Os Miseráveis
VI — Jean Valjean
— Vou conduzi-lo ao seu quarto.
O homem seguiu-o.
Como acima dissemos, a casa era dividida de tal modo que para se passar para o oratório, em que ficava a alcova, ou sair dele, era necessário atravessar o quarto do bispo.
Na ocasião em que ambos o atravessavam, Magloire guardava os talheres de prata no armário que ficava à cabeceira da cama. Era o úl mo serviço que fazia todas as noites antes de se ir deitar.
O bispo conduziu o hóspede à alcova, onde sevia uma cama preparada com toda a limpeza e uma mesinha, sobre a qual o homem pousou o castiçal.
— Ora vamos — disse-lhe o bispo — durma bem e pela manhã não se vá sem primeiro tomar uma chávena de leite quente das nossas vacas.
— Muito obrigado, senhor cura — respondeu o homem.
Mal proferira, porém, estas palavras cheias de serenidade, teve de repente e sem transição um movimento impetuoso, que gelaria de susto as duas boas mulheres, se dele fossem testemunhas. Ainda mesmo hoje é para nós di cil fixar a causa que, naquele momento, operava sobre ele. Seria acaso sua intenção fazer uma advertência ou uma ameaça? Teria obedecido a uma espécie de impulso ins n vo e para ele mesmo
obscuro? A verdade é que se voltou de repente para o velho, cruzou os braços e, fitando-o com um olhar selvagem, exclamou com voz rouca:
— Então recolhe-me em sua casa e dá-me um quarto assim tão próximo do seu? — E, interrompendo-se, acrescentou com um sorriso em que havia o que quer que fosse de monstruoso: — Já pensou bem? Quem lhe assegura que eu não seja um assassino?
— Isso só pertence a Deus! — respondeu o bispo.
Depois, com a maior gravidade, elevou os dois dedos da mão direita e, mexendo os lábios como quem reza ou fala consigo mesmo, abençoou o homem, que não seinclinou.
Em seguida, e sem voltar a cabeça, dirigiu-se para o seu quarto.
Sempre que na alcova ficava alguém, Magloire nha o cuidado de correr uma cor na que havia no oratório, ocultando assim inteiramente o altar. O bispo, ao passar por diante da cortina, ajoelhou e fez uma breve oração.
Um momento depois, encontrava-se a passear no quintal, meditando, contemplando, com a alma e o pensamento alheados nessas sublimes e misteriosas coisas que Deus mostra de noite aos olhos que velam.
Quanto ao hóspede, estava realmente tão cansado que nem se aproveitou dos lençóis lavados. Apagou a luz com um sopro das ventas, segundo o uso dos forçados e a rou-se vestido para cima da cama, adormecendo logo profundamente.
Ba a meia-noite quando o bispo, interrompendo o seu costumado passeio no jardim, entrou no seu quarto.
Decorridos mais alguns minutos, a casa jazia no mais profundo silêncio.
VI — Jean Valjean
O hóspede do bispo acordou alta noite.
Jean Valjean era oriundo de uma pobre família de camponeses de Brie. Na sua infância não aprendera a ler. Depois de homem fizera-se podador em Taverolles. Sua mãe chamava-se Joana Mateus e seu pai Jean Valjean ou Vlajean, alcunha talvez formada pela contracção de voilà Jean.
Jean Valjean era dotado de carácter pensa vo, sem ser triste, circunstância par cular às naturezas afectuosas. No fim de tudo, porém, não passava de uma criatura dorminhoca e des tuída de interesse, ao menos aparentemente. Perdera os pais ainda de tenra idade. A mãe morrera ví ma de uma febre de leite mal tratada; o pai, que fora também podador, morrera em consequência de uma queda, caindo de uma árvore Não ficara a Jean Valjean senão uma irmã, mais velha do que ele, viúva, com sete filhos, entre rapazes e raparigas. A irmã tomou conta de Valjean, e enquanto o marido foi vivo conservou o irmão na sua companhia e sustentou-o. Mas o marido morreu A mais velha das sete criancinhas nha oito anos, a mais nova doze meses Jean Valjean nha completado vinte e cinco anos. Para as criancinhas subs tuiu o pai que lhes faltara, e por sua vez passou a amparar a irmã que o amparara a ele. Esta mudança operou-se com amaior simplicidade, como se fora um dever, e até com certo orgulho da parte de Jean.
Assim consumira a mocidade num trabalho rude e mal retribuído. Nunca lhe nham conhecido afeição amorosa, nunca tivera tempo para se preocupar com o amor.
A noite recolhia a casa fa gado e comia a sua sopa sem proferir uma só palavra. Às
vezes, sua irmã, quando ele estava a comer, rava-lhe da gela o melhor da ceia, isto é, o bocado de carne, de toucinho, ou o olho de couve, para dar a algum dos filhos; ele não deixava de comer, curvado sobre a mesa e com a cabeça quase me da na gela, os compridos cabelos caídos para diante dos olhos, nem opunha resistência, parecendo não dar por coisa alguma.
Havia em Taverolles, próximo da habitação dos Valjeans, do outro lado do lugar, uma caseira chamada Maria Cláudia; às vezes, os filhos de Joana, quase sempre esfaimados, iam pedir em nome da mãe, uma porção de leite a Maria Cláudia e bebiam-no atrás de algum valado ou na volta de qualquer caminho, arrancando-se tão sofregamente a bilha uns aos outros, que às vezes as rapariguinhas entornavam-no pelas roupas que traziam. Se a mãe vesse conhecimento destes pequenos abusos de confiança, cas garia severamente os delinquentes. Jean Valjean, apesar dos seus modos bruscos, pagava o leite a Maria Cláudia às escondidas da mãe e as criancinhas não eram castigadas.
No tempo das podas, ganhava vinte e quatro soldos por dia; terminadas elas, ajustava-se como ceifeiro, como cavador, como moço de gado, como jornaleiro, enfim, fazia tudo o que podia. A irmã, pela sua parte, também não ficava ociosa. Mas que valia o trabalho de dois para sustentar um rancho de sete criancinhas? Era um triste grupo, que a miséria pouco a pouco foi abraçando e apertando no seu círculo de ferro. Chegou um Inverno muito rigoroso, em que Jean Valjean não encontrou que fazer. Ficou sem trabalho e a família sem pão. Sete criancinhas sem pão!
Num domingo à noite, preparava-se Maubert Isabeau, padeiro com estabelecimento no largo da igreja, em Taverolles, para se deitar, quando ouviu uma violenta pancada na vidraça gradeada da sua loja. Correu imediatamente para ali e chegou a tempo de ver um braço passando por uma abertura feita no vidro com um murro, pegar num pão e levá-lo. Isabeau saiu apressadamente e correu atrás do ladrão, que fugia como lhe permitiam as pernas, conseguindo alcançá-lo.
O ladrão largara o pão no caminho durante a corrida, mas nha ainda o braço ensanguentado. Era Jean Valjean.
Passava-se isto em 1795.
Jean Valjean foi levado aos tribunais daquele tempo «pelo crime de roubo nocturno com arrombamento, pra cado numa casa habitada». Possuía uma espingarda de que se servia como o melhor a rador e exercia às vezes o mister de caçador fur vo. Tudo isto lhe foi prejudicial. Há contra os caçadores fur vos um preconceito legí mo. O caçador fur vo e o contrabandista vizinham paredes meias com o salteador. Contudo, seja dito de passagem, entre estas raças de homens e o medonho assassino das cidades há ainda um profundo abismo.
O caçador fur vo vive na floresta, o contrabandista na montanha ou no mar. As cidades produzem homens ferozes, porque produzem homens corruptos. A montanha, o mar e a floresta, produzem homens selvagens: desenvolvem a parte feroz, porém muitas vezes sem destruir a parte humana.
Jean Valjean foi considerado criminoso. Os termos do código eram formais. Existem na nossa civilização momentos terríveis: os momentos em que a penalidade é descarregada
sobre um culpado. Que lúgubre momento aquele em que a sociedade se desvia e consuma o irreparável desamparo de uma criatura racional! Jean Valjean foi condenado a cinco anos de galés.
A 22 de Abril de 1796, proclamava-se em Paris avitória de Montenno e, alcançada pelo general em chefe do exército de Itália, que a mensagem do Directório de Quinhentos, chama Bonaparte, e nesse mesmo dia saía de Bicêtre uma numerosa leva de forçados. Jean Valjean fazia parte dessa leva. Um an go carcereiro daquela prisão, que conta hoje perto de oitenta anos, lembra-se ainda perfeitamente desse infeliz que foi acorrentado na extremidade do quarto cordão, no ângulo norte do pá o. Jazia sentado no chão como todos os outros e parecia não compreender mais nada além do horror da sua situação. É provável que por entre as vagas ideias da sua lamentável ignorância se lhe afigurasse excessivo o tormento que os homens lhe infligiam. Todo o tempo que lhe es veram a soldar a argola da go lha, pelo lado de trás, o que se fazia descarregando sobre o ferro grandes marteladas, o infeliz chorou sempre e, sufocado pelas lágrimas que lhe embargavam a voz, apenas de quando em quando se lhe ouvia dizer: «Eu era um pobre podador em Taverolles!» Ao dizer isto, no meio de con nuos soluços, levantava e baixava gradualmente a mão direita sete vezes, como se tocasse sucessivamente em sete cabeças desiguais, e por este gesto depreendia-se que o crime que cometera, fora para alimentar sete crianças.
Par u para Toulon, onde chegou ao cabo de uma viagem de vinte e sete dias, num carro e com a corrente de forçado ao pescoço. Em Toulon ves ram-lhe a jaqueta vermelha, que cons tui o trajo dos sentenciados às galés. Desde então, tudo o que cons tuíra a sua existência até aí se desvaneceu, incluindo o nome; deixou de ser Jean Valjean para ser apenas um número, o 24601. E sua irmã? Que des no levou? Que des no levaram aquelas sete criancinhas? Quem se ocupa de semelhantes coisas?
Perguntai ao tufão que passa para onde arremessou as folhas secas da pequena árvore serrada pelo pé .
É sempre a mesma história. Aquelas pobres criaturas de Deus, agora sem apoio, sem guia nem asilo, par ram ao acaso, talvez mesmo que cada qual pelo seu lado, e pouco a pouco se foram embrenhando nessa névoa frígida em que se perdem os des nos solitários, trevas espessas no meio das quais sucessivamente desaparecem tantas frontes assinaladas com o es gma do infortúnio, durante a triste peregrinação da humanidade.
Abandonaram a terra que os viu nascer; o campanário da sua aldeia esqueceu-os; esqueceu-os o marco do campo que fora seu; no fim de alguns anos passados nas galés, até o próprio Jean Valjean os esqueceu. Naquele coração, onde existira uma ferida, ficara uma cicatriz. Eis tudo. Durante todo o tempo que esteve em Toulon, uma só vez ouviu falar da irmã. Foi pelos fins do seu quarto ano de ca veiro. Alguém que os conhecera na terra
nha visto a irmã. Residia em Paris, onde morava numa rua pobre das proximidades de S. Sulpício, chamada a rua de Geindre. Apenas nha na sua companhia um filho, o mais novo de todos. Onde estavam os outros seis? Nem ela mesmo o saberia dizer.
Todas as manhãs ia trabalhar para uma pografia na rua do Sabot, n.º 3, onde exercia o mister de encadernadora, e onde nha de estar às seis horas da manhã, hora
que de Inverno ainda nem se conhece o dia. No mesmo edi cio havia uma escola, para onde ela levava o filho, que nha sete anos. Como ela, porém, entrava às seis horas, e a escola não se abria senão às sete, a pobre criança, a quem não consen am entrada na pografia, nha de esperar uma hora cá fora, no Inverno, ao relento da noite, antes de principiar a aula. Todas as manhãs, os operários que passavam, viam a infeliz criança sentada no chão, pendendo com sono, e muitas vezes a dormir nalgum canto, acocorado e encostado ao seu cestinho.
Quando chovia, a porteira, compadecida do rapazinho, recolhia-o no seu cubículo, onde havia apenas uma enxerga, uma roda de fiar e duas cadeiras de pau; o pequeno deitava-se a um canto e adormecia abraçado ao gato para não ter tanto frio. Às sete horas abria-se a escola e ele lá se apresentava.
Eis o que disseram a Jean Valjean. Contaram-lhe isto um dia, foi um momento, um relâmpago, como uma janela repentinamente aberta sobre os destinos dos entes que ele tanto amava e que logo após se fechou. Depois disto não tornou a ouvir falar deles, foi aquela a úl ma vez. Nada mais soube a seu respeito, nunca os tornou a ver, nem no decurso desta dolorosa história se tornará a fazer menção a eles.
Nos fins do quarto ano, chegou a Jean Valjean a vez de se evadir, no que foi auxiliado pelos seus camaradas, como é costume de tão triste lugar. Evadiu-se e andou dois dias errante pelos campos, usufruindo a liberdade, se éser livre ver-se perseguido, voltar acabeça a todo o instante, estremecer ao menor ruído, ter medo de tudo, da chaminé que fumega, do homem que passa, do cão que ladra, do cavalo que galopa, da hora que bate, do dia porque se vê, da noite porque se não vê, da estrada, do atalho, do arvoredo, do sono.