Os Miseráveis
III — Madre Inocência
A prioresa fitou os olhos nele.
— Ah! Você tem alguma comunicação a fazer-me?
— Uma súplica.
— Bem, então diga lá.
O ex-tabelião Fauchelevent pertencia à categoria dos camponeses dotados de certa audácia. Uma tal ou qual ignorância hábil é uma força: como se não desconfia dela, alcança sempre o seu fim. Fauchelevent habitava no convento havia pouco mais de dois anos e ob vera as boas graças de toda a comunidade. Sempre solitário e entregue aos seus trabalhos de hor cultura, não nha outra coisa a fazer além de ser curioso.
Distante como estava de todas aquelas mulheres veladas, girando de um para outro
lado, não via diante de si uma agitação de sombras. A força de atenção e de penetração, chegara a res tuir a carne a todos aqueles fantasmas, de sorte que aquelas mortas viviam para ele. Era como um surdo, cuja vista adquire maior alcance, ou como um cego cujo ouvido se torna extremamente agudo. Aplicara-se a dis nguir o som dos diferentes toques, e conseguira-o: de modo que aquele claustro enigmá co e taciturno não nha nada oculto para ele; aquela esfinge dizia-lhe ao ouvido todos os seus segredos.
Sabendo tudo, fingia não saber coisa alguma. Era esta a sua arte. Todo o convento o julgava estúpido, o que em religião é um grande mérito. Às madres vocais faziam muito caso de Fauchelevent. Era um curioso mudo, inspirava confiança. Além disto nha uma vida muito regular; não saía nunca senão por alguma reconhecida necessidade do jardim ou da horta. A discrição deste procedimento era-lhe levada em conta. Mas apesar disto não deixava ele de puxar pela língua a dois homens; no convento, ao porteiro, que sabia as par cularidades do locutório; no cemitério, ao coveiro, por cuja intervenção conhecia as par cularidades da sepultura; deste modo, nha, em relação às religiosas, dupla luz que lhe iluminava a vida e a morte. Mas não abusava nunca. A congregação nha por ele todo o interesse. Velho, coxo, não vendo nunca coisa nenhuma, um tanto surdo; que excelentes qualidades! Dificilmente o substituiriam.
O bom do homem, com o desafogo de quem se sente apreciado, encetou, em presença da prioresa, uma arenga campesina, muito difusa e extremamente profunda.
Falou por muito tempo da sua idade e enfermidades, do aumento dos anos, que já nha de contar pelo dobro, das crescentes exigências do trabalho, da grandeza da cerca, das noites que nha de passar ao relento, como ainda lhe sucedera na úl ma, em que fora preciso cobrir o meloal com esteiras, por causa da Lua, concluindo por dizer que nha um irmão (a prioresa fez um movimento) um irmão, já nada moço(segundo movimento da prioresa, mas revelando mais tranquilidade) que, se lhe dessem licença, poderia aquele irmão ir viver na sua companhia, podendo assim ajudá-lo, porque era excelente hortelão, que a comunidade teria no irmão um excelente servo, talvez melhor do que ele; que, doutro modo, se lhe não admi ssem seu irmão mais velho, como se sen a sem forças e insuficiente para o trabalho, ver-se-ia obrigado, ainda que com bastante pena, a re rar-se; e que seu irmão nha uma neta que levaria consigo, que se educaria religiosamente em tão santa casa; e que talvez, quem poderia adivinhar?, viesse um dia a ser religiosa.
Quando o jardineiro acabou de falar, a prioresa interrompeu a passagem das contas por entre os dedos e disse-lhe:
— Poderá você, daqui até à noite, obter uma barra de ferro bem grossa?
— Para que fim, reverenda madre?
— Para servir de alavanca.
— Arranjar-se-á — respondeu Fauchelevent.
A prioresa não acrescentou nem mais uma palavra, levantou-se e entrou na casa próxima, que era a sala do capítulo, onde se achavam reunidas as madres.
Fauchelevent ficou só.
III — Madre Inocência
Decorrido um quarto de hora, pouco mais ou menos, a prioresa tornou a entrar e veio sentar-se outra vez na cadeira.
— Senhor Fauvent?
— Reverenda Madre.
— Conhece a capela?
— Eu tenho lá um lugar de onde oiço missa e assisto aos ofícios.
— Já entrou alguma vez no coro?
— Uma ou duas vezes.
— Pois trata-se de erguer uma pedra.
— Pesada?
— A laje do pavimento que fica ao lado do altar.
— A pedra que fecha o carneiro?
— Sim.
— Para isso era preciso ter a força de dois homens.
— Ajuda-o a madre Ascensão, que tem tanta força como um homem.
— Ora! Uma mulher nunca é um homem!
— Mas nós para o ajudar não temos senão uma mulher. Cada qual dá o que tem. Lá porque D. Mabillon dá quatrocentas e dezassete epístolas de S. Bernardo e que Merlonus Horstius dá só trezentas e sessenta e sete, eu não desprezo Merlonus Horstius.
— Nem eu tão-pouco.
— O merecimento está em cada um fazer aquilo que pode. Um claustro não é um estaleiro.
— Nem uma mulher é um homem. Meu irmão é que é muito forte!
— Você levará uma alavanca.
— É a única chave que serve em semelhantes portas.
— A pedra tem uma argola.
— Por onde passarei a alavanca.
— E a pedra está disposta de modo que gira sobre si.
— Está bem, reverenda madre. Esteja vossa reverendíssima descansada de que hei-de abrir o carneiro.
— Hão-de ajudá-lo as quatro madres cantoras para o que for preciso.
— E quando o carneiro estiver aberto?
— Deve-se tornar a fechá-lo
— Mais nada?
— Não.
— Dê-me as suas ordens, reverenda madre.
— Fauvent, olhe que nós temos confiança em si.
— Eu estou aqui para tudo o que for preciso.
— E para não dizer nada.
— Sim, reverenda madre.
— Quando o carneiro estiver aberto...
— Fechá-lo-ei.
— Mas antes disso...
— O quê, reverenda madre?
— Será necessário depositar nele alguma coisa.
Seguiu-se um momento de silêncio. A prioresa, depois de estender o lábio inferior, o que indicava hesitação, continuou:
— Senhor Fauvent?
— Reverenda madre.
— Sabe que morreu esta manhã uma madre?
— Não sabia.
— Não ouviu o dobre?
— Lá no fim da cerca não se ouve nada.
— Deveras?
— Sabe Deus o que me custa a ouvir o toque que me diz respeito.
— Pois morreu ao amanhecer.
— E depois esta manhã não soprava o vento lá para o meu lado.
— Foi a madre Crucificação. Uma bem-aventurada.
A prioresa calou-se, moveu por um instante os lábios como em oração mental, e prosseguiu:
— Há três anos que a senhora de Bethune, uma jansenista, se tornou ortodoxa, só por ver orar a madre Crucificação.
— É verdade, reverenda madre; agora é que oiço o dobre.
— As madres levaram-na para a casa mortuária que dá para a igreja.
— Bem sei onde é.
— Nenhum outro homem além de você pode ou deve entrar naquela casa. Teria que ver a entrada de um homem na câmara das defuntas!
— A maior parte das vezes!
— Heim?
— A maior parte das vezes!
— Que está dizendo?
— Eu digo, a maior parte das vezes.
— A maior parte das vezes o quê?
— Reverenda madre, eu não disse a maior parte das vezes o quê: eu disse, a maior parte das vezes!
— Não o percebo. Porque disse a maior parte das vezes?
— Por dizer como a reverenda madre.
— Mas eu não disse a maior parte das vezes.
— A reverenda madre não disse, eu é que disse para dizer como a reverenda madre.
Neste momento soaram nove horas.
— Às nove horas da manhã e a todas as horas bendito e louvado seja o San ssimo Sacramento do altar! — disse a prioresa.
— Ámen! — acrescentou Fauchelevent.
As horas soaram em muito boa ocasião, porque acabaram com «a maior parte das
vezes». É provável que se não fossem elas nunca a prioresa e Fauchelevent se rariam daquela meada.
Fauchelevent limpou o suor.
A prioresa tornou a fazer um murmuriozinho interior, provavelmente sagrado, e depois levantou a voz:
— A madre Crucificação fez conversões durante a sua vida; depois da sua morte há-de fazer milagres.
— Fará decerto — respondeu Fauchelevent, firmando-se nas pernas e esforçando-se por não se tornar a mover dali em diante.
— Senhor Fauvent, a comunidade foi abençoada na madre Crucificação. Decerto não é dado a todos morrer como o cardeal Bérulle, celebrando o santo sacri cio da missa e entregar a alma a Deus pronunciando as palavras: Home igitur obla onem. Mas sem que alcançasse tanta felicidade, foi preciosíssima a morte da madre Crucificação. Teve perfeito conhecimento até ao úl mo instante. Falava connosco, e depois falava com os anjos, dando-nos parte das suas úl mas vontades. Se você vesse mais fé e se pudesse ter estado na sua cela, ter-lhe-ia ela curado a perna, tocando-lhe apenas. Conservou-se sempre risonha. Conhecia-se que ressuscitava em Deus. Teve a morte de um anjo.
Fauchelevent, julgando que era o fim de uma oração, disse com a maior seriedade:
— Ámen!
— Senhor Fauvent, é preciso cumprir as vontades dos mortos.
A prioresa passou entre os dedos algumas contas do rosário. Fauchelevent con nuava calado. A prioresa prosseguiu:
— Consultei sobre este ponto muitos eclesiás cos que trabalham para a glória de Nosso Senhor, que se ocupam no exercício da vida clerical, e que produzem admiráveis frutos.
— Reverenda madre, ouve-se aqui o dobre muito melhor do que lá no jardim.
— E depois é mais do que uma morta, é uma santa.
— Como a reverenda madre prioresa.
— Havia vinte anos que dormia no seu caixão, com permissão expressa do nosso Santo Padre Pio VII.
— Aquele que coroou o impera... Bonaparte.
Para um homem hábil como Fauchelevent, a recordação era despropositada.
Felizmente a prioresa, de todo entregue ao seu pensamento, não o ouviu e continuou:
— Senhor Fauvent?
— Reverenda madre.
— S. Diodoro, arcebispo de Capadócia, quis que inscrevessem sobre a sua sepultura esta única palavra: Acarus, que significa verme da terra; assim se fez. É ou não é verdade?
— É verdade, reverenda madre.
— O bem-aventurado Mezzocano, abade de Aquila, quis ser enterrado debaixo da forca, e assim se fez.
— É verdade.
— S. Terêncio, bispo de Port, na embocadura do Tibre para o mar, pediu que lhe gravassem sobre a sepultura o sinal que costumavam pôr sobre as dos parricidas, com a esperança de que quem passasse lhe cuspisse no túmulo; e assim se fez. É preciso obedecer aos mortos.
— Assim seja.
— O corpo de Bernardo Guidonis, nascido em França, próximo a Roche-Abeille, foi levado, como ele próprio ordenara, e a despeito do rei de Castela, para a igreja dos dominicanos de Limoges, conquanto Bernardo Guidonis fosse bispo de Tuy em Espanha.
Poder-se-á dizer o contrário?
— Decerto que não, reverenda madre.
— O facto é atestado por Plantavit della Fosse.
Depois de passar silenciosamente mais algumas contas do rosário, a prioresa continuou:
— Senhor Fauvent, a madre Crucificação será sepultada no caixão em que dormiu por espaço de vinte anos.
— É justo.
— É a continuação do seu sono.
— Terei então de a fechar nesse caixão?
— Terá!
— E poremos de parte o caixão das pompas fúnebres?
— Exactamente.
— Estou às ordens da reverendíssima comunidade.
— Ajudá-lo-ão as quatro madres cantoras.
— A pegar no caixão? Não precisarei de ajuda.
— Não; a fazê-lo descer.
— Para onde?
— Para o carneiro.
— Qual carneiro?
— O que está por baixo do altar.
Fauchelevent quase deu um salto.
— O carneiro debaixo do altar!
— Debaixo do altar.
— Mas...
— Terá consigo uma barra de ferro.
— Sim, mas...
— Com a barra de ferro levantará a laje, por meio da argola.
— Mas...
— É preciso obedecer aos mortos. Ser sepultada no carneiro que está por debaixo do altar da capela, não ser lançada em solo profano, ficar morta onde orou viva; tal foi o voto supremo da madre Crucificação. Eis o que nos pediu, ou antes, nos ordenou.
— Mas é proibido.
— Proibido pelos homens, ordenado por Deus.
— E se vier a saber-se?
— Nós temos confiança em si.
— Quanto a isso sou como qualquer pedra dos muros do convento.
— Reuniu-se o capítulo. As madres vocais, que acabo de consultar e que estão ainda deliberando, decidiram que a madre Crucificação seria sepultada, segundo o desejo que expressou, no seu caixão, sob o nosso altar. Imagine, senhor Fauvent, se agora aqui iam fazer-se milagres. Que glória para Deus nesta comunidade! Os milagres saem dos túmulos.
— Mas, reverenda madre, se o delegado de saúde...
— S. Bento II, em matéria de sepultura, resistiu a Constantino Pogonat.
— No entanto, o comissário de polícia...
— Chonodemaire, um dos sete reis alemães que entraram nas Gálias, sob o império de Constâncio, reconheceu expressamente o direito dos religiosos serem enterrados dentro dos muros dos seus conventos, isto é, debaixo do altar.
— Mas o inspector da prefeitura...
— O mundo não é coisa nenhuma em presença da cruz. Mar nho, décimo primeiro geral dos Cartuchos, deu à sua ordem esta divisa: Stat crux dum volvitur orbis.
— Ámen! — disse Fauchelevent, imperturbável neste modo de se rar de embaraços, todas as vezes que ouvia alguma coisa em latim.
Para quem por muito tempo se conservou calado é suficiente qualquer auditório.
Gymnastoras saiu da prisão tendo recolhidos em si muitos dilemas e silogismos, parou diante da primeira árvore que encontrou, começou a arengar-lhe e fez grandes esforços para convencê-la. A prioresa, habitualmente sujeita ao silêncio, e tendo superabundância no seu reservatório, levantou-se e exclamou com a loquacidade de represa solta:
— À minha direita tenho Bento, à minha esquerda Bernardo. Quem é Bernardo? É o primeiro abade de Claraval. Fontaines, em Borgonha, é uma terra abençoada por tê-lo visto nascer. Seu pai chamava-se Técelin e sua mãe Alèthe. Principiou Bernardo por Cister para terminar por Claraval; foi ordenado abade por Guilherme de Chainpeaux, bispo de Chalons-sur-Saône; teve setecentos noviços e fundou cento e sessenta mosteiros; no concílio de Sens, que teve lugar em 1140, derrotou Abeillard, Pedro de Bruys, Henri, discípulo deste, e os sequazes de outra espécie de seita, chamados os Apostólicos; confundiu Arnaldo de Brexe, fulminou o monge Raoul, o matador de judeus, presidiu no concílio de Reims, que teve lugar em 1148, fez condenar Gilberto de lá Porée, bispo de Poi ers; fez condenar Éon de l’Étoile, compôs as desavenças que entre si traziam alguns príncipes, guiou o rei Luís o Novo, aconselhou o papa Eugénio III, regulou o templo, pregou a Cruzada, fez duzentos e cinquenta milagres em sua vida, e só num dia chegou o número destes a trinta e nove. Quem é Bento? É o patriarca do Monte Cassino, é o segundo fundador da San dade Claustral, é o Basílio do Ocidente. A sua ordem produziu quarenta Papas, duzentos cardeais, cinquenta patriarcas, mil e seiscentos arcebispos, quatro mil e seiscentos bispos, quatro imperadores, doze imperatrizes, quarenta e uma rainhas, três mil e seiscentos canonizados, e dura há mil e quatrocentos anos. De um lado S. Bernardo, do outro o delegado de saúde! De um lado S. Bento, do outro o inspector da higiene pública! Nós queremos cá saber do Estado, do armador, do delegado, do inspector, dos regulamentos ou da administração? Não passa por aí ninguém que se não indignasse, se visse o modo como nos tratam. Pois nem sequer podemos ter o direito de dar a Jesus Cristo o nosso pó! Fora lá com os vossos delegados de saúde, que são uma invenção revolucionária! Deus subordinado ao comissário de polícia; aqui está como é o século! Fauvent, silêncio!
Fauchelevent não se achava bem sob esta inundação, porém a prioresa continuou:
— O direito do mosteiro à sepultura é indubitável para todos. Só os faná cos e os sequazes do erro é que o negam. Vivemos em tempos de bem terrível confusão! Ignora-se o que se deve saber e sabe-se o que se deve ignorar. Não se vê senão ímpios e ignorantes em matéria de religião. Há gente, no tempo presente, que não faz dis nção entre o grandíssimo S. Bernardo e o Bernardo chamado dos Pobres Católicos, eclesiás co cheio de bondade que vivia no século XIII. Outros blasfemam, a ponto de comparar o cadafalso de Luís XVI com a cruz de Jesus Cristo, sendo Luís XVI apenas um rei. Já não há justo nem injusto. Sabe-se o nome de Voltaire e não se sabe o nome de César de Bus, e, contudo, César de Bus é um bem-aventurado e Voltaire um desgraçado. O arcebispo passado, o cardeal de Perigord, nem sequer sabia que Carlos de Gondren sucedeu a Bérulle, e Francisco de Bourgoin a Gondren e Jean Francisco Senault Bourgoin, e o pai de Santa Marta a Jean Francisco Senault. Conhece-se o nome do Padre Coton, não porque foi um dos três que cooperaram para a fundação do Oratório, mas por ter sido objecto das imprecações do rei calvinista Henrique IV. O que faz com que as pessoas mundanas gostem de S. Francisco de Sales é ter ele sido trapaceiro ao jogo. E, além disto, ataca-se a religião, e porquê? Porque tem havido maus padres, porque Sagitário, bispo de Gap, era irmão de Salone, bispo de Embrun, e porque ambos seguiram Mommol. Que tem lá isso?
Isto obsta acaso a que Mar nho de Tours fosse um santo e desse metade da sua capa a um pobre? Fecham os olhos às verdades e não querem viver senão nas trevas. Os animais mais ferozes são os que são cegos. Ninguém se lembra que há um inferno. Oh, que maldade de gente! Da parte do rei hoje significa da parte da revolução. Já ninguém sabe o que deve, nem aos vivos nem aos mortos. É proibido morrer santamente. O
sepulcro é um negócio civil. Isto causa horror. S. Leão II escreveu expressamente duas cartas, uma a Pedro Notário, outra ao rei dos Visigodos, para combater e rejeitar, nas questões que dizem respeito aos mortos, a autoridade do exarca e a supremacia do imperador. Gau er, bispo de Chalons, neste ponto resis a a Otão, duque de Borgonha.
Noutro tempo nhamos nós voto em capítulo, mesmo nas coisas do Século. O abade de Cister, geral da ordem, era conselheiro nato no parlamento de Borgonha. Quanto aos nossos mortos, desses fazíamos o que queríamos. O corpo do próprio S. Bento não está em França, na abadia de Fleury, chamada S. Bento de Loire, apesar de ter morrido na Itália, no Monte Cassino, num sábado 21 de Março do ano 543? Tudo isto é incontestável. Eu aborreço as coristas, odeio os priores, execro os hereges, mas ainda detestaria mais quem me sustentasse o contrário. Basta ler Arnoul Wion, Gabriel Bucelin, Tritemo, Maurolicus e D. Lucas de Achery.
Neste momento a prioresa respirou e depois voltou-se para Fauchelevent:
— Senhor Fauvent, está combinado?
— Sim, reverenda madre.
— Podemos contar consigo?
— Hei-de obedecer.
— Está bem.
— Eu sou inteiramente dedicado ao convento.
— Ficamos entendidos. Você fecha o caixão que as sorores hão-de levar para a capela.
Canta-se o o cio dos defuntos e depois entra-se para o claustro. Por volta das onze horas para a meia-noite, você vem com a sua alavanca. Mas tudo há-de ser feito com o maior segredo. Na capela não está mais ninguém senão as quatro madres cantoras, a madre Ascensão e você.
— E a soror que estiver no poste.
— Essa está, mas não se volta.
— Mas ouve.
— Ela não escuta. Quanto mais, o que sabe o claustro. Ignora-o o mundo.
Houve ainda outra pausa, após a qual a prioresa prosseguiu:
— Mas re o chocalho. É escusado que a soror que es ver de poste conheça que anda na capela.
— Reverenda madre?
— Que é, senhor Fauvent?
— O médico dos defuntos já veio fazer a visita do costume?
— Fá-la hoje às quatro horas. Já para ele vir se fez o sinal. Mas então você, realmente, não ouve sinal nenhum?
— Eu não presto atenção senão ao que é para chamar por mim.
— Está bem, senhor Fauvent.