Os Miseráveis
II — Gavroche em marcha
de dentro da gaiola em que todos nham pernoitado, repar u com, eles do almoço, que o seu génio inven vo conseguiu descobrir, e despedira-os, confiando-os a essa boa mãe, a rua, que quase o nha criado a ele. Ao dizer-lhes adeus, recomendou-lhes que à noite fossem ter ao mesmo sítio, entremeando esta recomendação com o seguinte discurso:
— Amados pe zes, par cipo-lhes que me esgueiro, por outra, que me piro, ou, como dizem os marinheiros, que me vou fazer de vela! Se não encontrarem o paizinho nem a mãezinha, venham à noite aqui ter. Terão cama e mesa grátis!
Os dois rapazinhos, porém, ou porque vessem sido presos por vadios ou roubados por algum sal mbanco, ou, simplesmente, se houvessem perdido no imenso labirinto das ruas de Paris, o certo é que não tornaram a aparecer no sí o que lhes aprazara o gaiato. Os baixios do actual mundo social andam cheios destes rastos perdidos. Tinham decorrido três meses depois daquela noite e Gavroche não os tornara a ver. Não poucas vezes, no decurso desse tempo, Gavroche exclamara, coçando a cabeça:
— Que diabo será feito, a estas horas, dos meus dois pequerruchos?
Gavroche, pois, caminhava alegremente com a sua pistola na mão. Ao chegar à rua da Ponte das Couves, reparou que não havia em toda ela mais do que uma loja aberta, e, coisa digna de reflexão, que essa loja era a loja de um pasteleiro. Era uma ocasião providencial de comer ainda um bocado de pudim de batatas, antes de ir experimentar os desconhecidos azares da guerra. Gavroche parou, apalpou-se, procurou, revistou todos os bolsos, não encontrou nada e principiou a gritar:
— Estou roubado!
Realmente, é duro ver falhar o último recurso.
O gaiato, contudo, não deixou por isso de continuar o seu caminho.
Dali a dois minutos, achava-se na rua de S. Luís. Ao atravessar a rua do Parque Real, sen u necessidade de se desforrar do impossível pudim de batatas, e principiou, com imensa voluptuosidade sua, a rasgar em pleno dia os cartazes afixados nas esquinas.
Mais adiante, ao ver passar um grupo de sujeitos com cara de saúde, e que a ele se lhe afiguraram ser proprietários, encolheu os ombros e a rou à aventura para o ar esta golfada de bílis filosófica:
— Estes senhores rendeiros regalam-se de bons bocados! Olhem que caraças eles têm! Parece mesmo que lhes está a sair a gordura pela pele fora! Perguntem-lhes o que fazem ao dinheiro, a ver se eles sabem! Comem-no, os malditos! Ainda eles comam tanto, que a barriga lhes estoure como uma castanha!
II — Gavroche em marcha
Ges cular com uma pistola sem ga lho, no meio de uma rua, é um meio tão eficaz de entusiasmo, que Gavroche cada vez redobrava mais o seu, gritando por entre os pedaços da Marselhesa que ia cantando:
— Corre tudo às mil maravilhas! O pior é uma dor que aqui tenho na pata esquerda, com licença de quem está presente! Mas isso é o mesmo, cidadãos! Vamos a eles, que são uns cães! A respeito de cães, caluda, que me pode ouvir algum espião Um espião é um cão. Exactamente o que falta à minha pistola Com mil diabos! Uma pistola sem ga lho é um podengo sem nariz! Avante, meus amigos, a panela já ferve, toca a escumá-
la! Quem for de pêlos, para diante com a cara! Os homens conhecem-se nas ocasiões.
Aqui estou eu que vou dar a vida pela pátria, deixando a minha amante ao Deus dará, sem uma côdea para roer! É o mesmo! Viva a pândega! A eles, rapazes! Estou farto de despotismo!...
Neste instante, o cavalo de um lanceiro da guarda nacional que vinha passando caiu, e Gavroche, ao ver o cavaleiro entalado entre o cavalo e as pedras, pousou a pistola no chão, ajudou a levantar o homem, ajudou a erguer o cavalo, pegou outra vez na pistola e seguiu o seu caminho.
Na rua de Torigny era tudo silêncio e solidão. Esta apa a, peculiar ao Marais, contrastava com o imenso rumor que o rodeava À porta de uma casa viam-se quatro
«senhoras vizinhas» conversando. A Escócia possui os seus trios de fei ceiras, masParis possui quartetos de senhoras vizinhas, e o «hás-de ser rei» seria tão lugubremente dito a Bonaparte na encruzilhada de Baudoyer como a Macbeth na charneca de Armuyr. Quase seria o mesmo coaxar de rãs.
As matronas de que falamos ocupavam-se, exclusivamente, dos negócios que lhes diziam respeito. Eram três porteiras e uma trapeira, com o seu gancho e cabaz.
Vistas assim de pé, pareciam quatro estátuas representando as quatro fases da velhice a caducidade, a decrepidez, a ruína e a tristeza.
O aspecto da trapeira inculcava humildade. Naquela sociedade ao ar livre, a trapeira corteja, a porteira protege, porque depende dela que o monte do cisco amontoado ao canto da porta seja mais ou menos abundante, segundo for vontade sua. Pode haver bondade na vassoura.
A trapeira, portanto, que era uma criatura grata, sorria-se e que sorriso! para as três porteiras e conversavam todas quatro em coisas como as que seguem:
— É verdade, e o seu gato ainda é ruim como dantes?
— Bem sabe que os gatos são naturalmente inimigos dos cães; por isso, esses é que se queixam.
— E a gente também.
— E mais as pulgas dos gatos não saltam para a gente.
— Isso não faz ao caso. Todavia, os cães são levados da breca. Lembra-me haver um ano tanta abundância deles, que até os botaram às folhas Era quando havia nas Tulherias uns carneiros muito grandes que puxavam o carrinho do rei de Roma.
Lembram-se do rei de Roma?
— Eu gostava muito mas era do duque de Bordéus.
— Eu conheci Luís XVII. Muito gostava eu dele!
— Está a carne pela hora da morte, tia Patagon!
— Ai, nem me fale nisso, que só a gente lembrar-se de semelhante coisa faz tremer!
Dá a gente uma mão cheia de dinheiro e ainda por cima é mal servida! E ele custa tanto a ganhar!
— É verdade, isso é que custa! — disse a trapeira, intervindo na conversa. — Vai fraco tempo para o negócio. O lixo agora não presta, porque ninguém já deita nada fora.
Comem tudo!
— Ainda as há que têm menos do que vossemecê, senhora Vargoulême.
— Lá isso é verdade — respondeu a trapeira com deferência. — Ao menos eu, ou bom ou mau, sempre tenho o meu modo de vida. Seguiu-se uma pausa, após a qual a trapeira, cedendo a essa necessidade de expansão que é o fundo da natureza humana, acrescentou:
— Pela manhã, assim que me recolho a casa, despejo o meu cesto e começo a arrumar o que acerto de trazer dentro dele. Tudo são mon nhos no meu quarto. Os farrapos deito-os a um cesto e os que são de linho arrumo-os num armário, os traços deito-os numa panela, os farrapos de lã meto-os na cómoda, os bocados de papel ponho-os ao canto da janela, o que ainda pode servir para comer vai para um alguidar, os pedaços de vidro em cima do fogão, os chinelos atrás da porta e os ossos debaixo da cama.
Apenas a trapeira acabara de proferir a úl ma palavra, uma voz exclamou por trás das quatro mulheres:
— Ah, suas velhas! Que diabo estão vocês aí a falar em política?
Era Gavroche, que, ao avistar as velhas entre das no seu colóquio, parara e pusera-se a escutar.
Como era de supor, a abrupta interpelação do gaiato foi acolhida pelas quatro velhas com uma saraivada de iradas imprecações.
— Querem vocês ver o espantalho pequeno, o Senhor me perdoe?
— Ele que traz ali nos cotos, salvo seja? É uma pistola?.
— Tu que tens que cheirar aqui, grandíssimo velhaco?
— Esta canalha não descansa enquanto não deitar abaixo o governo!
Gavroche, em extremo desdenhoso para com as iras das quatro mulheres, limitou-se, por única represália, a levantar a ponta do nariz com a extremidade do dedo polegar, abrindo, ao mesmo tempo, o resto da mão.
— Fora, malcriado!— gritou a trapeira.