Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 150 de 359

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Os Miseráveis

VIII — Onde se narra um dito galante do último rei

É, realmente, sobremodo chistoso o seguinte dito de um aldeão: «Tio fulano, sua mulher morreu da doença que teve; porque não mandou chamar um médico?»

«O senhor que quer? Cá nós, os pobres, não temos com que pôr embargos à morte!»

Se este dito, porém, exprime toda a passividade do aldeão, no que em seguida se vai ler, revela-se toda a anarquia do livre pensar do gaiato parisiense. Vendo um destes um condenado à morte a falar com o seu confessor, exclamou: «Lá está o maricas a dizer segredinhos ao sotaina!»

O gaiato torna-se saliente por certa dose de audácia em assuntos religiosos. É que ser espírito forte inculca importância.

A assistência às execuções cons tui para ele um dever. Apontam uns aos outros para a guilho na e riem, designando-a por toda a espécie de nomes figurados, como

«sobremesa», «corta-gorgomilos», «cerradouro», «decepa-tou ços», «diligência do outro

mundo», etc., etc. Tal é o empenho com que procuram ver todas as peripécias do terrível drama, que trepam acima das paredes, sobem às árvores, agarram-se às grades, andam de gatas pelos telhados. O gaiato já nasce trolha e marinheiro. Tanto o in mida um telhado como um mastro. Não há festa para ele como a execução de um condenado. Os nomes mais populares são os de Sansão e o do abade Montês. Apupam o paciente para o animar, e às vezes mostram por frases cheias de fogo a admiração que lhe tributam.

Lacenaire, quando gaiato, vendo morrer intrepidamente o terrível Danton, proferiu esta frase que encerra um futuro: «Tenho-lhe inveja». Voltaire é desconhecido entre os garotos, mas todos conhecem Papavoine. Na mesma lenda misturam os «polí cos» e os assassinos, e de todos conservam a tradição do úl mo trajo que usaram. Sabem, pois, que Tolleron trazia uma carapuça de moço de forneiro, Avril um barrete de pele de lontra, Louvei um chapéu de copa baixa, que o velho Delaporte era calvo e andava sem nada na cabeça, que Castaing era corado e sobremodo bonito, que Bories nha uma român ca cadelinha de água, que Jean Mar n guardava os suspensórios, que Lecouffé e sua mãe andavam sempre a travar-se de razões. «Disse o tacho à sertã, pira-te lá não me enfarrusques!», gritou-lhe uma vez um gaiato. Outro, para ver passar Debacker, que de pequeno se perdia por entre o povo, lembra-se do lampeão do cais e trepa acima dele.

Ao ver isto, um guarda que ali estava de sen nela franze o sobrolho e o gaiato diz-lhe:

«Ó camarada, deixe-me subir», e para melhor o comover acrescenta: «Esteja descansado que eu não caio». «E a mim dá-se-me bem que tu caias!» responde o guarda.

Os gaiatos apreciam sempre sumamente algum desastre memorável. Se alguém sucede dar um golpe profundo «até ao osso», como eles dizem, torna-se objecto da mais subida veneração.

Ter pulso é também um elemento de respeito, e não dos mais medíocres. Uma das coisas que o gaiato diz com mais desvanecimento é: «Caramba! Eu, assim mesmo, ainda tenho bastante força.» Entre eles ser canhoto é circunstância digna de inveja e apreciável o ser vesgo.

VIII — Onde se narra um dito galante do último rei

De Verão, o gaiato metamorfoseia-se em rã. No fim da tarde vê-lo-eis defronte das pontes de lena e de Austerlitz a rar-se ao Sena, de cabeça para baixo, de cima das barcas de carvão e dos barcos das lavadeiras, com manifesta infracção das leis do pudor e dos regulamentos policiais. Contudo, os agentes de polícia vigiam, do que resulta uma situação sumamente dramá ca, que já deu lugar a um grito fraternal memorável; este grito, que se tornou célebre em 1830, é um aviso estratégico de um gaiato a outro; é suscep vel de se expandir como um verso de Homero e tem uma entoação quase tão inexprimível como a melopeia elegíaca das Panatheneias. Parece o antigo Evohé.