Os Miseráveis
XXI — Os heróis
A isto não há que dizer. Os povos têm, como os astros, o direito de eclipse. Tudo vai bem, contanto que a luz volte e que o eclipse não degenere em noite. Aurora e ressurreição são sinónimos. A reaparição da luz é idêntica à persistência do céu.
Registemos estes factos com serenidade. A morte na barricada, ou o túmulo no desterro, são, para a dedicação, casos aceitáveis. O verdadeiro nome da dedicação é desinteresse. Deixem-se abandonar os abandonados, desterrar os desterrados, e limitemo-nos a suplicar aos grandes povos, que quando recuem não recuem demasiadamente. É preciso que sobre pretexto de regresso à razão, se não avance demasiadamente na descida.
A matéria existe, o momento existe, os interesses existem, o estômago existe; mas é preciso que o estômago não seja a única sabedoria. A vida momentânea tem o seu direito, admi mo-lo, mas a vida permanente também tem o seu. Ah, estar em cima, não impede de cair! Vê-se isto na história mais do que para desejar.
Uma nação é ilustre; saboreia o ideal, depois morde o lobo e acha-lhe bom sabor; se lhe perguntam porque razão abandona Sócrates por Falstaf responde: Porque gosto dos homens de Estado.
Uma palavra ainda antes de voltar à refrega.
Uma batalha como a que estamos descrevendo, não é senão uma convulsão para o ideal. O progresso pesado e doen o tem trágicas epilepsias. A doença do progresso, a guerra civil, vemos nós de a encontrar em nosso caminho. É essa uma das fases fatais, ao mesmo tempo acto e entreacto do drama, cujo eixo é um réprobo social e cujo verdadeiro título é: O Progresso.
O Progresso!
Este grito que nos soltamos repe das: vezes é todo o nosso pensamento, e, no ponto a que chegámos deste drama, tendo a ideia que ele contém mais de uma provação porque passar, nos é talvez permi do, se não erguer o véu que a oculta, pelo menos deixá-la transparecer claramente.
O livro» que o leitor tem neste momento diante dos olhos, é, do princípio até ao fim, no todo e nos pormenores, quaisquer que sejam as intermitências, as excepções ou desfalecimentos, o caminhar do mal para o bem, do injusto para o justo, do falso para o verdadeiro, da noite para o dia, do ape te para a consciência, da podridão para a vida, da bes alidade para o raciocínio, do inferno para o céu, do nada para Deus. Ponto de partida: matéria; ponto de chegada: a alma. No começo, hidra; no fim, anjo.
XXI — Os heróis
De repente ouviu-se o tambor rufando à carga.
O ataque foi a tempestade. Na véspera a barricada atacada silenciosamente como por uma jibóia. Mas depois, à luz do dia, era de todo impossível a surpresa; além disso, tinha-se desmascarado a viva força, a artilharia começava a rugir. o exército precipitou-se sobre a barricada. A fúria tornara-se habilidade.
Uma potente coluna de infantaria de linha, cortada em intervalos iguais pela guarda nacional e municipal a pé e apoiada em massas compactas, que se sen am sem se verem, desembocou da rua a passo de carga, com o tambor rufando, a corneta soando, de baionetas cruzadas, com os sapadores na frente, imperturbável sob os projécteis, e caiu sobre a barricada com o peso de um aríete contra uma muralha.
A muralha resistiu.
Os insurgentes fizeram fogo impetuosamente. O reduto ante a escalada mostrou uma crina de relâmpagos; o assalto foi tão desesperado, que a barricada esteve por um instante inundada de assaltantes; mas sacudiu os soldados como o leão os cães, e não se cobriu de assaltantes senão como o rochedo de espuma, para tornar a aparecer após um instante, escarpada, negra e formidável.
A coluna, forçada a recuar, permaneceu cerrada na rua, a descoberto, mas terrível, e replicando ao reduto com medonhas descargas. Quem tenha presenciado um fogo de vistas, deve recordar-se do feixe formado por um cruzamento de raios, a que chamam ramalhete. Imagine-se esse ramalhete, não ver cal, mas horizontal, levando uma bala, um quarto, ou um biscainho na ponta de cada um dos seus jactos de fogo, e debulhando
a morte dos seus cachos de trovões. Por baixo estava a barricada.
A resolução era igual de ambos os lados. A bravura ali era quase bárbara e aliava-se uma espécie de ferocidade heróica, que começava pelo sacri cio próprio. Era a época em que um guarda nacional se ba a como um zuavo. A tropa queria acabar com aquilo; a insurreição queria lutar. A aceitação da agonia em plena mocidade e em plena saúde, transforma a intrepidez em frenesi. Cada um naquela refrega nha o engrandecimento da hora suprema. A rua juncou-se de cadáveres.
A barricada conservava numa das suas extremidades Enjolras, e na outra Mário..
Enjolras, que nha toda a barricada no cérebro, preservava-se e abrigava-se, três soldados caíram sucessivamente sob a seteira sem ao menos o terem visto; Mário comba a a peito descoberto. Fazia-se ponto de mira. Tinha mais de meio corpo fora da crista do reduto. Não é possível haver pródigo mais violento do que o cavalo que toma o freio nos dentes; não há homem mais medonho na acção do que um sonhador. Mário estava formidável e pensa vo. Conservava-se no meio da batalha como no meio de um sonho. Dir-se-ia ser um fantasma disparando uma espingarda.
Os cartuchos dos si ados iam-se-lhes acabando; os sarcasmos não. No turbilhão do sepulcro em que estavam, riam-se.
Courfeyrac estava com a cabeça descoberta.
— Que fizeste do chapéu? — perguntou-lhe Bossuet.
Courfeyrac respondeu:
— Acabaram por mo tirar da cabeça a tiros de peça.
Ou então diziam coisas altivas.
— É impossível compreenderem-se estes homens! — exclamava amargamente Feuilly (e citava-lhes os nomes, nomes conhecidos, até célebres, e alguns do antigo exército).
— Que nham prome do juntar-se-nos, jurado ajudar-nos e empenhado nisso a sua honra, que são nossos generais e que nos abandonam!
E Combeferre limitava-se a responder-lhe com grave sorriso:
— Há gente que observa as regras da honra como se observam as estrelas, de muito longe.
O interior da barricada estava de tal modo semeado de papéis e cartuchos, que parecia ter ali caído neve.
Os assaltantes nham por si o número, os insurgentes a posição. Estavam no alto de uma muralha e fulminavam à queima-roupa os soldados estrebuchando sobre os mortos e os feridos e embaraçados pela escarpa. Aquela pela escarpa. Aquela barricada, construída como estava e admiravelmente amparada pela parte de dentro., era com efeito uma das posições em que um punhado de homens contém uma legião. Contudo, a coluna de ataque aumentando sempre sob a chuva de balas, aproximava-se inexoravelmente, mas então a pouco e pouco, passo a passo, com firmeza; o exército apertava a barricada como a vara de um lagar.
Os assaltos tornavam-se sucessivos. O horror ia aumentando.
Então travou-se sobre aquele montão de pedras, naquela rua de Chanvrerie, uma luta digna de uma muralha de Tróia. Aqueles homens, macilentos, rotos, exaustos, que não comiam havia vinte e quatro horas, que não nham dormido, que só podiam a rar mais alguns ros, que apalpavam as algibeiras vazias de cartuchos, quase todos feridos, com a cabeça ou com o braço envolto num trapo enegrecido, tendo no fato buracos por onde corria sangue, apenas armados com más espingardas e Velhos sabres ferrugentos, tornavam-se Titãs. A barricada foi dez vezes inves da, assaltada e escalada, mas nunca tomada.
Para se fazer ideia de uma tal luta, dever-se-ia imaginar que nha pegado o fogo num montão de coragens terríveis e que se presenciava o incêndio.
Não era combate, era o interior de uma fornalha; as bocas ali respiravam chamas, os rostos eram extraordinários. A forma humana parecia então impossível, os combatentes flamejavam, e era monstruoso ver agitar no meio do fumo vermelho aquelas salamandras da refrega. Renunciamos à pintura das sucessivas e simultâneas cenas daquela grandiosa matança. Só a epopeia tem o direito de encher doze mil versos com uma batalha.
Ter-se-ia dito ser o inferno do bramanismo, o mais temível dos dezassete abismos, a que o Veda chama Floresta das Espadas.
Ba am-se corpo a corpo, passo a passo, à cu lada, a soco de longe, de perto, de alto, de baixo por toda a parte, do telhado do prédio, das janelas da taberna e das frestas da cave para onde alguns nham descido. Eram um contra sessenta. A fachada de Corinto, meio demolida, estava hedionda. A janela, picada pela metralha, perdera vidros e caixilhos e não era mais do que um buraco informe, tumultuosamente tapada com pedras de calçada. Bossuet, Feuilly, Courfeyrac e Joly foram mortos; Combeferre, atravessado por três baionetadas no momento em que levantava um soldado ferido, só teve tempo de olhar para o céu e expirar.
Mário não cessava de combater um instante, porém achava-se tão crivado de feridas, principalmente na cabeça, que ao ver-lhe o sangue que abundantemente lhe escorria pelo rosto, dir-se-ia que um lenço vermelho lho cobria.