Os Miseráveis
II — Explicação
Havia meia hora quase, segundo o seu cálculo, que ele caminhava, sem se lembrar sequer de descansar, mudando apenas a mão com que agarrava Mário. Cada vez era mais profunda a escuridão, mas esse mesmo aumento de trevas, o tranquilizava.
De súbito, viu que a sua própria sombra se desenhava num pequeno e mal dis nto clarão avermelhado, que vagamente purpureava o pavimento e a abóbada do cano em que se achava, reflec ndo-se de um lado e de outro sobre as paredes viscosas do
corredor.
A esta vista voltou-se estupefacto.
Pelo lado de trás, na parte do corredor para diante do qual acabava de passar, a distância que lhe pareceu imensa, refulgia, fendendo com a sua luz a espessa escuridão, uma espécie de horrível astro, que parecia contemplá-lo.
Era a sombria estrela da polícia, surgindo na cloaca.
Para lá desta estrela, oito ou dez vultos negros, direitos, indis ntos, terríveis, se agitavam confusamente.
II — Explicação
Por ocasião da revolta de Junho., ordenara a autoridade que se efectuasse uma busca geral no encanamento de Paris, por se lembrar que talvez algum dos vencidos vesse procurado esse refúgio.
Em virtude disto, ao mesmo tempo que o general Bugeaud, no dia 6, corria o Paris público, o prefeito Gisquet pesquisava o Paris oculto; dupla operação conexa, que exigia uma dupla estratégia da parte da força pública, em cima representada pela tropa, em baixo pela polícia. Três pelotões de agentes e trabalhadores se entranharam em exploração pelo encanamento de Paris, o primeiro na margem direita, o segundo na margem esquerda, o terceiro na Cite.
Os agentes procediam àquela busca armados de clavina, cacetes, espadas e punhais.
O clarão que acabava de impressionar Jean Valjean era o da lanterna da ronda da margem direita, a qual nha findado o seu exame quanto à galeria curva e aos três becos que ficam por baixo da rua Quadrante. Na ocasião em que ela examinava, ao clarão da sua lanterna, todos os recantos desses becos, chegara Jean Valjean à entrada da galeria, porém vendo que esta era mais estreita do que o corredor principal, deixou-a e passou adiante.
Ao saírem da galeria do Quadrante, afigurou-se aos homens da polícia ouvir rumor de passos na direcção do cano-mestre.
Eram, efectivamente, os passos de Jean Valjean.
O sargento que comandava a ronda elevou a lanterna e puseram-se todos a olhar, por entre a cerração, para o lado de onde tinha vindo o rumor.
Foi este, para Jean Valjean, um indefinível instante.
Felizmente, se ele via bem a lanterna, a lanterna a ele via-o mal. Ela era a luz, ele a escuridão, afastado e confundido, como se achava, nas espessas trevas daquele lugar.
Contudo, parou e cozeu-se o mais que pôde com a parede.
Verdadeiramente, porém, nem ele sabia o que aquilo era. A falta de sono e de alimento, as emoções, porque nha passado, haviam-no igualmente reduzido ao estado de visionário. Via um clarão, em roda do qual se moviam umas larvas. Mas o que isso significava não sabia ele.