Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 324 de 359

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Os Miseráveis

III — O homem perseguido

Como é natural, apenas Jean Valjean parou, cessou também o rumor de passos, que os agentes de polícia tinham suposto ouvir.

Como, porém, escutassem e nada ouvissem, olhassem e não vissem coisa alguma, entraram em deliberação.

Havia então, naquele ponto do cano de Montmartre, uma espécie de largo chamado de «serviço», que depois foi suprimido, por causa do pequeno lago interior que as águas das chuvas, em ocasião de Inverno, ali formavam.

Foi nesse largo que os agentes de polícia se reuniram a conferenciar.

Jean Valjean viu formar uma espécie de círculo àquelas larvas, viu chegarem-se umas às outras aquelas cabeças de cães de fila e entrarem a cochichar.

O resultado do conciliábulo dos cães de fila foi dizerem-se mutuamente que se nham enganado, quanto ao rumor que haviam julgado ouvir; que se não achava ninguém dentro do cano; que era escusado embrenharem-se no cano-mestre, porque seria tempo perdido, mas que deviam dirigir-se imediatamente para o lado de Sain erry, pois se havia a desencovar alguma «caça», era decerto para esse lado.

Em virtude desta deliberação, o sargento mandou obliquar à esquerda, para o lado da vertente do Sena.

Se, em vez disto, se lembrassem de se dividir em dois grupos, tomando cada qual uma direcção oposta, Jean Valjean seria preso infalivelmente, É provável, porém, que as instruções da prefeitura, prevendo algum caso de combate e alguma mul dão de insurgentes, proibissem à ronda que se fraccionasse. Assim, pois, por este ou outro mo vo, o caso é que os agentes con nuaram o seu caminho, deixando Jean Valjean em sossego. De todo aquele movimento, o extenuado salvador de Mário apenas percebeu o eclipse da lanterna, que desapareceu subitamente.

Antes, porém, de se re rar, e para descargo da consciência da polícia, o sargento disparou a sua clavina na direcção do sí o onde se achava Jean Valjean e que eles nham resolvido abandonar. A detonação retumbou de eco em eco, pela extensão da cripta, como um burburinho daquele tânico intes no. Um bocado de caliça que se despegou de cima e veio cair no meio da água que escorria pelo cano, fazendo-a saltar para os lados, deu-lhe a conhecer que a bala nha ba do na abóbada, por cima da sua cabeça.

Durante algum tempo, ainda se ouviu um rumor de passos cadenciados e lentos, cada vez mais confusos, à medida que se iam afastando; o grupo dos vultos negros desapareceu; viu-se oscilar, flutuar e depois sumir-se completamente o clarão de uma luz, que desenhava na abóbada um arco avermelhado sucessivamente menor; tornou-se de novo profundo o silêncio e completa a escuridão, e Jean Valjean, não ousando ainda mover-se, permaneceu por muito tempo encostado à parede, com o ouvido atento, as pupilas dilatadas, contemplando inconsciente o desaparecimento daquela patrulha de fantasmas.

III — O homem perseguido

A polícia daquele tempo — jus ça lhe seja feita nem ainda nas mais graves conjunturas públicas deixava de desempenhar com toda a imperturbabilidade os seus deveres de limpeza e vigilância. No seu entender, uma revolta não podia ser mais do que mero pretexto para deixar os malfeitores à larga e descurar a sociedade, por se achar o governo em perigo. Assim, pois, o serviço ordinário efectuava-se conjuntamente com o extraordinário, sem que o segundo perturbasse o andamento do primeiro. Não obstante

a simultaneidade de algum incalculável acontecimento polí co em princípio, não obstante a pressão da possibilidade de uma revolução, um agente de polícia dava do mesmo modo «caça» aos ladrões, sem se deixar distrair pela insurreição nem pela barricada.

Era exactamente uma coisa semelhante a isto o que ocorria na tarde do dia 6 de Junho, na ribanceira da margem esquerda do Sena, logo adiante da ponte dos Inválidos.

Hoje a ribanceira já não existe e o aspecto desse local mudou.

Por essa ribanceira viam-se caminhar dois homens, que, conquanto separados por alguma distância, pareciam observar-se um ao outro e mutuamente evitar-se. O que caminhava adiante procurava afastar-se, o que o seguia a alguma distância forcejava por não perdê-lo de vista.

Era uma espécie de partida de xadrez, jogada de longe e em silêncio.

Nenhum deles mostrava ter pressa, antes caminhavam vagarosamente, como se cada um deles receasse fazer apertar demais o passo ao seu parceiro.

Dir-se-ia uma fera seguindo a sua presa, sem dar a conhecer que o fazia de propósito.

A presa, porém, era matreira e sabia como haver-se com a fera. Era o mas m no encalço da fuinha.

Assim, se julgaria decerto, ao ver tão bem guardadas as proporções entre perseguido e perseguidor. O que procurava escapar-se era magro e de débil aspecto; o perseguidor, de avantajada corpulência, nha um aspecto rude e não parecia bom de vergar. Em virtude disto, o primeiro, por isso mesmo que reconhecia a superioridade do outro, evitava-o, mas evitava-o de um modo em que transluzia a mais concentrada raiva. Se a alguém fosse dado observá-lo, ver-lhe-ia nos olhos a sombria hos lidade da fuga, a expressão ameaçadora do temor.

A margem do rio jazia completamente solitária. Não se via um único transeunte, nem dentro das embarcações amarradas ao longo da ribanceira se divisava algum barqueiro ou carrejão.

Só do cais fronteiro seria possível ver distintamente aqueles dois homens.

Examinados desse ponto, o que ia na frente apresentaria o aspecto de um ente eriçado, olhando desconfiado em torno de si e ritando de frio debaixo da esfarrapada blusa que o cobria; e o outro, o aspecto de um homem clássico e oficial, com o seu casacão de empregado do Estado abotoado até cima. Sem dúvida que o leitor os conheceria, se os visse mais perto.

Que fim tinha o segundo em vista?!

Proporcionar decerto ao primeiro mais agasalhado vestuário.

Quando algum homem, ves do pelo Estado, vai no encalço de outro homem coberto de andrajos, é porque também quer facilitar-lhe o ensejo dele receber igual graça do Estado. O ponto está simplesmente na cor.

O trajo azul é uma glória; o encarnado uma coisa desagradável. Também existe uma púrpura que simboliza abjecção.

Era decerto ao dissabor de se ver obrigado a envergar semelhante púrpura que o primeiro se desejava esquivar.

Se o outro assim o deixava ir livremente seguindo o seu caminho, sem procurar ainda deitar-lhe a mão era, como evidentemente parecia, porque esperava vê-lo chegar a algum sí o onde vesse lugar o seu encontro, de antemão aprazado, com outros da mesma laia, a que ele pudesse deitar a mão. Chama-se a esta delicada operação dar

«caça».

Esta conjectura é tanto mais provável, por isso que o homem do casacão abotoado, vendo passar pelo cais um fiacre sem ninguém dentro, fez sinal ao cocheiro para que parasse; este, que percebeu o sinal e conheceu decerto com quem tratava, mudou de direcção e principiou a seguir vagarosamente os dois homens de cima do cais. Nenhum destes movimentos, porém, foi percebido pelo homem da blusa esfarrapada que ia adiante

O carro seguia ao longo das árvores dos Campos Elísios, por cima de cujo parapeito se via perpassar o busto do cocheiro, de chicote em punho.

Entre as instruções secretas da polícia há uma que contém o seguinte ar go: «Ter sempre à mão uma carruagem de aluguer para qualquer eventualidade».

Ao passo que cada um daqueles homens executava a sua estratégia com a maior perícia, aproximavam-se ambos mais e mais de uma rampa que descia do cais para a ribanceira, por onde os cocheiros das seges que transitavam na estrada de Passy traziam os cavalos a beber ao rio. Esta rampa, submissa aos caprichos da simetria, veio, mais tarde, a ser suprimida. Morrem os cavalos à sede, mas a vista acha em que se recrear.

Natural era que o homem da blusa subisse por essa rampa, tentando evadir-se pelos Campos Elíseos, local coberto de árvores, é verdade, mas, em compensação, muito frequentado pelos agentes de polícia, em quem o outro encontraria fácil auxílio, se o da blusa, como parecia, para ali se dirigisse.

Com grande surpresa, porém, do homem do casacão abotoado, o da blusa, em vez de tomar pela rampa, continuou a seguir pela ribanceira ao longo do cais.

A sua posição, portanto, tornava-se visivelmente crítica.

A não ser o de lançar-se ao Sena, que outro fim poderia ele ter em vista?

Pois que não tomava pela ladeira, nenhum outro meio lhe restava de subir para o cais; nem rampa nem escadas. Longe disso. Pouco adiante do sí o onde o homem da blusa se achava, a direito da ponte de Iena, o rio formava um cotovelo, onde a ribanceira, cada vez mais estreita, acaba, por úl mo, em ponta aguda, sumindo-se por baixo de água. Chegando aí, como estava bem de ver, o homem achar-se-ia bloqueado, inevitavelmente, por todos os lados; à direita, pelo muro do cais, cortado a prumo; à esquerda e pela frente, pelo rio; finalmente, da retaguarda, pelo homem que o seguia.

Verdade é que, ao fim da ribanceira, se achava um monte de entulho de seis ou sete pés de altura, proveniente de não sabemos que demolição. Mas que importava isso?

Pois o homem esperaria, porventura, achar um esconderijo seguro, ocultando-se por trás daquele monte de entulho, em roda do qual bastaria que o outro desse uma volta para logo dar com ele? O expediente seria, realmente, pueril. Tão pueril, que nem decerto lhe passava pela ideia. A inocência dos ladrões não chegaria a semelhante ponto.

Chegado junto do monte de entulho, o qual formava à beira de água uma espécie de

eminência que se prolongava com um promontório até ao muro do cais, o homem da frente transpôs o outeirinho de caliça, por trás do qual desapareceu aos olhos do que o seguia.

Este, que assim como não via, também não era visto, aproveitou o ensejo para pôr termo à dissimulação com que até então procedera e principiou a caminhar apressadamente. Por consequência, dentro de poucos instantes achava-se ao pé do promontório de entulho, que transpôs sem perda de tempo. Chegado aí, parou estupefacto. O homem em cuja caça ia, havia desaparecido.

Total eclipse do homem da blusa.

Do monte de entulho para diante, apenas havia uns trinta passos mais de ribanceira.

Ao fim dos trinta passos, a ribanceira mergulhava no rio o qual vinha bater de encontro ao muro do cais.

Ora o fugi vo não podia ter-se lançado ao Sena nem escalado o muro sem ser visto pelo que o seguia; por conseguinte, que era feito dele?

Incapaz de resolver tal enigma, o homem do casacão abotoado avançou até ao fim da ribanceira, onde se deteve um momento pensa vo, fechando e abrindo convulsivamente os punhos e circunvagando a vista por todos os objectos em redor, com perscrutadora atenção. De súbito, interrompeu-se a si próprio, batendo na testa, como se vesse achado o fio do enigma, cuja decifração baldadamente procurava. No sí o em que findava a terra e principiava a água, acabava de avistar uma grade de ferro, larga e baixa, em forma de arco e reforçada por uma seguríssima fechadura e três descomunais dobradiças. Por baixo desta grade, espécie de porta aberta na base do cais, e que tanto deitava para o rio como para a ribanceira, corria um rego de água suja, que desaguava no Sena.

Pela parte de dentro dos grossos e enferrujados varões que formavam a grade, avistava-se apenas uma espécie de corredor abobadado e escuro.

O homem cruzou os braços e deitou um olhar de repreensão para a grade.

Como o olhar, porém, não bastasse, tentou abri-la; abanou-a, mas ela resis u solidamente. Posto se não vesse ouvido o menor ruído, coisa singular numa grade tão cheia de ferrugem, de supor era que nha sido aberta; mas o que era indubitável é que havia sido fechada outra vez, o que indicava que aquele a quem ela acabava de dar passagem, possuía não uma gazua, mas uma chave.

Tão evidente se afigurou esta hipótese ao espírito do homem que forcejava por abrir a grade, que lhe fez bradar num tom de indignação: