Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 76 de 359

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Os Miseráveis

VII — Napoleão de bom humor

Assim resguardado e seguro, o centro do exército anglo-holandês podia dizer-se em boa posição.

O único perigo dele era a floresta de Soignes, então con gua ao campo de batalha e cortada pelas lagoas de Groenendael e de Boitsfort. Por ali não podia recuar um exército sem se desfazer; os regimentos desunir-se-iam logo e a ar lharia ter-se-ia perdido nos pântanos. A re rada, segundo a opinião de muitos homens da profissão, contestada por outros, seria um verdadeiro salve-se-quem-puder.

Wellington ajuntou ao centro uma brigada de Chassé, rada à ala direita, e uma brigada de Wincke, rada à ala esquerda, e ainda a divisão de Clinton. Aos seus ingleses, aos regimentos de Halke , à brigada de Mitchell, aos guardas de Maitland, deu por orelhões e contrafortes a infantaria de Brunswick, o con ngente de Nassau, os hanoverianos de Kielmansegge e os alemães de Ompteda, ao todo vinte e seis batalhões.

A ala direita, como diz Charras, foi reba da para trás do centro. Disfarçada por sacos de terra, havia uma enorme bateria no sí o onde hoje está o chamado «Museu de Waterloo». Afora isto, Wellington nha numa volta de terreno o regimento dos dragões-guardas de Somerset, que se compunha de mil e quatrocentos cavalos. Era a outra metade dessa cavalaria inglesa tão justamente célebre. Destruído Ponsonby, ficava

Somerset.

A bateria, que, se es vesse acabada, seria quase um reduto, estava disposta por trás da parede de um jardim, muito baixa, reves da à pressa de uma camisa de sacos de areia e de um talude de terra; esta obra, porém, não estava terminada, porque não tinha havido tempo de a palissar.

Wellington, que andava a cavalo, inquieto, mas impassível, todo o dia permaneceu na mesma a tude, um pouco adiante do moinho do Mont-Saint-Jean, que ainda existe, debaixo de um olmo, que depois um inglês, vândalo entusiasta, comprou por duzentos francos, e, serrado, o levou. Wellington foi friamente heróico nesse dia.

Choviam-lhe as balas em derredor, caiu-lhe morto ao lado o ajudante de campo Gordon, e nada o abalou.

Lord Hill, disse-lhe, mostrando-lhe uma bomba que rebentara:

— Millord, quais são as suas instruções e que ordens nos deixa, se se deixar matar?

— Fazerem como eu! — respondeu Wellington.

A Clinton disse laconicamente:

— Aqui resiste-se enquanto houver um homem!

Era visível que o dia corria mal. Wellington gritava aos seus an gos companheiros de Talavera, de Victoria e de Salamanca:

— Boys! Quem é que se lembra aqui de retirar? Recordai-vos da velha Inglaterra!

Às quatro horas, a linha inglesa abalou para trás. De súbito, não se tornou a ver na crista da planura senão a ar lharia e os caçadores; o resto desapareceu; os regimentos, rechaçados pelas bombas e pelas balas francesas, deitaram pelo fundo que ainda hoje corta o carreiro, que dá serven a para a herdade do Mont-Saint-Jean, e, por um movimento retrógrado que se fez, a vanguarda do exército inglês esconde-se e Wellington principiou a recuar.

— Já batem em retirada! — gritou Napoleão.

VII — Napoleão de bom humor

O imperador, posto que doente e incomodado por um padecimento local, proveniente de andar a cavalo, nunca estivera de tão bom humor como naquele dia.

Aquele homem impenetrável sorria desde pela manhã. Essa alma profunda, com máscara de mármore, no dia 18 de Junho de 1815, resplandecia com as suas trevas. O

homem que es vera sombrio em Austerlitz, em Waterloo andava alegre. Os maiores predes nados têm destes contra-sensos. As nossas alegrias são sombra; o supremo sorriso só a Deus pertence.

Ridet Caesar, Pompeius flebit, diziam os legionários da legião Fulminatrix. Desta feita, Pompeia não tinha de chorar, mas o certo é que César ria.

À uma hora da noite, quando, em companhia de Bertrand, exposto à chuva e ao vento, foi a cavalo explorar as colinas que cercam Rossomme, sa sfeito de ver a longa linha das fogueiras inglesas que iluminavam todo o horizonte desde Frischemonte até Braine-l’Alleud, parecera-lhe exacto o des no, comparecendo no dia aprazado no campo de Waterloo, para onde o in mara; e, fazendo parar o cavalo, pôs-se a contemplar os relâmpagos, a escutar o trovão, permanecendo por algum tempo imóvel na mesma

postura e lançando ao vento da noite esta frase misteriosa: «Estamos de acordo».

Enganava-se Napoleão; o destino não estava de acordo.

Cada instante daquela noite fora para ele um momento de prazer, e esses instantes reunidos não o haviam deixado dormir um só minuto As duas horas e meia, depois de ter percorrido a linha das guardas principais, julgou por um momento, ao ouvir o rumor dos passos de uma coluna em marcha, que Wellington se retirava, e disse para Bertrand:

— É a retaguarda do exército inglês que marcha em re rada. Farei prisioneiros os seis mil ingleses que há pouco chegaram a Ostende.

A sua conversação era expansiva, animada como quando ele, após o desembarque do 1.º de Março, mostrava ao grande marechal o aldeão entusiasta do golfo Juan e exclamava:

— Então, Bertrand? Já aqui temos reforço!

A chuva redobrava, o eco dos trovões perdia-se no cavado dos vales, e ele dizia, no meio daquele fragor, mofando de Wellington:

— Este inglesinho precisa de levar uma lição!

Às três horas da madrugada, porém, perdeu a primeira ilusão; anunciaram-lhe os oficiais que ele mandou em reconhecimento que o inimigo não fazia movimento algum.

Não se mexia nada; nem uma só fogueira do acampamento estava apagado. O exército inglês dormia. Era profundo o silêncio na terra; só no céu havia ruído. Às quatro horas, os batedores trouxeram-lhe um aldeão que servia de guia a uma brigada de cavalaria inglesa, talvez a brigada de Vivian, que ia para tomar posição na aldeia de Ohain, na extrema esquerda. Às cinco, contaram-lhe dois desertores belgas, que acabavam de deixar o seu regimento, que o exército inglês esperava pela batalha.

— Melhor! — exclamara Napoleão. — Antes quero destruí-los do que rechaçá-los.

Pela manhã, na encosta que forma a volta do caminho de Plancenoit, apeou-se no meio da lama, mandou buscar a uma herdade uma mesa de cozinha e uma cadeira de aldeão, sentou-se, com um feixe de palha por tapete, e, desenrolando em cima da mesa o mapa do campo de batalha, disse para Soult:

— Que bonito tabuleiro de xadrez!

Em virtude da chuva que caíra de noite, não nham podido chegar pela manhã os comboios de víveres, embaraçados pelo mau estado dos caminhos; os soldados não nham dormido, estavam molhados e em jejum, mas nada disto foi mo vo para que Napoleão não gritasse alegremente a Ney.

— Temos a nosso favor noventa probabilidades contra cem.

Às oito horas, trouxeram-lhe o almoço, para o qual convidou muitos generais.

Durante ele, contou-se que Wellington assis ra na antevéspera a um baile que se dera em Bruxelas, em casa da duquesa de Richmond, e Soult, soldado rude, com figura de arcebispo, dissera:

— Hoje é que é o baile.

O imperador gracejava com Ney por ter dito:

— Wellington não há-de ser tão simples que espere por Vossa Majestade.

Era este o seu costume. Napoleão gostava de gracejar, diz Fleury de Chaboulon. O

fundo do seu carácter era um humor prazenteiro, diz Gougaud. Napoleão abundava em gracejos, mais extravagantes porém, do que espirituosos, diz Benjamin Constant. Vale a pena insis r nestas jovialidades de gigante. Aos seus granadeiros chamava-lhes «meus grulhas», beliscava-lhes as orelhas e puxava-lhes pelo bigode. O imperador estava-nos sempre com chascos, é a frase de um deles. Na viagem misteriosa da ilha de Elba para França, em 27 de Fevereiro, tendo o brigue francês «Zéfiro» encontrado no mar alto o brigue «Inconstante», que conduzia Napoleão, e perguntando-lhe no cias dele, o imperador que naquela ocasião ainda trazia no chapéu o laço branco e cor de amaranto, semeado de abelhas, adoptado por ele na ilha de Elba, lançou mão do porta-voz a rir e respondeu ele mesmo:

— O imperador está bom!

Quem deste modo ri é porque está familiarizado com os acontecimentos.

Napoleão teve muitos desses acessos de riso naquele almoço de Waterloo, após o qual se concentrou em profunda meditação; dali a um quarto de hora, dois generais sentaram-se em cima do feixe de palha, com uma pena na mão e uma folha de papel sobre o joelho, e o imperador ditou-lhes a ordem da batalha.

Às nove horas, na ocasião em que o exército francês se pôs em movimento, formado em cinco colunas, com as divisões em duas linhas, a ar lharia entre as brigadas e na frente a música, tocando hinos marciais, com os quais se casava o rufar dos tambores e o clangor das trombetas, poderoso, vasto, alegre mar de capacetes, espadas e baionetas movendo-se no horizonte, o imperador exclamara duas vezes transportado:

— Magnífico! Magnífico!

Das nove horas até às dez e meia, até parece incrível, o exército tomou todo posição, formando-se em seis linhas, que, para nos servirmos da expressão do imperador, descreviam «a figura de seis V V». Instantes depois que a vanguarda formou em ordem de batalha, no meio desse silêncio profundo do principiar de uma tempestade, que precede os combates, o imperador, ao ver desfilar as três baterias de doze, destacadas por ordem sua do corpo de Erlon, de Reille e de Lobau, e des nadas a principiar a acção, batendo o Mont-Saint-Jean no ponto onde se cruzam as estradas de Nivelles e de Genappe, disse para Haxo, batendo-lhe no ombro:

— Que belas vinte e quatro raparigas, general!

Certo do resultado, ao passar em frente dele a companhia de sapadores do primeiro corpo, por ele designada para se entrincheirar no Mont-Saint-Jean, apenas tomada a aldeia, animou-a com um sorriso. Aquela sua serenidade apenas fora perturbada por uma frase de orgulhosa compaixão: ao ver agruparem-se à sua esquerda, no sí o onde agora há um túmulo, esses admiráveis escoceses pardos, montados nos seus soberbos cavalos, disse:

— É pena!

Depois montou a cavalo e transportou-se para a dianteira de Rossomme, escolhendo para observatório um estreito cômoro de relva à direita da estrada de Genappe a Bruxelas, o qual foi a sua segunda estância, enquanto durou a batalha. A terceira estância, isto é, a que ocupou às sete horas da tarde, e que fica entre a Belle Aliance e

Haie-Sainte, é temível; é um cabeço bastante elevado, que ainda existe, por trás do qual se achava agrupada a guarda num declive da planície. Em volta choviam as balas no chão da estrada, até onde estava Napoleão, a quem, como em Brienne, zuniam por cima da cabeça as balas e os biscainhos. Quase no lugar onde o cavalo dele nha os pés, foram encontradas balas enferrujadas, lâminas de espadas velhas e projécteis informes, comidos de ferrugem. Scabra rubigine. Há poucos anos, desenterrou-se ali uma granada de calibre sessenta, ainda carregada, com a culatra par da pelo ouvido. Foi naquela estância que o imperador disse ao seu guia Lacoste, aldeão hos l, que se agarrava assustado ao selim do cavalo de um hussardo, voltando-se ao rebentar de cada granada e procurando esconder-se por trás de Napoleão:

— Isso é uma vergonha, imbecil. Ainda arranjas com que te matem pelas costas.

Quem estas linhas escreve achou no declive friável daquele cabeço, ao cavar no chão, o resto do bocal de uma bomba, desagregados pela ferrugem de quarenta e seis anos e pedaços de ferro que se lhe quebravam nos dedos como pau de sabugueiro.

Já não existem as ondulações das planícies, diversamente inclinadas, onde teve lugar o recontro de Napoleão com Wellington, mas ninguém ignora o que elas eram a 18 de Junho de 1815. Quiseram erigir-lhe um monumento daquele campo fúnebre e raram-lhe o seu relevo real, de modo que a história perturba-se e já não sabe onde está.

Desfiguraram-no para o glorificar.