Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 7 de 359

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Os Miseráveis

VII — Gravatte, o salteador

Em toda a casa não havia uma só porta fechada à chave. A porta da sala de jantar que dava saída para o largo da catedral, fora, em tempos, guarnecida de fechaduras e ferrolhos, como se fosse a porta de uma prisão. O bispo mandou rar todas as fechaduras e daí em diante quer fosse noite, quer dia, a porta apenas ficava segura por um simples fecho. Quem quisesse abrir a porta, podia fazê-lo a qualquer hora.

Nos primeiros tempos, isto afligia as duas mulheres, mas o bispo dizia-lhes:

— Se quiserem mandem pôr ferrolhos nos vossos quartos.

Desde então, elas principiaram a par cipar da confiança do bispo ou, pelo menos, a mostrar que par cipavam. Apenas Magloire sen a, de tempos a tempos, renascer-lhe os receios. No que respeita ao prelado, podem dar-nos a explicação ou, pelo menos, indicação do seu pensamento, as seguintes linhas escritas por ele na margemde uma folha da Bíblia: «Eis a diferença: a porta do médico nunca deve estar fechada e a porta do sacerdote deve estar sempre aberta.»

Noutro livro in tulado Filosofia da ciência médica escrevera ele esta nota: «Tão médico sou eu como eles. Eles têm os seus enfermos, aos quais chamam doentes; eu tenho esses e os meus, a quem chamo desgraçados».

Noutra parte lia-se ainda: «Não pergunteis nunca o nome de quem vos pedir pousada Aquele que necessita de ocultar o seu nome, é quem mais carece de asilo».

Uma ocasião, um respeitável pároco, não sabemos bem se o de Couloubroux, se o de

Pompierry, perguntou-lhe, talvez ins gado por Magloire, se estava certo de não cometer, até certo ponto, uma imprudência, deixando de noite a porta aberta, à mercê de quem quisesse entrar, e se, finalmente, não receava consequências desagradáveis numa casa tão mal guardada.

O bispo, com serena gravidade, pôs-lhe a mão no ombro e disse-lhe:

— Nisi Dominus custodierit domum, in vanum vigilante qui custodiunt earn.

Dizendo isto, mudou logo de assunto.

O sacerdote, costumava ele dizer, tem tanta bravura como o militar. Com a diferença, acrescentava, que a nossa deve ser mais pacífica.

VII — Gravatte, o salteador

Vem a propósito aqui um facto que não devemos omi r, por ser um dos que melhor dão a conhecer o carácter do virtuoso bispo de Digne.

Depois de destroçada a quadrilha de Gaspar Bés, terrível bandido que infestara as gargantas de Olialles, refugiara-se na montanha com mais alguns salteadores que conseguiram escapar à jus ça, um dos seus lugares-tenentes, chamado Grava e.

Conservando-se algum tempo oculto no condado de Nice, Grava e entrou no Piemonte e, quando menos era esperado, reapareceu em França, do lado de Bercelone e, sendo visto primeiro em Jausiers e depois em Tuiles. Oculto nas cavernas de Joug-de-l’Aigle, fazia frequentes incursões nos lugares e aldeias dos arredores, descendo pelos barrancos de Ubaye e do Ubayette.

Uma noite, chegou mesmo a entrar em Embrun, onde penetrou na catedral, roubando todos os objectos que se encontravam na sacris a. Os seus repe dos assaltos traziam a terra em con nuo e terrível sobressalto. Destacou-se um corpo de gendarmeria para o perseguir, mas foi trabalho baldado. Escapava-se sempre e até algumas vezes resis a às forças mandadas em sua perseguição.

No meio deste terror, chegou o bispo, que andava a fazer as suas visitas pelo distrito de Chastelar. O maire foi ao seu encontro e pretendeu convencê-lo de quanto seria prudente voltar para trás, pois Grava e ocupava a montanha até para além do Arche.

Tornava-se perigoso atravessá-la, mesmo com uma escolta, porque seria expor inutilmente a vida de três ou quatro pobres soldados.

— Por isso mesmo tenciono ir sem escolta — disse o bispo.

— Pois Monsenhor intenta semelhante coisa?! — exclamou o maire.

— De tal modo que recuso a companhia dos soldados e daqui a uma hora pôr-me-ei a caminho.

— Pois teima em partir?

— Porque não?

— Sozinho?

— Sim.

— Isso é uma temeridade, senhor bispo.

— Há três anos — replicou o bispo — que não visito o pequeno e humilde lugarejo da montanha, cujos habitantes e bons pastores, são todos meus amigos. A sua riqueza é uma cabra de cada rebanho de trinta que guardam; a sua indústria, é fazer bonitos

cordões de lã de diversas cores e o seu diver mento, tocar árias montanhesas em flau ns de seis buracos. Precisam de ouvir a palavra de Deus de tempos a tempos. Que haviam de dizer de um bispo medroso? Que diriam se eu lá não fosse?

— Mas, Monsenhor, e os salteadores?

— É verdade, tem razão. Se os encontrasse... Olhe que também devem ter necessidade de ouvir falar em Deus!

— É uma grande quadrilha! Um rebanho de lobos!

— Pois talvez seja desse rebanho, senhor maire, que Jesus queira que eu seja pastor.

Quem sabe os desígnios da Providência?

— Podem roubá-lo, senhor bispo.

— Não tenho nada.

— Podem assassiná-lo!

— Ora! Com que fim fariam eles mal a um pobre sacerdote que vai a passar, ocupado unicamente em rezar as suas orações?

— Valha-me Deus! Que sucederá se os encontrar?

— Pedir-lhes-ei esmola para os meus pobres.

— Em nome do céu, Monsenhor, não exponha a sua vida!

— Pois é esse o seu temor, senhor maire! — atalhou o bispo. — Eu não ando no mundo para guardar a minha vida, mas sim para guardar as almas!

Ninguém o pôde fazer mudar de resolução. Apesar de todas as súplicas, par u acompanhado apenas por um rapaz que se prestou a servir-lhe de guia.

A sua obs nada resistência deu muito que falar, deixando os ânimos sobressaltados em extremo. Desta vez não quis que a irmã nem Magloire o acompanhassem.

Atravessou a montanha montado numa mula e chegou são e salvo até aos pastores seus amigossem ter do o menor encontro desagradável. Demorou-se quinze dias no meio deles, pregando, ensinando, moralizando, administrando os sacramentos.