Os Miseráveis
X — Origem de adoração perpétua
Era este também um objecto de comentários para todas as ociosas do convento ou para aquelas que andavam aborrecidas. Que seria aquela tão preciosa e secreta coisa que era o tesouro da centenária? Algum livro de santidade, decerto?
Algum rosário único? Alguma relíquia eficaz? Perdiam-se em conjecturas. Apenas a pobre velha morreu, correram ao armário mais depressa talvez do que convinha e abriram-no. Acharam o misterioso objecto embrulhado numa toalha, como uma patena
benzida. Era um prato de Faenza representando uns amores a fugir, perseguidos por uns pra cantes de bo cário armados de enormes seringas. Abundavam as figuras em caretas e posturas cómicas. A um dos lindos amorinhos já um dos pra cantes nha espetado a atroz seringa. Ele deba a-se, agitava as asinhas, tentando ainda voar, mas o bufão ria com um riso satânico. Agora a moralidade do quadro: o amor vencido pela cólica. Este prato, aliás um tanto curioso e que teve talvez a honra de sugerir uma ideia a Molière, exis a ainda em Setembro de 1848; estava à venda num adelo do boulevard Beaumarchais.
Não queria esta boa velha receber nenhuma visita de fora, porque, dizia ela, era muito triste o locutório.
X — Origem de adoração perpétua
Com efeito, o locutório quase sepulcral, de que temos tentado dar uma ideia, é um facto inteiramente local, que não se reproduz com a mesma severidade noutros conventos, especialmente no convento da rua do Templo, que, na verdade, era de outra ordem. Neste convento, os pos gos negros eram subs tuídos por cor nas de cor escura, e o locutório era uma sala soalhada, com cortinas de cassa nas janelas e quadros de toda a espécie pelas paredes entre os quais figurava o retrato de uma benedi na com o rosto descoberto, ramalhetes pintados e até a cabeça de um turco.
Era no jardim do convento da rua do Templo que se achava o castanheiro da Índia que passava pelo mais belo e maior da França, e que entre o bom povo do século XVIII, tinha a fama de ser o pai de todos os castanheiros do reino.
Como já tivemos ocasião de dizer, o convento do Templo era ocupado por beneditinas da Adoração Perpétua, benedi nas, porém, muito diferentes das que estavam na obediência de Cister. A ordem da Adoração Perpétua não é muito an ga, pois não remonta a mais de duzentos anos. Em 1649 foi duas vezes e com poucos dias de intervalo, profanado o San ssimo Sacramento, em duas igrejas de Paris, em S. Sulpício e em S. Jean da Greve, sacrilégio horroroso e raro que encheu de comoção toda a cidade.
Ordenou por este mo vo o vigário-geral, prior de S. Germano-des-Prés, uma solene procissão, em que todo o seu clero tomou parte, oficiando o núncio do papa.
Duas senhoras, porém, Madame de Cour n, marquesa de Boucs, e a condessa de Chateauvieux, julgaram insuficiente a expiação. Aquele ultraje, bem. que passageiro, feito ao «augus ssimo sacramento do altar» não saía daquelas duas almas piedosas, parecendo-lhes que não podia ser reparado senão por uma «Adoração Perpétua» em algum mosteiro de freiras. Fizeram ambas, pois, uma em 1652, a outra em 1653, doação de consideráveis quan as à madre Catarina de Bar, chamada do San ssimo Sacramento, religiosa benedi na, para ela com este piedoso fim, fundar um mosteiro da ordem de S.
Bento; a primeira licença para esta fundação foi dada à madre Catarina pelo senhor de Metz, abade de S. Germano com a condição de que nenhuma mulher pudesse ser admi da, sem trazer trezentas libras de pensão, que perfazem seis mil libras de capital». Depois do abade de S. Germano concedeu o rei cartas-patentes, e em 1654, tanto a licença abacial, como as cartas régias, foram homologadas no tribunal de contas e no parlamento.