Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 316 de 359

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Os Miseráveis

I — A terra empobrecida pelo mar

executado por Jean Valjean como no meio de um delírio, isto é, com força de gigante e agilidade de gre; todos estes movimentos veram lugar apenas no curto espaço de alguns minutos.

Jean Valjean achou-se, com Mário sempre desmaiado, numa espécie de comprido corredor subterrâneo, onde tudo era silêncio absoluto, paz profunda e completa escuridão.

A impressão que ele, outrora, experimentara ao cair da rua no convento, renovou-selhe então. Com a diferença, porém, de que então era para salvar Cose e e agora era para salvar Mário.

Naquela ocasião, mal ouvia por cima de si, como um vago murmúrio, o temeroso tumulto da casa de pasto, que a tropa acabava de tomar de assalto.

LIVRO SEGUNDO — O INTESTINO DE LEVIATHAN

I — A terra empobrecida pelo mar

Paris lança anualmente vinte e cinco milhões à água. Não é metáfora. Como e por que modo? De dia e de noite. Com que fim? Sem fim nenhum. Com que pensamento? Sem em tal pensar. Para quê? Para nada,. Por meio de que órgão? Por meio do seu intes no.

Qual é o seu intestino? São os seus canos de esgoto.

Vinte e cinco milhões é ainda a mais moderada das cifras aproxima vas apresentadas pelas avaliações da ciência especial.

A ciência, depois de ter por muito tempo andado às apalpadelas, sabe hoje que o mais fecundante e eficaz adubo é o excremento humano. Antes de nós, digamo-lo para nossa vergonha, já os chins o sabiam. Não há um só aldeão chinês — diz Eckeberg — que, ao voltar da cidade, não traga pendurados das pontas do seu bambu dois baldes cheios do que nós chamamos imundícies. Actualmente, a terra na China é ainda tão nova como no tempo de Abraão, e isto é devido ao excremento humano. O trigo chinês produz cento e vinte por um.

Não há guano comparável ao excremento de uma capital.

Uma grande cidade é o mais rico dos esterquilínios.

Empregar a cidade em fer lizar o campo seria uma óp ma empresa. Se o nosso ouro é esterco, em compensação o nosso esterco é ouro, Que se faz deste ouro-esterco? A ra-se ao abismo.

Gastam-se somas consideráveis para mandar ao pólo austral flo lhas de navios com o fim de recolherem o excremento dos pinguins e outros pássaros, e deita-se ao mar o incalculável elemento de opulência, de que tão fácil fora rar proveito. Todo o excremento humano e animal, perdido pelo mundo, se fosse lançado à terra, em vez de ser lançado à água, bastaria para a alimentar.

Esses montes de lixo que se vêem pelas ruas, essas carroças de lama que de noite se ouvem rodar, essas sujas pipas da limpeza pública, esses fé dos escoamentos de lama subterrânea que a calçada nos encobre, sabeis o que são? É o prado coberto de flores, a erva verdejante, o serpão, o rosmaninho e a salva; é a caça, o gado. O alegre mugido dos bois ao recolher do pasto; é o feno odorífero, é o trigo dourado, é o pão da vossa mesa, é o sangue quente das vossas veias, é a saúde, a alegria, a vida. Assim o quer essa misteriosa criação, que é transformação na terra e transfiguração no céu.

Passai isto pelo grande cadinho, vereis sair dele a vossa abundância. A nutrição. A nutrição das plantas produz o sustento dos homens.

Podeis, porém, desaproveitar essa riqueza, se vos aprouver, e até chamar-me ridículo, ainda por cima. Será a prova mais plena da vossa ignorância.

Está calculado pela esta s ca que só a França lança ao Atlân co, pela boca dos seus rios, quinhentos milhões.

Notem bem: com estes quinhentos milhões pagar-se-ia a quarta parte das despesas do orçamento. Porém a habilidade do homem é tanta, que ele antes quer deixar perder esses quinhentos milhões, que a água sorve. É a própria substância do povo que leva aos rios e ao Oceano, aqui gota a gota; acolá em ondas, o miserável vómito dos nossos canos

e o vómito gigantesco dos nossos rios. Cada golfada das nossas cloacas custa-nos mil francos. O que dá dois resultados: a terra empobrecida e a água empestada. A fome a sair do campo e do rio a doença.

É notório, por exemplo, como o Tamisa, actualmente, está envenenando Londres.

Pelo que diz respeito a Paris, não: vai longe a época em que veram de mudar a maior parte das embocaduras dos canos para diante da última ponte.

Um duplo aparelho tubular, munido de válvulas e êmbolos, aspirante e premente, um sistema de drenagem elementar, simples como o pulmão do homem, e que já sa sfatoriamente funciona em muitas comunas de Inglaterra, bastaria para trazer às nossas cidades a água pura dos campos e enviar para estes a água fer lizadora das cidades, de modo que este fácil vaivém, o mais simples que se pode imaginar, reteria em nosso poder os quinhentos milhões que deitamos fora. Para outras coisas, porém, se voltam as atenções.

O processo actual é mau, pretendendo ser bom. É boa a intenção, porém triste o resultado, julga-se purificar a cidade e debilita-se a população; um cano de despejo é um engano. Quando a drenagem, com a sua dupla função de res tuir o que recebe, ver por toda a parte subs tuído o esgoto, simples lavagem, que só debilita, então, combinado isto com os dados de uma nova economia social, o produto da terra será o décuplo do actual e o problema da miséria será singularmente atenuado. Juntai-lhe a supressão do parasitismo e tê-lo-eis resolvido.

Entretanto, a riqueza pública deita-se ao rio, em virtude desse mau sistema actualmente seguido; que só parece ter por fim a ruína da Europa.

Quanto à França, acabamos de dizer o que ela perde. Como Paris, porém, contém a vigésima quinta parte da total população de França e o guano parisiense é o mais fecundante de todos, ainda ficamos aquém da verdade, avaliando em vinte e cinco milhões a parte da perda que pertence a Paris nos quinhentos milhões que a França anualmente deita fora. Estes vinte e cinco milhões, empregados em socorros e conforto, duplicariam o esplendor de Paris. A cidade gasta-os em cloacas. De modo que se pode dizer que a grande prodigalidade de Paris, a sua maravilhosa festa, a sua loucura Beaujon, a sua orgia, o seu ouro espalhado às mãos cheias, o seu fausto, o seu luxo, a sua magnificência, são os seus canos.

Assim é que, na cegueira de uma má economia polí ca, se deita fora e se deixa ir pela água abaixo precipitar-se na voragem, a prosperidade: geral. Convinha que houvesse redes de Saint-Cloud para a fortuna pública.

Economicamente, o facto pode resumir-se assim: Paris. É um cesto roto.

Paris, a cidade modelo, protó po das capitais bem organizadas, de que cada povo procura ter uma cópia, metrópole do ideal, pátria augusta da inicia va, do impulso e da tenta va, centro e lugar dos espíritos, cidade-nação, colmeia do futuro, composto maravilhoso de Babilónia e Corinto; Paris, que é tudo isto, no ponto de vista que acabamos de assinalar, faria encolher os ombros a qualquer camponês de Fo-Kian. Imitai Paris e ficareis arruinados.