Os Miseráveis
VII — Gavroche profundo calculista de distâncias
— Prometa!
— Prometo.
— Prometa que me dará um beijo na testa depois de eu estar morta, porque o hei-de sentir!
Tornou a deixar cair a cabeça sobre os joelhos de Mário e os olhos fecharam-se-lhe. O
mancebo julgou que aquela pobre alma já nha par do. Eponina conservava-se imóvel.
De repente, no instante em que Mário a julgava para sempre adormecida, abriu vagarosamente os olhos, em que aparecia a sombria profundidade da morte e disse-lhe num tom cuja suavidade parecia vir já do outro mundo:
— Se quer que lhe diga, senhor Mário, eu julgo que estava um bocado apaixonada pelo senhor!
E, ao proferir estas palavras, tentou ainda sorrir-se e expirou.
VII — Gavroche profundo calculista de distâncias
Mário cumpriu a sua promessa. Apenas a infeliz expirou, depôs-lhe um beijo na fronte lívida, orvalhada ainda do suor da morte. Não era uma infidelidade a Cose e; era um melancólico e suave adeus a uma alma desditosa.
Ao pegar na carta que Eponina lhe dera, Mário não pôde esquivar-se a um ín mo estremecimento. Parecia-lhe que aquela carta encerrava algum grande acontecimento, e por isso estava impaciente por lê-la. É assim o coração do homem; ainda a infeliz rapariga mal nha fechado os olhos, já Mário não se lembrava senão de abrir aquele papel. Depôs, portanto, o cadáver no chão com -todo o cuidado e re rou-se. Dizia-lhe não sei que voz desconhecida que não podia ler aquela carta em presença daquele cadáver.
Entrou na loja e aproximou o papel de uma luz. Era um bilhe nho dobrado e fechado com o esmero elegante par cular às mulheres. O sobrescrito inculcava ter sido feito por mão feminina e era assim concebido:
«Senhor Mário Pontmercy, em casa do senhor Courfeyrac, rua dos Vidraceiros, número 16».
Mário rompeu o sobrescrito e leu:
«Meu querido. Infelizmente, meu pai quer que partamos já. Esta noite estaremos na rua do Homem Armado, número 7, e dentro de oito dias em Londres. Cose e — 4 de Junho».
A tal ponto chegava a inocência destes amores, que Mário ainda não conhecia a letra de Cosette.
O que se nha passado em poucas palavras se pode referir. Eponina fizera tudo. Após a noite de 3 de Junho, dois projectos concebera: frustrar os planos de seu pai e dos outros bandidos, a respeito da casa da rua Plumet e separar Mário de Cose e. Firme nesta resolução, trocou os seus andrajos com O primeiro galhofeiro gaiato que encontrou, disposto a ves r-se de mulher, enquanto Eponina se disfarçava de homem.
Fora ela que no Campo de Marte dera a Jean Valjean aquele expressivo aviso «mude de casa». Jean Valjean, efectivamente, apenas se recolhera a casa, dissera a Cosette:
— Esta noite iremos ficar à rua do Homem Armado e para a semana que vem havemos de estar em Londres. Toussaint há-de acompanhar-nos.
Cose e, aterrada por tão inesperado golpe, escrevera à pressa duas linhas a Mário.
Porém, como deitar a carta ao correio, se ela nunca saía só, e Toussaint, maravilhada de semelhante incumbência, iria imediatamente mostrar a carta ao senhor Fauchelevent?
No meio desta angús a, Cose e avistara Eponina por entre a grade, a qual, disfarçada com trajos de homem, não saía um só instante de ao pé do jardim. A jovem chamara, pois, «o moço operário» e dissera-lhe, entregando-lhe cinco francos e a carta:
— Leva esta carta já ao seu destino.
Eponina metera a carta na algibeira. No outro dia, 5 de Junho, fora a casa de Courfeyrac, perguntara por Mário, não para lhe entregar a carta, mas, coisa que todas as almas apaixonadas compreenderão, «para ver». Ali esperara Mário ou, pelo menos, Courfeyrac ainda para ver. Quando Courfeyrac lhe dissera: «Vamos para as barricadas», vera uma ideia. Arrojar-se àquela morte, como se teria arrojado a qualquer outra e impelir para ela Mário. Tinha seguido Courfeyrac, assegurara-se bem do lugar em que construíam a barricada e, tendo toda a certeza de que Mário, que não recebera o menor aviso e a quem interceptara a carta, iria à noite à entrevista do costume, fora à rua Plumet, esperara ali Mário e enviara-lhe, em nome dos seus amigos, aquele apelo, que devia, pensava ela, conduzi-lo à barricada. Eponina contara com o desespero de Mário não encontrando Cose e, e não se enganara. Depois voltara à rua da Chanvrerie. Há pouco se viu o que ali fez. Morrera com a alegria trágica dos corações ciosos, que arrastam o ente amado na sua morte e que dizem:
— Ninguém o possuirá!
Mário cobriu de beijos a carta de Cose e. Amava-o realmente! Teve, por um instante, a ideia de que não devia morrer. Depois disse consigo:
— Mas ela parte. Seu pai leva-a para a Inglaterra e meu avô opõe-se ao casamento.
Não se mudou coisa alguma na fatalidade.
Então lembrou-se de que lhe restavam dois deveres a cumprir: enviar a Cose e um supremo adeus e salvar da catástrofe que se estava preparando aquele pobre rapazito, irmão de Eponina e filho de Thenardier.
Tinha consigo uma carteira; a mesma que con vera o caderninho onde escrevera tantos pensamentos de amor para Cose e. Arrancou-lhe uma folha e escreveu nela, a lápis, estas linhas:
«O nosso casamento é impossível. Pedi a meu avô o seu consen mento e ele negou-mo; eu, como tu, não tenho fortuna. Corri a tua casa e não te encontrei; sabes a palavra que te dei; cumpro-a: morro. Amo-te. Quando leres Isto estará a minha alma a teu lado e rrír-se-á para ti.»
Não tendo nada com que fechar esta carta, limitou-se a dobrar o papel em quatro e a pôr-lhe este sobrescrito:
«Para a menina Cosette Fauchelevent na rua do Homem Armado, número 7.»
Depois de dobrar a carta, ficou por um momento pensa vo, tornou a pegar na carteira, abriu-a e escreveu com o mesmo lápis na primeira página estas linhas:
«Chamo-me Mário Pontmercy. Levem o meu cadáver a casa do meu avô, o senhor Gillenormand, na rua das Mulheres do Calvário, número 6, no Marais.»
Guardou em seguida a carteira no bolso do casaco e chamou Gavroche. O gaiato ouvindo a voz de Mário, correu logo com a alegria e a dedicação no rosto.
— Queres fazer alguma coisa em meu serviço?
— Tudo — disse Gavroche. — Com a fortuna! Se não fosse o senhor já eu nha baldeado.
— Vês bem esta carta?
— Vejo, sim, senhor.
— Guarda-a. Sai já da barricada (Gavroche inquieto, começou a coçar atrás da orelha), e amanhã de manhã levá-la-ás ao seu des no, à menina Cose e, a casa do senhor Fauchelevent, na rua do Homem Armado, número 7.
O heróico rapazito respondeu:
— Pois sim! Mas durante esse tempo tomarão a barricada, e eu não estarei nela.
— A barricada já não será atacada senão ao amanhecer; segundo todas as aparências não será tomada antes do meio-dia.
A nova espera que os assaltantes davam, à barricada, ia-se com efeito prolongando.
Era uma das intermitências frequentes nos combates nocturnos, que são sempre seguidos de duplo encarniçamento.
— E se eu for levar a sua carta amanhã de manhã?
— Será muito tarde. A barricada será provavelmente cercada e então não poderás sair. Vai sem demora.
Gavroche não teve que replicar; ficou imóvel, indeciso, e coçando novamente atrás da orelha. De repente, com um daqueles movimentos de pássaro que lhe eram naturais, pegou na carta.
— Bem... — disse ele — e deitou a correr pela rua Mondétour.
Gavroche vera uma ideia que o determinara, mas que não expressara, com medo de que Mário lhe fizesse alguma objecção. A ideia fora esta: