Os Miseráveis
III — Bruneseau
A ingenuidade refugiou-se ali. Ali se encontra a máscara de Basílio., mas vê-se-lhe o papelão, e os a lhos, o interior e o exterior, e é acentuada por uma lama honesta. Fica-lhe ao pé o nariz pos ço de Scapin. Todas as sujidades da civilização, uma vez fora de serviço, caem nesta cova da verdade, onde vem ter o imenso despenho social. Aí se abismam, porém, sem se ocultarem. Esta confusão é uma confissão. Ali se acabam as falsas aparências, os disfarces, a imundície ra: a camisa, nudez completa, termo das ilusões e das miragens, mais nada do que aquilo que realmente existe, fazendo a sinistra figura daquilo que acaba,. Realidade e desaparição. Ali um fundo de garrafa acusa a embriaguez, a asa de um cesto descobre a domes cidade; ali o caroço de maçã, que teve opiniões literárias, torna-se o caroço de maçã; a e gie da moeda de cobre reveste-se francamente de verdete; o escarro de Caifaz encontra o vómito de Falstaff; o luís de ouro
que sai da casa de jogo bate no: prego, de que pende o fragmento de corda do suicida; um feto lívido rola envolto nas lantejoulas, que no findo Carnaval dançaram nos bailes da Ópera, uma gorra que julgou homens se acha ao lado de um objecto podre, que foi a saia de Margoton; tudo isto é mais do que fraternidade, é tratamento de tu, O que era arrebique mudou-se em farruscas. O úl mo véu é arrancado Um encanamento é um cínico. Diz tudo.
Esta sinceridade da imundície tem de bom O repousar a alma. Quem passar o tempo a sofrer na terra o espectáculo dos ares imperiosos que toma a razão de estado. O
juramento, a sabedoria polí ca, a jus ça humana, as probidades profissionais, as austeridades de situação, as togas incorrup veis, sente-se aliviado ao entrar num encanamento e ver nele a lama que lhe convém.
Isto, ao mesmo tempo, ensina, Como mais acima dissemos, a história passa pela cloaca. Os S. Bartolomeus ali se infiltram gota a gota por entre as pedras. Os grandes assassínios públicos, as carnificinas polí cas e religiosas atravessam este subterrâneo da civilização e ali lançam os seus cadáveres. Para o olhar do pensador, todos os assassínios históricos ali se acham na penumbra hedionda, de joelhos, com um bocado do seu sudário como avental, passando lugubremente a esponja sobre a sua obra. Ali se acha Luís XI com Tristão, Francisco I, com Duprat, Carlos IX com sua mãe, Richelieu com Luís XIII e Louvoir, Letellier, Hebert e Maillard, raspando as pedras e procurando fazer desaparecer os ves gios das suas acções. Ouve-se debaixo daquelas abóbadas o sussurro que fazem aqueles espectros com as suas vassouras. Respira-se ali o fé do enorme das catástrofes sociais. Vêem-se aos cantos reflexos avermelhados. Corre ali uma água em que se lavaram, mãos ensanguentadas.
O observador social deve entrar nestas trevas, pois fazem parte do seu laboratório. A filosofia é o microscópio do pensamento. Tudo lhe quer fugir, mas nada lhe escapa. É
inú l tergiversar. Que lado de nós mesmos mostramos tergiversando? O lado vergonha.
A filosofia persegue com o seu olhar probo O mal e não o deixa fugir para o nada. No esvaecimento das coisas que desaparecem, na diminuição das que se perdem de vista, ela reconhece tudo. Reconstrói a púrpura por meio do farrapo e a mulher por meio de um fragmento de vestido. Com a cloaca refaz a cidade, com o lixo os costumes.
Ao ver o caco, daí conclui se foi ânfora, se foi jarro. Reconhece por uma unhada impressa num pergaminho, a diferença que separa a judiaria da Judengasse da do ghe o, Encontra no que resta o que já exis u, o bem, o mal, o falso, o verdadeiro, a mancha de sangue do palácio, o borrão de nta da caverna, o pingo de sebo do lupanar, as provações, as tentações bem acolhidas, as orgias vomitadas, a dobra feita pelos caracteres ao aviltarem-se, o ves gio da pros tuição nas almas que a sua própria grosseria predispunha para ela e nas vestes dos moços de fretes de Roma o sinal da cotovelada de Messalina.
III — Bruneseau Na Idade-Média, os canos de Paris eram legendários. No século XVI, tentou Henrique II uma sondagem, que abortou. Há menos de cem anos, segundo atesta Mercier, a cloaca da grande capital achava-se completamente abandonada e entregue a si mesma.
Tal era o an go Paris, presa dos tumultos, das indecisões e dúvidas. Por muito tempo jazeu na maior estupidez. Mais tarde, 89 mostrou como as cidades recuperam a inteligência. Porém, no bom tempo an go, a inteligência da capital não era grande; não sabia curar dos seus negócios, nem moral nem materialmente, e tanta inap dão nha para varrer o lixo como os abusos. Tudo eram obstáculos e questões. Os canos, por exemplo, eram refractários a qualquer i nerário. Tão di cil era a qualquer orientar-se no encanamento como entender-se na cidade: em cima O ininteligível, em baixo o inextricável; por baixo da confusão das línguas ficava; a confusão dos subterrâneos; era Dédalo— sustentando Babel.
Às vezes, os canos de Paris entravam a trasbordar, como se aquele desprezado Nilo subitamente se encolerizasse, causando, coisa vergonhosa, inundações de lixo. Se aquele estômago da civilização digeria mal, a cloaca refluía à garganta da cidade e Paris nha o ressaibo da sua lama. Estas semelhanças da cloaca com o remorso nham sua conveniência; eram avisos, avisos, porém, em extremo mal acolhidos; a cidade indignava-se que o seu lixo tivesse tanta audácia e não admitia que ele voltasse.
Expelia-o melhor.
A inundação de 1802, é uma das recordações actuais dos parisienses octogenários. A lama espalhou-se em cruz pela praça das Vitórias, onde está a estátua de Luís XIV; entrou na rua de Santo Honorato pelos dois boeiros dos Campos Elíseos, na rua de S. Floren ne pelo cano de S, Floren ne, na rua de Pierre-à-Poisson pelo cano da Sonnerie, na rua de Popincourt pelo cano do Caminho Verde, na da Roque e pelo cano da rua de Lappe; cobriu as pedras do centro dos Campos Elíseos até uma altura de trinta e cinco cen metros; e ao sul, pelo vomitório do Sena, fazendo a sua função em sen do inverso, penetrou na rua Mazarina, na do Escaldado e na do Marais, onde parou numa extensão de novecentos metros; justamente a alguns passos da casa onde morara Racine, respeitando no século XVII o poeta mais do que o rei. A ngiu a sua maior altura na rua de S. Pedro, onde se elevou três pés acima das lajes da bica, e a sua máxima extensão na rua de S. Sabino, onde se dilatou por uma superfície de duzentos e trinta e oito metros.