Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 310 de 359

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Os Miseráveis

XIX — Vingança de Jean Valjean

Nisto apareceu Jean Valjean, que estava envolvido no grupo dos insurgentes.

Saiu dele e disse a Enjolras:

— O senhor é que é o comandante?

— Sou.

— Há pouco dirigiu-me um agradecimento?

— Em nome da república. A barricada tem dois salvadores:

Mário Pontmercy e o senhor.

— Parece-lhe que mereço uma recompensa?

— Sem dúvida.

— Então tenho a pedir uma.

— Qual é?

— Ser eu quem abra o crânio a este homem.

Javert levantou a cabeça, viu Jean Valjean, fez um movimento imperceptível e disse:

— É justo.

Quanto a Enjolras, que se pusera a carregar a sua carabina, olhou à roda de si.

— Não há reclamação?

E voltando-se para Jean Valjean:

— Apodere-se do espião.

Jean Valjean, tomou posse, com efeito, de Javert, sentando-se na extremidade da mesa. Pegou na pistola e um pequeno estalido anunciou que a tinha armado.

Quase ao mesmo tempo ouviu-se um toque de corneta.

— Às armas! — gritou Mário do alto da barricada.

Javert pôs-se a rir com aquele riso surdo que lhe era próprio e fitando os insurgentes, disse-lhes:

— Não têm mais saúde do que eu.

— Tudo fora! — gritou Enjolras.

Os insurgentes correram em tumulto e, saindo da loja, receberam nas costas estas palavras de Javert:

— Até logo!

XIX — Vingança de Jean Valjean

Jean Valjean apenas se achou a sós com o prisioneiro, desatou a corda que o prendia pelo meio do corpo, e cujo nó fora dado por baixo da mesa. Depois disto fez-lhe sinal para que se levantasse.

Javert obedeceu, com o indefinível sorriso em que se condensa a supremacia da autoridade manietada.

Jean Valjean pegou em Javert pela corda, como quem seguraria uma besta de carga pelo cabresto e, puxando-o atrás de si, saiu da casa de pasto, lentamente, visto que Javert não podia dar grandes passos por ter as pernas presas.

Jean Valjean levava a pistola na mão.

Atravessaram deste modo o trapézio interior da barricada. Os insurgentes todos atentos ao ataque iminente, voltaram-lhe as costas.

Somente Mário, colocado na extremidade esquerda da barricada, os viu passar.

Aquele grupo do paciente e do algoz, iluminou-se-lhe com todo o clarão sepulcral que tinha na alma,

Jean Valjean fez Javert subir, com algum custo mas sem o largar um instante, a pequena barricada do beco Mondétour.

Depois de saltarem a trincheira acharam-se sós no beco. Ali já ninguém os via. O

cotovelo formado pelas casas ocultava-os aos insurgentes. A alguns passos estava o horrível montão de cadáveres tirados da barricada.

Dis nguiam-se no montão dos mortos uma face lívida, uns cabelos soltos, uma mão furada, e um seio de mulher meio nu. Era Eponina.

Javert olhou de revés para a morta, e, profundamente sossegado, disse a meia voz:

— Parece-me que conheço aquela rapariga.

Depois voltou-se para Jean Valjean.

Jean Valjean meteu a pistola debaixo do braço e fitou em Javert um olhar que não precisava de palavras para dizer:

— Javert, sou eu.

Javert respondeu:

— Desforra-te.

Jean Valjean tirou do bolso uma navalha e abriu-a.

— Uma navalha! — exclamou Javert. — Tens razão. É o que te convém.

Jean Valjean cortou-lhe a corda que nha ao pescoço, depois as que lhe: prendiam os punhos, em seguida baixou-se e cortou-lhe a que lhe atava os pés e, endireitando-se, disse-lhe:

— Estás livre,

Javert não se admirava facilmente. Contudo, apesar de estar senhor de si, não pôde subtrair-se a uma comoção.

Ficou imóvel e de boca aberta.

Jean Valjean prosseguiu:

— Eu não creio que possa sair daqui. Todavia, se por acaso sair, moro na rua do Homem Armado, número 7, sob o nome de Fauchelevent.

Javert teve uma contracção de gre, que lhe entreabriu um canto da boca e murmurou por entre dentes:

— Toma cuidado.

— Pode ir.

Javert continuou:

— Tu disseste, Fauchelevent, rua do Homem Armado?

— Número 7.

Javert repetiu a meia voz:

— Número 7.

Tornou a abotoar a sobrecasaca, res tuiu aos ombros a inflexibilidade militar, cruzou os braços, sustentando a barba numa das mãos, e começou a caminhar na direcção dos Mercados. Jean Valjean seguiu-o com a vista. Javert depois de dar alguns passos voltou-se para trás e gritou a Jean Valjean: