Os Miseráveis
II — Atordoamento da felicidade completa
— Como és linda! — murmurou Mário. — Não me atrevo a olhar para . É por isso que te contemplo. És uma graça. Não sei o que tenho. Quando a ponta do teu pé se mostra fora da roda do ves do, transformo-me. E depois, que brilho encantado quando o teu pensamento se entreabre! Raciocinas pasmosamente. Há momentos em que me parece que és um sonho. Fala, quero escutar-te, quero admirar-te! Ó Cose e, como isto é estranho e encantador! Estou de todo louco! És adorável! Olha, estudo-te os pés com
o microscópio e a alma com o telescópio.
E Cosette respondia:
— Amo-te tanto mais quanto é o tempo que decorreu desde esta manhã.
Tanto perguntas como respostas acomodavam-se como podia neste diálogo, caindo sempre de acordo, sobre o amor, como os bonecos de sabugo sobre o chumbo que lhes serve de base.
Cose e era toda ingenuidade, simplicidade, transparência, alvura, candura, luz.
Poder-se-ia dizer de Cose e que era clara. Produzia em quem a via a sensação que produz o mês de Abril, e o despontar da aurora. Em seus olhos havia orvalho. Cose e era uma condensação de luz matutina em forma de mulher.
Era uma coisa simples que Mário adorando-a a admirasse. Mas a verdade era que aquela criança, recentemente saída do convento, se expressava com delicada penetração, e dizia por momentos toda a espécie de palavras verdadeiras e justas. A sua loquacidade era conversação. Não se iludia sobre coisa alguma, via tudo com justeza. A mulher sente e fala com o terno ins nto do coração, que é uma infalibilidade. Ninguém como uma mulher, sabe dizer coisas ao mesmo tempo suaves e profundas. Doçura e profundidade; eis a mulher, eis o céu.
Em tão plena felicidade, chegavam-lhes de vez em quando as lágrimas aos olhos. Um animalzinho de Deus esmagado, uma pena caída dum ninho, um ramo de pilriteiro quebrado, apiedava-os; e o seu êxtase, docemente afogado em melancolia, parecia não ter nada de melhor a desejar do que chorar. O mais soberano sintoma do amor é um enternecimento às vezes quase insuportável.
E, a par disto todas estas contradições são no cruzar de relâmpagos do amor riam-se com a maior facilidade, com uma liberdade arrebatadora e tão familiarmente, que por vezes tinham o ar de dois rapazes.
Contudo, mesmo a ocultas dos corações ébrios de cas dade, está sempre presente a natureza, que nunca se esquece. Acha-se presente com o seu fim brutal e sublime; e qualquer que seja a inocência das almas, sente-se, ainda na mais pudica entrevista, o ambiente que separa um par de amantes de um par de amigos.
Idolatravam-se.
O permanente e o imutável subsistem. Ama-se, sorriem-se os lábios, entrelaçam-se os dedos das mãos, troca-se o tratamento de tu, e nada disto embaraça a eternidade.
Ocultam-se dois amantes no crepúsculo, no invisível, como os passarinhos, como as rosas; fascinam-se reciprocamente na sombra, com o coração nos olhos, murmuram, segredam, e durante este tempo é o infinito preenchido com imensas oscilações de astros.
II — Atordoamento da felicidade completa
Viviam vagamente assombrados de ventura. Não davam pelo cólera que dizimava Paris precisamente naquele mês. Tinham feito reciprocamente o maior número de confidências que lhes fora possível, mas todas juntas não nham ido além dos seus nomes. Mário dissera a Cose e que era órfão, que se chamava Mário Pontmercy, que era
advogado, que seu pai fora coronel, que nha sido um herói, e que ele, Mário, estava mal com seu avô, que era rico. Chegara também a dizer-lhe que era barão; mas isso não fizera o mínimo efeito em Cosette.
— Mário, barão? Não nha percebido. Não sabia o que aquela palavra queria dizer.
Mário era Mário.
Ela pela sua parte dissera-lhe que fora educada no convento do Pe t-Picpus, que sua mãe morrera como a dele, que seu pai se chamava Fauchelevent, que era muito bondoso, que dava muito aos pobres, mas que também era pobre, e que se privava de tudo, não a privando a ela de nada.
Extravagante coisa: na espécie de sinfonia em que Mário vivia desde que falava a Cose e, o passado, mesmo o mais recente, tornara-se para ele de tal modo confuso e longínquo, que se sen u completamente sa sfeito com o que lhe contou Cose e. Nem mesmo se lembrou de lhe falar da aventura nocturna do casebre dos Thenardier, da queimadura, da estranha atitude e singular fuga de seu pai.
Mário esquecera-se momentaneamente de tudo isto; nem mesmo sabia à noite o que fizera de manhã, nem onde almoçara, nem quem lhe falara, nha cân cos nos ouvidos, que o tornavam, surdo a qualquer outro pensamento; só exis a quando estava ao pé de Cose e. Então, como estava no céu, era coisa simples que se esquecesse da terra.
Suportavam ambos languidamente o peso indefinível das voluptuosidades imateriais. É
assim que vivem os sonâmbulos que se chamam namorados.
Ah! Quem não tem experimentado estas coisas? Porque há-de haver uma hora em que se sai deste azul, e porque se há-de continuar a viver?
O amor subs tui quase o pensar. O amor é um ardente esquecimento do resto. Exigi, pois, lógica à paixão. Há tanto encadeamento lógico absoluto no coração humano, como figura de geometria perfeita na mecânica celeste.
Para Cosette e Mário nada mais existia do que Mário e Cosette.
O universo em torno deles caíra numa cova. Viviam num minuto de oiro. Para eles não havia nada antes nem depois. Mário mal se lembrava de que Cose e nha um pai. No seu cérebro fora tudo apagado pelo deslumbramento.
De que falavam aqueles amantes? Já o vimos: das flores, das andorinhas, ido ocaso do Sol, do nascer da Lua, de todas as coisas importantes. Tinham-se dito tudo, excepto tudo O tudo dos namorados é nada. Mas o pai, as realidades, a pocilga, os ladrões, aquela aventura, para que pensar em semelhantes coisas? Havia certeza de que vesse exis do aquele pesadelo? Sendo dois, adoravam-se; era o que havia. Qualquer outra coisa não exis a. É provável que este desaparecimento no inferno por detrás de nós seja inerente à aproximação do paraíso.
Viram-se acaso os demónios? Existem eles porventura?
Tremeu-se? Sofreu-se? Já se não sabe nada. Acima de tudo está uma nuvem de rosas.
Assim viviam, pois, aqueles dois entes, com toda a inverosimilhança que reside na natureza: nem no nadir nem no zénite, entre o homem e o serafim, acima do lodo, abaixo do éter, na nuvem; o menos possível carne e osso; alma e êxtase desde os pés até à cabeça; já demasiadamente sublimados para caminharem na terra, ainda muito carregados de humanidade para desaparecerem no azul, em suspensão, como os átomos que esperam o precipitado; aparentemente fora do des no; desconhecendo o carril chamado ontem, hoje e amanhã; maravilhados, embasbacados, flutuantes; por momentos assaz leves para a fuga no infinito, quase prestes para o voo eterno.