Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 321 de 359

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Os Miseráveis

VI — Progresso futuro

V — Progresso actual

Hoje o esgoto é limpo, severo, direito. e correcto. Realiza quase o ideal do que em

Inglaterra se entende pela palavra «respeitável». É decente, pardacento e alinhado; poder-se-ia quase dizer, es cado com alfinetes. Assemelha-se a um merceeiro feito ministro de estado. Na cloaca de hoje vê-se quase claro; a imundície porta-se decentemente. À primeira vista tomar-se-ia por um dos corredores subterrâneos tão comuns noutro tempo e tão úteis naquelas fugas dos monarcas e dos príncipes; naquele bom tempo «em que o povo amava os seus reis». A cloaca actual tem beleza; ali reina o es lo puro, o clássico alexandrino rec líneo que, expulso da poesia, parece ter-se refugiado na arquitectura, patenteia-se em todas as pedras da comprida abóbada tenebrosa e esbranquiçada; cada saída é uma arcada; a rua de Rivoli é modelo até na cloaca. No fim de tudo, se a linha geométrica está em alguma parte no seu lugar é, decerto, no fosso estercorário de uma grande cidade. Ali tudo deve estar subordinado ao caminho mais curto. O cano de despejo tem assumido hoje certo aspecto oficial. As próprias informações da polícia de que ele é por vezes objecto, já lhe não faltam ao respeito. As palavras que o caracterizam na linguagem administra va são elevadas e dignas. Ao que chamavam tripa, chamam galeria; ao que chamavam buraco, chamam olho. Vilon não reconheceria já a sua habitação acidental. Esta rede de subterrâneos con nua a ter a sua imemorial população de roedores, mais pululante do que nunca; de tempos a tempos, um rato já pelado, arrisca-se a mostrar a cabeça à janela do cano, e examina os parisienses; mas os mesmos ratos se domes cam, sa sfeitos como estão, com o seu palácio subterrâneo. A cloaca já não tem nada da sua ferocidade primi va. A chuva que sujava os canos de outro tempo lava os canos de hoje. Contudo, não vos fieis nisso. Os miasmas habitam ainda neles. São mais hipócritas do que irrepreensíveis. A prefeitura de polícia e O conselho de saúde debalde se têm afadigado. A despeito de todos os aperfeiçoamentos na salubridade exalam um cheiro vago e suspeito como Tartufo depois da confissão.

É necessário convir que, como afinal a limpeza é um serviço que a cloaca presta à civilização e como por este modo de ver, a consciência de Tartufo é um progresso sobre a pocilga de Augias, é fora de dúvida que a cloaca de Paris tem melhorado.

É mais do que o progresso; uma transmutação. Entre a cloaca an ga e a cloaca actual há uma revolução.

Quem fez essa revolução?

Um homem de quem toda a gente se esqueceu e que nós nomeámos — Bruneseau.

VI — Progresso futuro

A construção da cloaca de Paris não foi pequena tarefa. Nela trabalharam os dez séculos úl mos sem conseguir terminá-la, como não conseguiram terminar Paris. A cloaca, efec vamente, recebe todas as repercussões do aumento de Paris. É uma espécie de pólipo terrestre, tenebroso e dotado de mil antenas, que cresce em baixo, ao mesmo tempo que a cidade cresce em cima. Todas as vezes que a cidade abre uma rua, a cloaca estende um braço, A an ga monarquia apenas construíra, vinte e três mil e trezentos metros de encanamento; eis quantos Paris contava no 1.º de Janeiro de 1806. Dessa época, de que logo tornaremos a falar, por diante, a obra foi proveitosa e energicamente con nuada; Napoleão construiu (são curiosos estes números) quatro mil e oitocentos e

quatro metros; Luís XVIII cinco mil e setecentos e nove; Carlos X dez mil e oitocentos e trinta e seis; Luís Filipe oitenta e nove mil e vinte; a república de 1848 vinte e três mil trezentos e oitenta e um; o regime actual setenta mil e quinhentos, ao todo, na actualidade, duzentos e vinte e seis mil e dez; sessenta léguas de canos; entranhas enormes de Paris. Ramificação obscura sempre crescente; construção ignorada e imensa»

Como se vê, o dédalo subterrâneo de Paris é hoje mais do décuplo do que era no princípio deste século. É impossível imaginar todos os esforços e perseverança que foi necessário empregar para levar este encanamento ao ponto de perfeição» rela va em que actualmente se acha. Só a muito custo conseguira o prebostado monárquico, e nos dez úl mos anos do século XVIII, a mairie revolucionária, abrir as cinco léguas de canos, que antes de 1806 exis am,. Embaraços de toda a espécie dificultavam esta operação, uns par culares à natureza do solo, outros inerentes aos próprios preconceitos da população laboriosa de Paris. Paris acha-se edificado sobre um terreno estranhamente rebelde ao alvião, à enxada, à picareta, ao manuseamento humano. É impossível haver coisa mais di cil de abrir e penetrar do que essa formação geológica, à qual se sobrepõe a maravilhosa formação histórica, chamada Paris; desde que, debaixo de qualquer forma, o trabalho entra e se aventura nessa camada de aluviões, abundam as resistências subterrâneas. Não se encontram senão argilas líquidas, águas na vas, rochas duras, e essa qualidade de lodo mole e profundo, que a ciência denomina mostarda.

A picareta avança a custo «em camadas calcárias, alternadas com filetes de greda, extremamente delgados, e com camadas chistosas, que se apresentam em folhas incrustadas de cascas de ostras, coevas dos oceanos pré-adamitas. Às vezes, rebenta repen namente uma corrente de água de cima de uma abóbada em princípio e deita-a por terra, alagando, ao mesmo tempo, os trabalhadores; outras vezes, é uma torrente de mame que rebenta, precipitando-se com a fúria de uma catarata e quebrando como vidro as mais grossas vigas do escoramento.

Ainda não há muito que na Ville e, quando foi necessário fazer passar o canomestre por baixo do canal de S. Mar nho, sem o escoar nem interromper a navegação, a água, penetrando por uma fenda que se abriu no leito do canal, irrompeu tão abundantemente pela galeria subterrânea, que as bombas de esgoto foram insuficientes a dar-lhe vazão. Foi necessário um mergulhador ir tapar a fenda, que era à entrada da bacia grande, o que não custou pouco. Noutros sí os, próximos ao Sena, e mesmo afastados dele, como, por exemplo, em Belleville, Grande Rue e Passage Lunier, encontram-se areais sem fundo, em que se pode internar e desaparecer um homem.

Ajuntai a isto a asfixia pelos miasmas, o perigo dos desabamentos e repen nos aluimentos. Ajuntai o fo de que os trabalhadores lentamente se vão impregnando. É

dos nossos dias o facto seguinte: depois de ter aberto a galeria de Clichy com baqueta para receber um cano-mestre de água do Ourcq, trabalho executado a dez metros abaixo do solo; depois de ter, por entre desabamentos, por meio de escavações, muitas vezes pútridas, e de escoramentos, abobadado a Bievre desde o boulevard do Hospital até ao Sena; depois de ter, para livrar Paris das águas torrenciais de Montmartre e dar vazão ao pântano fluvial de nove hectares que se estendia junto da barreira dos Már res; depois

de ter, dizemos, construído a linha de canos que vai da barreira Branca até ao caminho de Aubervilliers dentro de quatro meses, de dia e de noite, a uma profundidade de onze metros; depois de ter, coisa que ainda se não havia visto, feito subterraneamente um cano na, rua de Barre-du-Bec, seis metros abaixo do solo; o director Monnot morreu.

Depois de ter abobadado» três mil metros de encanamento em todos os pontos da cidade, desde a rua Traversiere-Saint-Antoine até à de Lourcine; depois de ter, pela ramificação da Arbalete, dado vazão às inundações fluviais do largo de Censier-Mouffe ard; depois de ter construído O cano de S. Jorge, sobre rocha e argamassa, em areias fluidas; depois de ter, dirigido o temível abaixamento da grade de junção de Nossa Senhora de Nazaré, o engenheiro Duleau morreu. Para estes actos de bravura não há bole m, apesar da sua u lidade, que é maior, por certo, do que a da carnificina dos campos de batalha.

Em 1832, os canos de Paris achavam-se muito longe de ser o que hoje são. Bruneseau dera o impulso, mas, era necessário que viesse a cólera para determinar a vasta reconstrução que depois teve lugar. Parecerá incrível, por exemplo, que em 1821, parte do cano-mestre, chamado Canal Grande, como em Veneza, se conservasse ainda por entulhar na rua de Gourdes. Só em, 1823 é que a cidade de Paris encontrou no bolso os duzentos e sessenta e seis mil e oitenta francos e seis cên mos, necessários para cobrir aquela imundície. Os três poços absorventes do Combate, da Cunne e e de Saint Mande, com os seus escoadouros, aparelhos e canos depuratórios, datam apenas de 1836. O encanamento de Paris foi reconstruído, e, como já dissemos, cresceu dez vezes mais há um quarto de século a esta parte.

Há trinta anos, na época da insurreição de 5 a 6 de Junho de 1832, quase exis a ainda em muitos sí os o an go sistema de canos. Um grande número de ruas, hoje abauladas, eram então calçadas em plano inclinado para o centro. Viam-se com muita frequência, no ponto declive onde terminavam as vertentes de uma rua ou de um largo, grandes grades quadradas, formadas por grossos varões, cujo ferro luzia à força de ser polido pelos pés da mul dão, sí os escorregadios e perigosos para as carruagens, cujos cavalos as grades faziam cair.

Em 1832, ainda a an ga cloaca gó ca mostrava cinicamente as suas goelas num sem-número de ruas, tais como na da Estrela, S. Luís, Templo, velha do Templo, Nossa Senhora de Nazaré, Folie-Mirecourt, cais das Flores, rua do Pe t-Musc, Normandia, Pont-aux-Bichees, arrabalde de S. Mar nho, a de Nossa Senhora das Vitórias, arrabalde de Montmartre, rua Grange-Batelière, Campos Elíseos, rua Jacob, rua do Tournon. Eram enormes aberturas de pedra, em forma de abóbada, às vezes cercadas de pilares e sempre monumentalmente descaradas.

Em 1806, a extensão do encanamento de Paris era quase a mesma que abrangia em Maio de 1663, isto é, cinco mil trezentos e vinte e oito toesas. No 1.º de Janeiro de 1832, depois dos aumentos feitos por Bruneseau, a extensão do encanamento era de quarenta mil e trezentos metros. Desde 1806 a 1831, foram construídos anualmente, termo médio, setecentos e cinquenta metros; desde então por diante, construíram-se cada ano oito e mesmo dez mil metros de galerias, formadas de pequenas pedras cimentadas com cal

hidráulica e alicerçadas sobre argamassa. A duzentos francos cada metro, representam, portanto, quarenta e oito milhões as sessenta léguas do actual encanamento de Paris.

Além do progresso económico de que no princípio fizemos menção, graves problemas de higiene pública se acham ligados a esta imensa questão do encanamento de Paris.

Paris está entre duas camadas — uma de água, outra de ar. A primeira, que jaz a uma grande profundidade subterrânea, mas que já foi explorada por duas perfurações, é fornecida pela camada de grés verde, situada entre a greda e o calcário jurássico; nesta camada, que pode ser representada por um disco de vinte e cinco léguas de raio, filtram-se um sem-número de rios e regatos; num copo de água do poço de Grenelle bebemos o Sena, o Marne, o Yonne, o Oise, o Aisne, o Cher, o Vienne e o Loire. A camada de água é salubre; primeiro vem do céu, depois da terra; a camada de ar é morbífica, porque vem do encanamento... Todos os miasmas da cloaca se misturam com a respiração da cidade; daí o seu mau hálito. O ar tomado por cima de uma esterqueira está provado cien ficamente — é mais puro do que o ar que se respira por cima de Paris. Tempo virá, porém, em que, com o auxílio do progresso e de mais perfeitos aparelhos, em que, com o aumento dos conhecimentos, se empregará a camada de água a purificar a camada de ar — queremos dizer a lavar o encanamento. Sabe-se que, por lavagem do encanamento, entendemos res tuição da lama à terra; devolvimento do lixo ao solo e do adubo aos campos. Bastará este simples facto para, em bene cio de toda a comunidade social, produzir a diminuição da miséria e o aumento da saúde. No momento em que falamos, a irradiação das doenças de Paris estende-se a cinquenta léguas em volta do Louvre, tomando como centro desta roda pestífera.