Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 122 de 359

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Os Miseráveis

V — Distracções

— Quem é aquela?

— É uma aranha, Monsenhor.

— Oh! E a outra?

— É um grilo.

— E aquela outra além?

— É uma lagarta.

— Na verdade? E então a menina o que é?

— Eu sou um bicho-de-conta, Monsenhor.

Cada caso deste género tem as suas par cularidades. No princípio deste século, Ecouen era um desses lugares graciosos e severos, onde, a uma sombra quase augusta, cresce a infância das donzelas. Em Ecouen, pois, para tomar lugar na procissão do San ssimo Sacramento, havia dis nção entre virgens e floristas. Havia também «os pálios» e «os turíbulos», conforme pegavam aos cordões do pálio ou iam a incensar o San ssimo Sacramento. Às floristas pertenciam de direito as flores. Na frente iam quatro

«virgens». Na manhã desse dia não era raro ouvir-se perguntar pelos dormitórios:

— Quem é que é virgem?

Madame Campan citava este dito de uma «pequena» de sete anos a uma «grande» de dezasseis que havia de ir na frente da procissão, enquanto que a outra tinha de ir atrás:

— Tu és virgem, eu não.

V — Distracções

Por cima da porta do refeitório, via-se escrito em grandes letras pretas essa oração chamada o Padre nosso pequeno, que nha a virtude de levar a gente direita ao céu:

«Padre nosso pequenininho, que Deus fez, que Deus disse e que Deus pôs no Paraíso. A noite, ao deitar, encontrei na minha cama três anjos: um aos pés, dois à cabeceira e a boa Virgem Maria que está no meio diz-me que me deite e que não duvide de nada. O

bom Deus é meu pai, a Virgem é minha mãe, os três apóstolos são meus irmãos e as três virgens minhas irmãs. A camisa com que Deus nasceu, estou eu envolta nela; a cruz de Santa Margarida no meu peito está escrita; a senhora Virgem anda pelos campos a chorar por Deus e encontra o senhor S. Jean. Senhor S. Jean de onde vindes vós? Venho do Ave Salus. Não viu por lá o bom Deus? Ele está na árvore da cruz, os pés pendentes, as mãos pregadas, um chapeuzinho de espinhos brancos na cabeça. Quem disser isto três vezes de manhã e três vezes de tarde ganhará o Paraíso.»

Em 1827, esta oração caracterís ca, nha desaparecido da parede, debaixo de uma tríplice camada de cal. A esta hora acaba ela de se apagar da memória de algumas jovens de então, hoje senhoras de idade avançada.

Um grande crucifixo completava a decoração do refeitório, cuja única porta, como julgamos ter dito, dava para o jardim. De uma extremidade do refeitório à outra corriam duas mesas estreitas, guarnecidas cada uma de dois bancos de pau, formando duas compridas linhas paralelas. As paredes eram brancas, as mesas negras; estas duas cores de luto são o único ma z dos conventos. As comidas eram ásperas, o próprio alimento das crianças, severo. O prato de luxo consis a numa pouca de carne com legumes ou de peixe salgado. Todavia, esta medíocre iguaria era uma excepção e só as recolhidas nham direito a ela. As crianças comiam caladas, vigiadas pela madre de semana, que de quando em quando, se alguma mosca dava para voar ou zunir, contra as prescrições da regra, abria e fechava um livro de pau com estrondo. Este silêncio era temperado com a leitura da vida dos santos, feita em voz alta num pulpitozinho com estante, que ficava aos pés do crucifixo. A leitora era uma educanda grande, no que andavam às semanas.

De distância em distância havia em cima da mesa umas terrinas vidradas, em que as próprias educandas lavavam o prato e o talher, e onde às vezes deitavam algum bocado

de carne dura ou de peixe estragado, que não podiam comer, porém isto era punido.

Chamavam a estas terrinas redondos de água.

A criança que quebrasse o silêncio era obrigada a fazer uma «cruz com a língua».

Onde? No chão, lambendo o soalho. O pó, o fim de todas as alegrias, era o encarregado de castigar aquelas pobres folhinhas de rosa, rés do crime de tagarelice.

Havia no convento um livro, de que nunca foi impresso senão um exemplar único, que era proibido ler. É a regra de S. Bento Arcano, em que não devem penetrar vistas profanas, de quem quer que sejam. Nemo regulas, seu cons tu ones nostras, externis cornmitnicabit.

Um dia, as recolhidas conseguiram apanhá-lo e principiaram avidamente a lê-lo, leitura frequentes vezes interrompida por terrores de serem surpreendidas, o que as fazia fechá-lo precipitadamente. Deste grande perigo, porém, a que se aventuraram, apenas tiraram um prazer medíocre.

Algumas páginas inteligíveis sobre os pecados dos rapazes novos, eis o que acharam de «mais interessante».

Apesar da extrema vigilância e da severidade dos cas gos, às vezes, quando o vento sacudia as enfezadas fruteiras, que orlavam a álea onde elas costumavam brincar, conseguiam apanhar fur vamente alguma maçã verde, algum damasco imperfeito ou alguma pêra bichosa.

Deixarei agora falar uma carta que tenho à vista, carta escrita há vinte e cinco anos pôr uma recolhida, hoje duquesa de... uma das senhoras mais elegantes de Paris.

Citá-la-ei textualmente:

Esconde a gente a pêra ou a maçã como pode. Quando vai pôr o véu na cama, enquanto não chegam as horas de ceia, mete-as debaixo do travesseiro e depois de deitada come-as, e quando não possa ser na cama, come-as na latrina.

Era esta uma das suas mais vivas voluptuosidades.

Uma vez, também por ocasião de uma visita do arcebispo ao convento, uma das jovens, Mademoiselle Bouchard, aparentada ainda com os Montmorencys, apostou em como era capaz de pedir um feriado, enormidade numa comunidade tão austera. Foi aceite a aposta, mas nenhuma das que a sustentavam acreditava nela. Chegada a ocasião, quando o arcebispo passava por diante das recolhidas, Mademoiselle Bouchard, com indescritível espanto das suas companheiras, saiu das fileiras e disse:

— Monsenhor, um feriado.

O senhor de Quélen, que viu a frescura e nacarado ma z daquela bonita carinha, sorriu-se e disse:

— Só um, minha querida menina? Três, se quiser. Concedo-lhe três dias de feriado.

Falara o arcebispo, tanto bastava para que a prioresa a nada se pudesse opor.

Escândalo para o convento, mas alegria para as recolhidas. Imagine-se o efeito que tal acontecimento produziria.

Todavia, aquele melancólico claustro não estava circundado de paredes tão altas, que a vida externa das paixões, que o drama, que o romance mesmo, não penetrasse nele.

Para prova, limitar-nos-emos a notar aqui, indicando-o de passagem, um facto real e incontestável, que aliás não tem em si relação nenhuma, nem de algum modo prende

com o fio da história que contamos. Mencionámo-lo apenas para completar no espírito do leitor a fisionomia do convento.

Por esta mesma época havia no convento uma pessoa misteriosa, que não era religiosa, a quem todas tratavam com grande respeito, dando-lhe o nome de senhora Alber na. A respeito dela só se sabia que estava doida e que no mundo passava por morta. Segundo se dizia, esta história encobria arranjos de fortuna necessários para um grande casamento.

Esta senhora nha apenas trinta anos, era trigueira, bastante bela e vago o olhar dos seus grandes olhos pretos. Era objecto de dúvida se ela via ou não. O seu andar mais parecia o de uma sombra que desliza rápida, do que o de uma pessoa viva; jamais se lhe ouvia uma fala e não era bem certo se ela respirava. O nariz nha-o afilado e lívido, como o dos que exalam o úl mo suspiro. Tocar-lhe na mão era como tocar num pedaço de gelo. Aquela mulher tinha uma estranha graça espectral.

Onde ela entrasse sen a-se frio. Um dia uma irmã, vendo-a passar, disse para outra:

«Esta senhora passa por morta. Está-o efectivamente, talvez». Albertina servia de tema a cem histórias. Era a eterna curiosidade das recolhidas.

Assis a aos o cios numa tribuna que havia na capela chamada a Clarabóia, porque apenas nha uma abertura circular, uma clarabóia, e era sempre ela só na tribuna porque se podia ver dali, por ficar no primeiro andar, o pregador ou o celebrante, o que era proibido às religiosas. Um dia, estava o púlpito ocupado por um jovem sacerdote da classe elevada da sociedade, o duque de Rohan, par de França, oficial dos mosqueteiros vermelhos em 1815, quando ainda príncipe de Leão, e que depois, em 1830, morreu cardeal e arcebispo de Besançon. Era a primeira vez que o senhor de Rohan pregava no convento de Pe t-Picpus. De ordinário, Alber na assis a aos sermões e o cios com perfeita serenidade, e em completa imobilidade. Naquele dia, porém, mal avistou o senhor de Rohan levantou o corpo e disse em voz que dominou o silêncio da capela: —

Ai! Augusto! — Toda a comunidade voltou a cabeça, estupefacta; o pregador ergueu os olhos, porém Alber na voltara à sua costumada imobilidade. Por aquele rosto descorado e frio passara um instante como um sopro do mundo exterior, um como clarão de vida, depois desvaneceu-se tudo e a louca tornara-se cadáver, como dantes era.

Contudo, aquelas duas palavras deram que falar a tudo o que no convento era capaz de proferir sons ar culados. Que mul dão de coisas naquele — Ai! Augusto! — que torrente de revelações! Efec vamente, o senhor de Rohan chamava-se Augusto. Era evidente, pois, que Alber na saíra da classe mais elevada da sociedade, pois conhecia o senhor de Rohan, que ela mesma nela ocupava avantajado lugar, pois que tão familiarmente falava de tão grande personagem e que nha com ele relações de parentesco, mas em todo o caso, e com toda a certeza, relações muito ín mas, pois que lhe sabia o «nome de baptismo».

Entre as pessoas que iam ao convento, havia duas severíssimas duquesas, que o visitavam frequentemente, penetrando nele decerto em virtude do privilégio Magnates mulieres.