Os Miseráveis
VI — O que prova talvez a inteligência de Boulatruelle
E talvez também sua mãe. Há coisas que fazem abrir os olhos aos mortos nos seus túmulos!
A sua respiração parecia uma espécie de estertor doloroso; os soluços apertavam-lhe a garganta, mas ela não ousava chorar, tal era o medo que nha da Thenardier, mesmo na sua ausência. Era sempre o seu costume afigurar-se que estava na presença de Thenardier.
Cose e, porém, daquele modo não podia andar muito, e por isso ia vagarosa-mente.
Debalde diminuía a duração das estações, caminhando entre uma e outra o maior espaço de tempo que podia; lembrava-se com angús a que levaria mais de uma hora a chegar assim a Mon ermeil, e que a Thenardier, portanto, lhe bateria, e esta angús a misturava-se com o susto de se ver sozinha de noite no meio do bosque. A pobre Cosette estava extenuada de cansaço e ainda não tinha saído da floresta.
Chegada ao pé de um velho castanheiro que conhecia, fez uma úl ma paragem, mais demorada que as outras, para se refazer bem de forças, e depois reuniu quantas nha, tornou a pegar no balde e pôs-se de novo a caminho corajosamente. A pobre criança, porém, não pôde sufocar tanto a sua angústia que não exclamasse:
— Oh, meu Deus! Meu Deus!
Neste momento, Cose e sen u que o balde já não lhe pesava, pois acabava de o agarrar pela asa, levantando-o vigorosamente, uma mão que lhe pareceu enorme.
A criança levantou a cabeça e viu caminhando ao lado dela, na escuridão, um vulto negro direito e de pé. Era um homem que viera por trás, mas que a criança não sen u vir, e que, sem lhe dirigir uma palavra, travara da asa do balde que ela levava.
Há instintos para todos os encontros da vida.
A criança não se assustou.
VI — O que prova talvez a inteligência de Boulatruelle
Na tarde daquele mesmo dia de Natal de 1823, um homem passeou durante muito tempo na parte mais deserta do boulevard do Hospital, em Paris. Este homem nha o ar de quem procura um alojamento e parecia parar de preferência em frente das casas mais modestas, situadas na extremidade arruinada do arrabalde Saint-Marceau.
Mais adiante se verá que este homem nha, efec vamente, alugado um quarto neste bairro isolado.
O homem de quem nos ocupamos, tanto no seu vestuário como em toda a sua pessoa, realizava o po do que pode chamar-se o mendigo de boa feição; a extrema miséria combinada com a extrema limpeza. É uma mistura bastante rara, que inspira aos corações inteligentes esse duplo respeito pelo que é pobre e ao mesmo tempo digno.
Este homem trazia um chapéu redondo muito velho e sem pêlo, um casacão de pano cor de ocre, cor que nada nha de extravagante naquele tempo, tão rapado que se lhe via o fio, um grande colete com bolsos de forma secular, calções que de negros se tornaram russos, meias de lã pretas e sapatos grossos com fivelas de cobre. Dir-se-ia um an go preceptor de alguma casa nobre, de volta de emigração. Os cabelos completamente brancos, a fronte enrugada, os lábios lívidos, o acabrunhamento e o cansaço da vida que respirava todo o seu rosto, faziam supor que nha muito mais de sessenta anos. Ao ver-lhe, porém, a firmeza do andar, ainda que vagaroso, ao ver o vigor singular de todos os seus movimentos, dar-se-lhe-iam apenas cinquenta. As rugas da fronte estavam bem colocadas e teriam prevenido em seu favor quem o observasse com atenção. Os lábios contraíam-se-lhe com uma estranha ruga, que parecia severa e que era humilde. No fundo do seu olhar havia certa serenidade lúgubre. Na mão esquerda trazia um embrulho escuro atado num lenço e com a direita apoiava-se numa espécie de cajado cortado numa sebe. Este cajado havia sido trabalhado com algum cuidado e não nha muito mau aspecto; o ar fice que o fizera rara par do dos nós, coroando-o com um castão de lacre vermelho, a fingir coral: era um cajado, mas parecia uma bengala.
É pequeno o trânsito naquele passeio, mormente de Inverno; contudo, o homem cujo retrato fizemos, mais parecia evitar, bem que sem afectação, do que procurar os poucos transeuntes que por ali passavam.
Naquela época ia o rei Luís XVIII quase todos os dias a Choisy-le-Roi. Era um dos seus passeios favoritos. As duas horas, quase invariavelmente, via-se passar a toda a brida pelo boulevard do Hospital a carruagem e a cavalgada real.
Isto servia de relógio aos pobres do sí o, que diziam: «São duas horas. Aí vai o rei outra vez para as Tulherias.»
E corriam uns e perfilavam-se os outros, porque a passagem de um rei é sempre um tumulto. com efeito, o aparecimento e desaparecimento de Luís XVIII, produzia certo efeito nas ruas de Paris. Era uma coisa rápida, mas majestosa. Aquele rei impo-tente e estropiado gostava de galopar; como não podia andar, queria correr, e de bom grado se deixaria arrastar pelo relâmpago. Passava severo e pacífico pelo meio dos sabres desembainhados, na sua berlinda maciça, toda dourada e com grandes ramos de lis pintados nas por nholas. Mal havia tempo de deitar um rápido olhar para aquele veículo rodando com estrondo. No ângulo do fundo, à direita, sobre almofadas acolchoadas de ce m branco, via-se uma cara larga, firme e vermelha, uma fronte viçosa empoada à ave real, uns olhos cheios de al vez, dureza e finura, um sorriso de letrado, duas grandes dragonas de cordões de retrós, flutuando por cima de uma casaca burguesa, o Tosão de Ouro, a cruz de S. Luís, a cruz da Legião de Honra, a chapa de prata do Espírito Santo, uma grande barriga e um largo cordão azul; era o rei.
Fora de Paris conservava o seu chapéu de plumas sobre os joelhos, cobertos de altas polainas inglesas; ao entrar, porém, na cidade, punha-o na cabeça, cumprimentando pouco. Luís XVIII olhava com frieza para o povo, que lhe pagava na mesma moeda.
Quando ele apareceu a primeira vez no bairro de Saint-Marceau, consis u todo o seu sucesso nesta frase dirigida por um morador do sí o a um seu vizinho: «Aquele gordo que ali vai é que é o governo.»
Esta infalível passagem do rei à mesma hora era, pois, o sucesso quo diano do boulevard do Hospital.
Evidentemente, o passeante de casacão amarelo não era do bairro, nem talvez de Paris, pois ignorava esta circunstância. Quando às duas horas, depois de ter dobrado a Salpêtrière, desembocou no boulevard a carruagem real, cercada por um esquadrão de guardas do corpo, agaloados de prata, aquele homem pareceu ficar maravilhado e quase aterrado. Apenas ele se achava na álea lateral; perfilou-se, pois, com ligeireza por trás de uma esquina da parede de circunvalação, o que não obstou a que o duque de Havre o
visse, o qual, como capitão dos guardas de serviço naquele dia, estava sentado na carruagem defronte do rei.
— Está ali um homem — disse ele a Sua Majestade que não tem lá muito boa cara.
Alguns agentes de polícia que abriam passagem ao rei, fizeram igualmente reparo nele e um deles recebeu ordem para o seguir, O homem, porém, embrenhou-se pelos becos solitários daquele sí o, e, como principiava a declinar o dia, o agente perdeu-lhe o rasto, como o prova um relatório dirigido nessa mesma noite ao conde de Angles, ministro de Estado, que era então o prefeito da polícia. Apenas o agente perdeu de vista o homem do casacão amarelo, este apressou o passo, não sem se virar muitas vezes para trás para se assegurar se era seguido. Às quatro horas e um quarto, isto é, ao cair da noite, passava em frente do teatro da porta de S. Martin onde nesse dia se representavam Os dois forçados.
Impressionou-o o cartaz, iluminado pelos lampiões do teatro, pois, posto que caminhasse depressa, parou para o ler. Um instante depois, estava no beco de La Planche e e entrava no Prato de estanho, onde ficava o escritório da diligência de Lagny, que par a às quatro horas e meia da tarde. Quando ele chegou já os cavalos estavam atrelados e os viajantes, chamados pelo cocheiro, trepavam a toda a pressa a escada de ferro que dava serventia para os assentos.
— Há algum lugar vago? — perguntou o homem.
— Há um único, aqui ao meu lado, neste assento — disse o cocheiro.
— Desejo ocupá-lo.
— Suba.
O cocheiro, porém, antes de par r, deitou um olhar para o medíocre vestuário do viajante e para a pequenez do seu embrulho e exigiu o dinheiro adiantado.
— Vai até Lagny?
— Vou — disse o homem.
O viajante pagou, portanto, até Lagny e a diligência partiu.
Passada a barreira, o cocheiro tentou travar conversa com o viajante, mas como este apenas respondia por monossílabos, o cocheiro tomou o expediente de assobiar e praguejar aos cavalos e embuçar-se no seu capote por causa do frio que fazia. Parecia, porém, que o viajante nem de tal coisa se lembrava. Assim se passou Guarnay e Neuilly-sur-Marne.