Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 280 de 359

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Os Miseráveis

III — Últimas extremidades

Como? Quando? Não se sabia: mas era certo e inevitável.

Ali, naquele lugar designado para a luta, iam aproximar-se às apalpadelas o governo e

a insurreição, a guarda nacional e as sociedades populares, a burguesia e a revolta.

Tanto para um como para outros a necessidade era a mesma. Saírem dali mortos ou vencedores, era o único fim possível. Situação de tal modo extrema, obscuridade de tal modo poderosa, que os mais midos sen am-se ali resolutos e os mais destemidos aterrados.

Quanto ao mais, de ambos os lados a mesma fúria, o mesmo encarniçamento, a mesma determinação. Para uns, avançar era morrer, e ninguém pensava em fugir. Era necessário que ao amanhecer tudo es vesse concluído, que o triunfo es vesse num ou no outro lado, que a insurreição fosse uma revolução ou uma escaramuça.

O governo compreendia-o tão bem como os par dos; percebia-o o mais insignificante burguês. Daqui um pensamento afli vo que se casava com a impenetrável sombra daquele bairro onde tudo se ia decidir; daqui um aumento de ansiedade em volta daquele silêncio, donde ia sair uma catástrofe. Não se ouvia senão um ruído afli vo como um estertor, ameaçador como uma maldição: era o toque de rebate em S. Merry.

Não havia nada mais gélido do que o clamor daquele sino desorientado e desesperado, lamentando-se no meio das trevas.

Como não poucas vezes sucede, parecia que a natureza se nha posto de acordo com o que os homens iam fazer. Coisa nenhuma discordava das funestas harmonias daquele conjunto. As estrelas haviam-se sumido, o horizonte cobria-se de grossas nuvens, que abarcavam nas suas melancólicas dobras toda a amplidão do espaço. Aquele céu escuro por cima daquelas ruas mortas era uma como imensa mortalha estendida por sobre um túmulo imenso.

Ao mesmo tempo, porém, que naquele local, já testemunha de tantos outros sucessos revolucionários, se preparava mais uma batalha polí ca; ao mesmo tempo que a mocidade, as associações secretas, as escolas e a classe média se aparelhavam para um temeroso recontro, as primeiras em nome das teorias, as úl mas em nome do interesse, recontro em que mutuamente desejavam estreitar-se e derrubar-se; ao mesmo tempo que cada qual apressava e ansiava a hora extrema e decisiva da crise, em que deviam sucumbir ou vencer, longe daquela estância fatal, na mais profunda das insondáveis cavidades de Paris, do Paris decrépito e miserável, encoberto sob o esplendor do Paris feliz e opulento, ouvia-se o rumorejar surdo da sombria voz do povo, aparelhando-se também para a luta suprema.

Voz temerosa e santa, que par cipa do rugido do animal e da palavra de Deus, voz que amedronta os fracos e adverte os sábios, voz que, ao mesmo tempo, parece elevar-se da terra, como o bramido do leão, e descer do céu, como o ribombo do trovão.

III — Últimas extremidades

A este tempo, Mário havia chegado aos Mercados.

Neste ponto, jazia tudo ainda mais silencioso, escuro e imóvel do que nas ruas circunvizinhas. Dir-se-ia que da terra nha surgido gélida a paz do túmulo para se espalhar pelo espaço.

No meio, porém, deste fundo escuro, avistava-se um clarão avermelhado, que fazia destacar os elevados telhados das casas que fechavam a rua da Chanvrerie, pelo lado de

Santo Eustáquio. Era o reflexo do archote que ardia na barricada construída junto à casa de pasto de Corinto. Guiado por aquele clarão, Mário chegara até ao mercado das Acelgas, de onde já entrevia a escura entrada da rua dos Pregadores, pela qual tomou, sem ser pressen do pela vedeta dos insurgentes que estacionava na extremidade oposta, de ouvido atento aos rumores que pudessem elevar-se das trevas. Mário, ao sen r-se tão próximo do que ia procurar, caminhava em bicos de pés, como se receasse que algum imprevisto obstáculo lhe surgisse da terra, despertado pelo rumor dos seus passos. Chegado assim junto à esquina da pequena secção da viela de Mondétour, que era, como os leitores hão-de estar lembrados, a única comunicação com o exterior, deixada livre por Enjolras, Mário, antes de dobrar a úl ma casa à esquerda, estendeu o pescoço e olhou.

Um pouco além do ângulo escuro da travessa e da rua da Chanvrerie que projectava uma grande sombra, em que ele próprio estava mergulhado, avistou certa claridade que dava nos montões de pedras, viu parte da taberna, e por trás uma lanterna pestanejando numa espécie de muralha informe e homens sentados com espingardas sobre os joelhos.

Tudo isto estava a dez toesas dele. Era o interior da barricada. As casas que orlavam a rua do lado direito, ocultavam-lhe o resto da taberna, a grande barricada e a bandeira.

Mário não tinha que dar senão um passo.

O infeliz mancebo sentou-se então num poial, cruzou os braços e pensou em seu pai.

Pensou naquele heróico coronel Pontmercy, que fora tão bravo soldado, que guardara com a república a fronteira da França e tocara com o imperador a fronteira da Ásia, que nha visto Génova, Alexandria, Milão, Turim, Madrid, Viena, Dresden, Berlim, Moscovo; que deixara em todos os campos de vitória da Europa gotas daquele mesmo sangue, que ele, Mário, nha nas veias, que encanecera antes da idade própria, no meio da disciplina e do comando, que vivera com o cinturão afivelado, as dragonas caindo-lhe para o peito, o laço enegrecido pela pólvora, a fronte enrugada pela barre na, sob a barraca, no acampamento, nas ambulâncias, e que no fim de vinte anos voltara das grandes guerras, com a face acu lada, o rosto risonho, simples, tranquilo, admirável, puro como uma criança, tendo feito tudo em pró da França e nada contra ela.

Disse consigo que lhe nha chegado também o seu dia, que a sua hora havia enfim soado, que depois de seu pai, ia pela sua vez, ser bravo, intrépido, destemido, correr ao encontro das balas, oferecer o peito às baionetas, derramar o seu sangue, procurar a morte; que ia também fazer a guerra e entrar no campo de batalha, que esse campo de batalha era a rua, e a guerra que ia fazer a guerra civil.

Viu a guerra civil aberta como um; abismo adiante de si e viu que se ia precipitar nele.

Então estremeceu.

Lembrou-se da espada de seu pai, que seu avô vendera a um adelo, venda que ele tão dolorosamente las mara. Disse consigo que aquela valente e casta espada fizera bem em fugir-lhe e em desaparecer irritada nas trevas; que se ela assim nha fugido, fora por ser inteligente e por que previra o futuro, fora porque pressen ra a revolta, a guerra das enxurradas, a guerra das ruas, os ros pelos respiradouros dos subterrâneos, os golpes

dados e recebidos pelas costas; fora porque vindo de Marengo e de Friedland não queria ir para a rua da Chanvrerie; porque depois do que fizera com o pai, não queria assim proceder com o filho! Disse consigo que se vesse aquela espada, se tendo-a achado à cabeceira de seu pai falecido, ousasse pegar-lhe e trazê-la para aquele combate nocturno entre franceses numa encruzilhada, queimar-se-lhe-ia indubitavelmente as mãos e mostrar-se-lhe-ia flamejante como a espada do anjo! Concluiu que era felicidade não a possuir, ter ela desaparecido, que assim devia ser, que era uma coisa justa, que fora seu avô o verdadeiro guarda de honra de seu pai, e que era preferível que a espada do coronel fosse apregoada em leilão, vendida ao adelo lançada nos ferros velhos, a que sangrasse naquele dia o flanco da pátria.

Depois desatou a chorar amargamente.

Era uma coisa horrível. Mas o que havia de fazer? Viver sem Cose e não podia. Uma vez que ela nha par do, era indispensável que ele morresse. Não lhe nha dado a sua palavra de honra de que morreria Cose e par ra sabendo isto; logo agradava-lhe a sua morte. E depois, era evidente que ela já não o amava por isso que assim o tinha deixado, sem o adver r, sem uma palavra, sem uma carta, conhecendo-lhe a morada. Para que con nuaria a viver? Quando não fosse por outras considerações, não o deveria demover a de ter ido até ali para recuar? Ter-se aproximado do perigo... fugir dele? Ter ido olhar para a barricada e esquivar-se todo trémulo e dizendo: com efeito, basta-me o que eu vi, é suficiente, é a guerra civil; portanto, re ro-me! Abandonar os seus amigos que o esperavam, que precisavam talvez dele, que eram um punhado de homens contra um exército? Faltar a tudo ao mesmo tempo, à amizade, à sua palavra? Dar à sua fraqueza o pretexto do patrio smo? Mas isso era impossível; e se o fantasma de seu pai es vesse ali, na sombra, e o visse recuar, bater-lhe-ia com a espada de prancha e gritar-lhe-ia:

«Para a frente, cobarde!»

Preso do vaivém dos seus pensamentos, Mário curvara a cabeça.

De repente ergueu-a. Acabava de se lhe operar no espírito uma espécie de esplêndida rec ficação. Há uma dilatação de pensamento, que é própria das vizinhanças do túmulo; estar próximo da morte faz ver a verdade. Visão da acção na qual se sen a talvez prestes a entrar, apareceu-lhe, não já lamentável, mas soberba. A guerra da rua transfigurou-selhe subitamente, por não sei que trabalho ín mo da alma, aos olhos do pensamento.

Todos os tumultuosos pontos de interrogação do seu sonho acordado se lhe apresentaram novamente em turba, mas sem o perturbar. Não deixou nenhum sem resposta.

Vejamos; porque se indignaria seu pai? Não há porventura casos em que a insurreição sobe à dignidade de dever? O que haveria pois de humilhante para o filho do coronel Pontmercy no combate que ia travar-se? Já não é Montmirail nem Champaubert, é outra coisa. Não se trata já de um território sagrado, mas de uma ideia santa. A pátria las ma-se, pois seja; mas a humanidade aplaude. E no fim de tudo, é realmente verdade que a pátria se las ma? A França sangra, mas a liberdade sorri; e a França, em presença do sorriso, da liberdade, esquece-se da sua ferida. E depois, vendo as coisas de mais alto ainda, o que poderiam dizer da guerra civil?

Guerra civil? Que quer isto dizer? Há alguma guerra estrangeira? Porventura não são todas as guerras entre irmãos? A guerra não se qualifica senão pelo seu fim. Não há guerra estrangeira nem guerra civil; não há senão a guerra injusta e guerra justa. Até ao dia em que se conclua a grande concordata humana, a guerra, pelo menos a que é o esforço do futuro, que se apressa contra o passado que se demora, pode ser necessária.

O que é que têm a repreender a esta espécie de guerra? A guerra não se torna vergonhosa e a espada não se torna punhal senão quando assassina o direito, o progresso, a razão, a verdade. Então guerra estrangeira ou civil, é iníqua; chama-se crime. Fora desta coisa santa, a jus ça; com que direito uma forma de guerra desprezará a outra? Com que direito poderá a espada de Washington renegar o chuço de Camillo Desmoulins? Qual tem maior vulto, Leónidas contra o estrangeiro, ou Timoléon contra o rano? Um é o defensor, o outro o libertador. Manchar-se-á, sem se ter em vista o fim, todo o emprego de armas no interior da cidade? Então apontem com infâmia Brutus, Arnould de Blankénheim, Coligny. Guerra de valados? Guerra de ruas? Porque não? Era a guerra de Ambiorix, de Artevelde, de Marnix, de Agneessens. Mas Ambiorix lutava contra Roma, Artevelde contra a França, Marnix contra a Espanha, Agneessens contra a Áustria; todos contra o estrangeiro.

Pois bem, a monarquia é o estrangeiro; a opressão é o estrangeiro; o direito divino é O estrangeiro. O despo smo viola a fronteira divina, como a invasão viola a fronteira geográfica. Expulsar o rano ou expulsar o inglês, é, em ambos os casos, retomar o território. Chega uma hora em que já não basta protestar; depois da filosofia é necessária a acção; a viva força completa o que foi esboçado pela ideia: Prometeu acorrentado começa, Aristogiton acaba; a Enciclopédia esclarece as almas, o 10 de Agosto electriza-as. Depois de Esquilo, Thrasybulio, depois de Diderot, Danton. As mul dões tendem a acatar o senhor. A sua massa depõe a apa a. Uma mul dão totaliza-se facilmente em obediência. É necessário mover, impelir, tratar asperamente os homens com o próprio bene cio da sua alforria, ferir-lhe os olhos com a verdade, lançar-lhes a luz em punhados terríveis. É preciso que sejam eles mesmos um tanto fulminados pela sua própria salvação; este deslumbramento desperta-os. Daqui a necessidade dos toques a rebate e das guerras. É necessário que os grandes combatentes se ergam; iluminem as nações pela audácia e sacudam a triste humanidade que se acha coberta de sombra pelo direito divino, pela glória cesariana, pela força, pelo fana smo, pelo poder irresponsável e pelas majestades absolutas; turba estupidamente ocupada em contemplar no seu esplendor crepuscular, esses sombrios triunfos da noite. Abaixo o rano! Mas o quê? De quem falais vós! Chamais rano a Luís Filipe? Não; tanto como a Luís XVI. São ambos o que a história costuma denominar bons reis; mas os princípios não se retalham, a lógica do verdadeiro é rec línea, a falta de condescendência é o caracterís co da verdade; nada, pois, de concessão, toda a usurpação ao homem deve ser reprimida; há direito divino em Luís XVI, há o porque Bourbon em Luís Filipe; ambos representam, numa certa proporção, a confiscação do direito, e para repelir a usurpação universal é preciso combatê-los; é preciso, porque é sempre a França quem começa.

Quando o senhor cai em França, cai em toda a parte. Em suma, restabelecer a verdade social, res tuir à liberdade o seu trono, o povo ao povo, o homem à soberania, tornar a pôr a púrpura na cabeça da França, restaurar em toda a sua plenitude a razão e a equidade, suprimir todo o germe de antagonismo, res tuindo cada um a si mesmo, aniquilar o obstáculo que a realeza apresenta à imensa concórdia universal, nivelar o género humano com o direito; que causa pode ser mais justa, que guerra mais grandiosa? Estas guerras constroem a paz. Há uma enorme fortaleza de prejuízos, de privilégios, de supers ções, de men ras, de exacções, de abusos, de violências, de iniquidades, de trevas, que estão ainda de pé sobre o mundo, com as suas torres de ódio. É necessário demoli-la. É urgente fazer desabar essa massa monstruosa. Vencer em Austerlitz é grandioso; tomar a Bastilha é imenso.

Não há ninguém que o não tenha experimentado por si mesmo: a alma — e é esta a maravilha da sua unidade mesclada de ubiquidade — tem a estranha ap dão de raciocinar quase friamente, nas extremidades mais violentas; e sucede muitas vezes que a paixão desola e ó profundo desespero, na própria aflição dos seus mais negros monólogos, tratam diversos assuntos e discutem teses. A lógica par cipa da convulsão, e o fio do silogismo flutua, sem se quebrar, na lúgubre tempestade do pensamento: Era esta a situação do espírito de Mário.

Enquanto assim pensava, opresso, mas resoluto, hesitando todavia, e em suma, tremendo diante do que ia fazer, deixava divagar a vista pelo interior da barricada.

Os insurgentes conversavam ali a meia voz, sem se moverem, e sen a-se em torno deles o quase silêncio, que marca a úl ma fase da expecta va. Por cima deles, numa fresta de um terceiro andar, dis nguia Mário uma espécie de espectador ou de testemunha que lhe parecia singularmente atenta. Era o porteiro morto por Le Cabuc.

Debaixo, com o reflexo do archote abrigado pelas pedras, divisava-se vagamente aquela cabeça. Não havia nada mais estranho, à claridade sombria e inerte do archote, do que aquele rosto lívido, imóvel, espantado, com os cabelos eriçados, os olhos abertos e fitos e a boca escancarada, debruçado para a rua numa atitude de curiosidade.