Os Miseráveis
IV — Um cão de improviso
Para Mário, ouvir Cosette falar de modas:
Para Cosette, ouvir Mário falar de política:
Ouvirem, joelho com joelho, rodar as carruagens pela rua de Babilónia: Contemplarem o mesmo planeta no espaço, ou o mesmo insecto luzente na relva: Estarem ambos calados: maior doçura do que falando:
Etc., etc.
Entretanto aproximavam-se diversas complicações.
Uma noite encaminhava-se Mário para a entrevista pelo boulevard dos Inválidos; ordinariamente caminhava com os olhos baixos; quando ia voltar a esquina da rua Plumet, ouviu dizer muito perto de si:
— Boa noite, senhor Mário.
Ergueu os olhos e viu Eponina.
Este encontro produziu-lhe efeito singular. Não tornara a pensar uma só vez naquela rapariga desde o dia em que ela o conduzira à rua Plumet; e não tendo tornado a vê-la, saíra-lhe completamente do espírito. Não
nha senão mo vos para lhe ser
completamente reconhecido, devia-lhe a felicidade de que gozava: portanto era-lhe desagradável encontrá-la.
É um erro acreditar-se que a paixão, quando feliz e pura, conduz o homem ao estado de perfeição; contudo, já o dissemos, simplesmente a um estado de esquecimento. O homem nesta situação esquece-se de ser mau, mas esquece-se também de ser bom. O
reconhecimento, o dever, as recordações essenciais e importunas desvanecem-se. Em qualquer outro tempo teria Mário sido diferente para com Eponina. Absorvido por Cose e, nem mesmo percebera muito claramente que aquela Eponina se chamava Eponina Thenardier, e que nha um nome, pelo qual, alguns meses antes, tão ardentemente se teria devotado.
Mostrámos Mário tal qual era; seu próprio pai lhe ia desaparecendo um tanto na alma, sob o esplendor do seu amor.
Respondeu, portanto, embaraçado à rapariga:
— Ah! É você, Eponina?
— Porque é que o senhor me trata por você? Fiz-lhe algum mal?
— Não — respondeu ele.
Decerto, não nha dela a mínima queixa. Pelo contrário. O que sen a era que não poderia ter dito doutro modo: depois de tratar Cose e por tu, não poderia dar a Eponina o mesmo tratamento. Como ele ficasse calado, Eponina prosseguiu:
— Ora diga-me...
E calou-se. Parecia que as palavras faltavam àquela criatura, dantes tão desleixada e atrevida. Quis sorrir-se, mas não pôde.
— E então!... — prosseguiu ela.
Depois tornou ainda a calar-se e baixou os olhos.
— Boa noite, senhor Mário —, disse ela inesperadamente; e afastou-se.
IV — Um cão de improviso No dia seguinte, era o dia 3 de Junho, 3 de Junho de 1832, data que devemos indicar em virtude dos graves acontecimentos que por essa ocasião estavam suspensos sobre os horizontes de Paris, como nuvens prenhes de electricidade; no dia seguinte, ao anoitecer, seguia Mário o mesmo caminho que no dia antecedente e interiormente agitado pelos mesmos deslumbrantes pensamentos, quando, por entre as árvores do boulevard, avistou Eponina dirigindo-se para ele. Dois dias a fio, era de mais! Voltou-lhe as costas, portanto, com a maior presteza, deixou o boulevard e mudou de caminho, dirigindo-se para a rua Plumet, pela rua do Senhor.
Deu isto lugar a que Eponina o seguisse até à rua Plumet, coisa que ela até então ainda não nha feito. Até ali, limitava-se apenas a vê-lo passar pelo boulevard, sem tentar, sequer, sair-lhe ao encontro. Só na véspera fizera isso e tentara falar com ele.
Eponina seguiu-o sem ele dar fé, viu-o deslocar o varão da grade e introduzir-se no jardim.
— Hum! — disse ela. — Ele entra lá em casa!
E, como quisesse examinar a grade, aproximou-se, correu um por um todos os varões, e facilmente deu com o que Mário deslocara e tornara a unir.
— Pois não, pequerrucha! — murmurou ela a meia voz com acento lúgubre.
E sentou-se na soleira da grade junto do varão que Mário desviava para entrar, como se quisesse guardá-la. Era justamente no ponto em que a grade vinha unir à parede vizinha, de modo que no recanto escuro, formado por esta junção, o vulto de Eponina desaparecia inteiramente. Assim esteve mais de uma hora dominada pelos seus pensamentos sem respirar nem bulir consigo.
Pela volta das dez horas, um dos dois ou três transeuntes da rua Plumet, que era um pobre velho, a quem o ver-se assim a desoras naquele sí o deserto e de má nota lhe dava incrível ligeireza nas trôpegas pernas, ao chegar ao ponto de junção da grade com a parede, ouviu as seguintes palavras pronunciadas por uma voz surda e ameaçadora:
— Já me não admira que ele venha todas as noites!
O solitário passeante circunvagou a vista em torno de si, porém como não visse ninguém, não teve ânimo de olhar para o ângulo escuro e apertou o passo, seguindo apressado o seu caminho.
Razão de sobra tinha ele, por certo, para assim fazer, pois não eram decorridos muitos instantes, quando na rua Plumet entraram seis homens, que alguém, ao vê-los desfilar separados e a alguma distância uns dos outros, ao longo das paredes, tomaria pelos vultos escuros dos soldados de uma patrulha.
O primeiro que chegou junto da grade parou e esperou os outros, porém daí a um segundo estavam todos seis reunidos e principiaram então a conversar em voz baixa.
— É aqui! — disse um deles.
— Há algum cão no jardim? — perguntou o outro.
— Não sei. Na dúvida trouxe uma bolinha para se lhe dar a
morfilar44 .
— Trazes inastique para frangir a ventana? 45
— Trago.
— A grade é velha disse um quinto, que tinha voz de ventríloquo.
— Tanto melhor — disse o segundo que falara — não cribelará com
a bastringue46 e não custará a fauicher47 .
O sexto, que não abrira ainda a boca, começou a apalpar a grade, como fizera Eponina uma hora antes, empolgando sucessivamente todos os varões e abanando-os com precaução. Deste modo chegou ao que Mário arrancara. Quando ia para o segurar, caiu-lhe sobre o braço uma mão que saiu da sombra, sen u-se ao mesmo tempo empurrado pelo meio do peito, e ouviu uma voz rouquenha gritar-lhe:
— Há aqui um cão.
E, acto contínuo, viu de pé diante de si uma rapariga muito pálida.
O homem sen u a comoção produzida sempre pelo que é inesperado e os cabelos eriçaram-se-lhe medonhamente. Não há nada tão formidável para a vista como a inquietação dos animais ferozes: o seu susto é assustador.
— Quem é essa marafona?
— É sua filha.
Era, com efeito, Eponina, que falava a Thenardier.
Ante a aparição de Eponina, os outros cinco, isto é, Claquesous, Gueulemer, Babet, Montparnasse e Brujon, nham-se aproximado sem bulha, sem precipitação, sem proferirem uma palavra, com o vagar sinistro e próprio daqueles homens da noite.
Dis nguiam-se-lhes nas mãos não sei que hediondos objectos. Gueulemer empunhava um pequeno pé de cabra, dos que usam ordinariamente os ratoneiros.
— Que diabo estás tu fazendo? Que nos queres? Endoideceste? — exclamou Thenardier gritando, quanto é possível gritar falando baixo. — Porque vens tu impedir-nos de trabalhar?
Eponina desatou a rir e Saltou-lhe ao pescoço.
— Eu estou aqui, meu paizinho, porque estou aqui. Então já não é permi do sentar-se a gente nas pedras? Vossemecê é que não devia aqui estar. O que vem aqui fazer, uma vez que é bolacha. Já o nha dito à Magnon. Olhem que perdem o tempo. Mas, abrace-me, meu paizinho! Há que tempos que o não via! Está então fora!
Thenardier diligenciou soltar-se dos braços de Eponina e resmungou:
— Está bem, já me abraçaste. Estou fora, porque não estou dentro... Agora vai-te embora!
Mas Eponina não o largava e redobrava de carícias.
— Mas como foi que arranjou a coisa, meu paizinho? Sempre é preciso ser muito fino para se poder sair dali. Conte-me como isso foi... E a mãe? Onde está minha mãe? Dê-me notícias da mamã!
Thenardier respondeu:
— Está boa, não sei, deixa-me; já te disse que te vás.
— Mas eu é que não me quero ir — disse Eponina com uma inflexão cheia de mimo
—, mandar-me assim embora, depois de o não ter visto há quatro meses e de não ter tido tempo senão de o abraçar!
E tornou a deitar-lhe os braços ao pescoço..
— Diabo! Isto é estúpido!
— Despachemo-nos! — disse Gueulemer. — Podem passar os coques.
A voz do ventríloquo murmurou este dístico:
Nous n’sommes pas le jour de l’an,
A bécoter papa maman.
Eponina voltou-se para os cinco ladrões.
— Olha! É o senhor Brujon. Boa noite, senhor Babet. Boa noite, senhor Claquesous.
Não me conhece, senhor Gueulemer? Como vai isso, Montparnasse?
— Sim, todos te conhecem! — disse Thenardier. — Mas põe-te de largo e deixa-nos.
— É hora das raposas e não das frangas — disse Montparnasse.
Bem vês que temos que goupiner icigo48 — acrescentou Babet.
Eponina pegou na mão de Montparnasse.
— Toma cuidado! — disse ele. — Olha que te cortas; tenho um
lingre49 aberto.
— Mas, Montparnasse — respondeu Eponina com meiguice —, é preciso ter confiança nas pessoas. Olha que eu sou talvez filha de meu pai. Senhor Babet, senhor Gueulemer, eu é quefui encarregada de esclarecer o negócio.
É para notar que Eponina não falava calão. Desde que conhecia Mário, tornara-se-lhe impossível tão medonha língua.
Apertou na sua pequena mão ossuda e fraca qual mão de esqueleto, osgrossos e rudes dedos de Gueulemer e continuou:
— Bem sabem que não sou tola. Ordinariamente acreditam-me. Já lhes tenho prestado serviços nas ocasiões. Já tomei todas as informações: digo-lhes que se irão expor inutilmente. Juro-lhes que não têm que fazer nesta casa.
— Aqui há só mulheres — disse Gueulemer.
— Não há; já se mudaram.
— Mas há luzes! — retorquiu Babet.
E mostrou a Eponina, através do arvoredo, uma luz que andava de um para outro lado, no sótão do pavilhão. Era a Toussaint que se não deitara para estender uma porção de roupa.
Eponina tentou um último esforço.
— Pois sim! — disse ela. — É gente muito pobre. É uma barraca onde não há um soldo.
— Vai-te para o diabo! — gritou Thenardier. — Depois de termos voltado a casa de baixo para cima te diremos o que ela tem dentro,
se são bailes, ronds ou broques 50 .
E empurrou-a para poder passar.
— Montparnasse, o senhor que é tão bom rapaz, peço-lhe eu, não entre!
— Toma cuidado, olha que te cortas! — replicou Montparnasse.
Thenardier continuou no tom decisivo que lhe era próprio:
— Safa-te, safa-te! Deixa os homens tratar dos seus negócios.
Eponina largou a mão de Montparnasse, em que tinha tornado a pegar, e disse:
— Vocês querem entrar nesta casa?
— Se nos deres licença! — disse o ventríloquo em tom de zombaria.
Então, Eponina encostou-se à grade, voltou-se para os seis ladrões, armados até aos dentes e aos quais a noite dava um aspecto de demónios, e disse com voz firme e baixa:
— Mas eu, que não a dou, não quero que entrem.
Os ladrões pararam estupefactos. O ventríloquo pôs termo ao seu riso motejador e ela continuou:
— Meus amigos, escutem isto! Agora falo eu. Se entram no jardim, se tocam na grade, grito, bato a todas as portas, acordo toda a gente, chamo a patrulha e faço com que sejam todos filados.
— É capaz de o fazer — disse Thenardier em voz baixa a Brujon, que era o ventríloquo.
A rapariga abanou a cabeça e acrescentou:
— Principiando por meu pai.
Thenardier aproximou-se.
— Não se chegue tanto! — disse ela.
Thenardier recuou e resmungou por entre os dentes:
— Mas porque diabo faz ela isto? — E acrescentou: — Cadela!
Eponina pôs-se a rir de um modo terrível.
— Como querem entrar, não hão-de entrar. Eu não sou filha de cão, porque sou filha de lobo. Vocês são homens e eu sou mulher, mas não me metem medo. Digo-lhes que não hão-de entrar nesta casa, porque eu não quero que entrem. Se por desgraça se chegam, ladro Já lhes disse, o cão sou eu. Importo-me pouco com vocês. Vão ao vosso caminho, que já me estão aborrecendo! Vão lá aonde quiserem, mas aqui proíbo-lhes que venham! Vocês às facadas e eu às chineladas, vamos a ver quem vence!
E, medonha, deu um passo para os ladrões e pôs-se a rir:
— Já cantei! Não tenho medo. No Verão hei-de ter fome e no Inverno hei-de ter frio.
Que estúpidos são estes homens em acreditarem que metem medo a uma rapariga!
Medo! Porquê? Ah, sim! É porque vocês têm todos empadas de amantes que se escondem debaixo da cama, quando lhes ouvem engrossar as vozes! Eu cá é que não tenho medo de ninguém! — E, fitando seu pai, acrescentou: — Nem mesmo de você, meu pai. — Depois prosseguiu fitando os ladrões com as suas pupilas de espectro: —
Que me importa a mim que amanhã me encontrem estendida no meio da rua Plumet, morta às facadas por meu pai, ou que dentro de um ano me achem nas redes de Saint-Cloud, ou na ilha dos Cisnes no meio dos farrapos podres e dos cães afogados!
Aqui viu-se obrigada a interromper-se: foi atacada por terrível tosse seca; a respiração saía-lhe do peito acanhado e débil como um estertor.
Em seguida continuou:
— A mim basta-me gritar; vocês são seis e eu sou toda a gente!
Thenardier deu um passo para ela.
— Não se chegue! — gritou a rapariga.
Thenardier parou e disse-lhe com suavidade:
— Pois sim, não me chegarei, mas não fales tão alto. Queres impedir-nos de trabalhar, minha filha? Bem sabes que não há remédio senão ganhar a vida! Já não és amiga de teu pai?
— Ora, nada de lérias! — disse Eponina.
— Contudo, a gente há-de comer. A barriga não tem fiador...
— Que me importa! Estalem para aí!
E dito isto, sentou-se no sopé da grade, cantarolando:
Mon bras si dodu.