merry, tocando a rebate, entremeado do estrondear da ar lharia. A cada momento, assomavam às esquinas homens desconhecidos, que gritavam:
— Fechem as portas! — e tornavam a desaparecer, ficando cada qual a cumprir o melhor que podia a recomendação por eles feita.