Os Miseráveis
VII — Precauções que devem adoptar-se na censura
Deve ser prá co o Absoluto. É necessário que o ideal possa ser respirado, comido e bebido pelo espírito humano. O ideal é que tem direito para dizer: «Tomai, isto é a minha carne, isto é o meu sangue». A sabedoria é uma comunhão sagrada. É com essa condição que ela cessa de ser um estéril amor da ciência para se tornar o modo único e soberano da união humana e que de filosofia é promovida a religião.
A filosofia não deve ser uma sacada construída no mistério para o vermos à vontade, sem outro resultado mais do que o de podermos sa sfazer a nossa curiosidade sem incómodo.
Pelo que nos toca, limitamo-nos a dizer, adiando para outra ocasião o desenvolvimento do nosso pensamento, que não compreendemos, nem o homem como ponto de par da, nem o progresso como fim, sem estas duas forças que são dois motores: crer e amar. O progresso é o fim, o ideal é o tipo.
Que é o ideal? É Deus.
Ideal, absoluto, perfeição, infinito, são termos idênticos.
VII — Precauções que devem adoptar-se na censura
A história e a filosofia têm deveres eternos, que são ao mesmo tempo deveres simples; combater Caifás bispo, Draco juiz, Trimalquião legislador, Tibério imperador; é uma coisa clara, direita e límpida, que não oferece escuridão nenhuma. O direito, porém, de viver à parte, mesmo com os seus inconvenientes e abusos, quer ser provado e poupado. O cenobitismo é um problema humano. Quando se trata dos conventos, desses lugares de erro mas de inocência, de desvairamentos mas de boa vontade, de ignorância mas de dedicação, de suplício mas de martírio, é necessário quase sempre dizer sim ou não.
Um convento é uma contradição. Por fim, a salvação; por meio, o sacri cio. O
convento é supremo egoísmo com a abnegação suprema por resultado.
A divisa do monaquismo parece ser esta: abdicar para reinar.
No claustro sofre-se para gozar. Saca-se uma letra de câmbio sobre a morte, descontando-se em escuridão terrestre a luz celeste. No claustro aceita-se o inferno como adiantamento de herança sobre o paraíso.
A profissão de um frade ou de uma freira é um suicídio pago com a eternidade.
Parece-nos impróprio de semelhante assunto o gracejo, porque tudo nele é digno de seriedade, tanto o bem como o mal.
O homem justo encrespa o sobrolho, mas nunca sorri com sorriso de maldade. A cólera compreendemo-la, a malignidade não.
VIII — Fé a lei
Mais algumas palavras.
Nós censuramos a igreja quando a intriga a satura; desprezamos o espiritual, áspero para com o temporal; porém em toda a parte respeitamos o homem que se entrega à meditação, em toda a parte saudamos o que vemos de joelhos.
A fé é uma necessidade para o homem. Infeliz do que nada crê!
Não se segue que, por qualquer estar absorvido, esteja ocioso. Há o labor visível e o labor invisível.
Contemplar é laborar; pensar é obrar. Trabalha-se de braços cruzados, faz-se serviço de mãos erguidas.
Olhar para o céu é uma obra.
Tales esteve quatro anos imóvel e foi o fundador da filosofia.
Para nós nem os cenobitas são ociosos, nem os solitários vadios.
Pensar na treva é uma coisa séria.
Sem nada invalidar do que atrás dissemos, julgamos que aos vivos convém uma perpétua lembrança do túmulo. Neste ponto estão de acordo o padre e o filósofo. É
necessário morrer. A Horácio serve de réplica o abade da Trapa.
Entremear a vida de certa presença do sepulcro é a lei do asceta. A este respeito, sábio e asceta, ambos convergem.
Gostamos do engrandecimento moral, assim como queremos o aumento material.
Dizem os espíritos irreflectidos e rápidos:
— De que servem e que fazem essas figuras imóveis da parte do mistério?
Ah! Em presença da escuridão que nos cerca e nos espera, sem sabermos o que de nós fará a dispersão imensa, respondemos:
— Não há obra, talvez, mais sublime do que aquela em que se empregam essas almas.
— E acrescentamos: — Talvez não haja trabalho mais útil.
Bem precisos são aos que nunca rezam os que estão sempre a rezar.
Para nós toda a questão está na quan dade de pensamento que se mistura com a oração.
É grande ver Leibnitz orando; belo ver Voltaire adorando. Deo erexit Voltaire.
Somos pela religião contra as religiões.
Somos dos que crêem na miséria dos discursos e na sublimidade da oração.
Neste instante, porém, que vamos atravessando, instante que, felizmente, não deixará ao século XIX a sua figura, a esta hora em que tantos homens andam de fronte curvada e trazem a alma tão pouco elevada, entre tantos vivos, cuja moral é gozar, e que só se ocupam com as coisas breves e disformes da matéria, parece-nos venerável todo o que se exila. O mosteiro é uma renúncia. O sacri cio em falso nem por isso é menos sacrifício. Há tal ou qual grandeza em tomar por dever um erro severo.
Tomado em si e idealmente (para girarmos em roda da verdade até à revista imparcial de todos os aspectos), o mosteiro, e especialmente o convento de freiras, pois na nossa sociedade a mulher é a que mais sofre, e esse exílio do claustro é um como protesto, o convento de freiras, dizemos, tem incontestavelmente certa majestade.
Essa existência claustral, tão austera e melancólica, de que atrás indicámos alguns lineamentos, não é a vida, porque não é a liberdade; não é o túmulo, porque não é a plenitude; é o estranho lugar de onde, como do pináculo de uma elevada montanha, se descobre de um lado o abismo em que estamos, do outro o abismo em que havemos de estar; é uma fronteira estreita enevoada que separa dois mundos, por ambos alumiada e escurecida ao mesmo tempo, e em que o enfraquecido raio da vida se mistura com o raio vago da morte; é a penumbra do túmulo.