Os Miseráveis
II — Onde Mário após a guerra civil, se prepara para a guerra doméstica
Apenas o avistou logo o perdeu de vista.
O homem entrou, ou antes, deixou-se escorregar por uma clareira muito afastada e mascarada por grandes árvores, mas que Boulatruelle conhecia muito bem por ali ter estado junto de um grande montão de pedras, ao pé de um castanheiro doente e tratado com uma chapa de zinco pregada mesmo na cor ça. Esta clareira era a que noutro tempo se dominara terra Blaru. O montão de pedras, des nado não se sabia para que fim, e que ali estava havia trinta anos, existe talvez ainda hoje. Não há nada que seja igual à longevidade de um montão de pedras como um tapume de tábuas.
Qualquer das coisas é provisória. Que razão para durar!
Boulatruelle, com a rapidez da alegria, desceu, ou antes, a rou consigo da árvore abaixo.
Estava descoberto o covil, só faltava agarrar o animal.
O famoso tesouro sonhado estava provavelmente ali.
Não era contudo empresa de pouca monta o chegar à tal clareira. Pelos caminhos ba dos, que descrevem ziguezagues, era preciso um bom quarto de hora. Em linha recta, pelo mato, que é ali singularmente espesso, espinhoso e agressivo, era precisa avantajada meia hora.
Foi o que Boulatruelle fez muito mal em não compreender. Acreditou na linha recta; respeitável ilusão de óptica, mas que ocasiona a perda de muitos homens.
A mata, apesar de extremamente eriçada, parecera-lhe o melhor caminho.
— Nada, vamos pela rua de Rivoli dos Lobos — disse ele. Boulatruelle, acostumado a andar de través, cometeu desta vez o erro de andar direito.
Teve de se haver com os azevinhos, com as ur gas, com os pilriteiros, com as roseiras bravas, com os cardos e com toda a espécie de raízes em extremo irascíveis.
Ficou portanto suficientemente arranhado.
Na base do outeiro deparou-se-lhe um pântano, que teve de atravessar.
Chegou enfim à clareira Blaru, mas no fim de quarenta minutos, escorrendo suor, encharcado, esbaforido, arranhado e feroz.
Na clareira não estava vivalma.
Boulatruelle foi logo direito ao montão de pedras, estava no mesmo lugar.
Não o tinham mudado.
Quanto ao homem, porém, não foi capaz de o descobrir. Sumira-se. Por onde? Para que lado? Porque azinhaga? Impossível era adivinhá-lo.
Para cúmulo de angús a, entre a árvore que nha a chapa de zinco e o monte de pedras, avistou Boulatruelle uma pouca de terra movida ide fresco, uma pá esquecida ou abandonada e uma cova.
A cova estava vazia.
— Ladrão! — bradou ele, levantando para o ar os punhos cerrados.
II — Onde Mário após a guerra civil, se prepara para a guerra doméstica Durante muito tempo, Mário nem se podia dizer vivo nem morto. Por espaço de algumas semanas, lutou com uma febre acompanhada de delírios e de gravíssimos sintomas cerebrais, produzidos antes pelas comoções das feridas do que por elas próprias.
Durante noites inteiras, repe a sem cessar o nome de Cose e na lúgubre loquacidade da febre e com a sombria per nácia da agonia. A profundidade de algumas das feridas tornavam-se perigosíssimas, por isso que podia recolher-se a supuração, dando assim origem à morte do enfermo, sob certas influências atmosféricas; a cada mudança de tempo, à menor tempestade, o médico assustava-se.
— Deve haver, sobretudo, o maior cuidado em evitar ao enfermo qualquer abalo —
repetia ele.
O cura vo era complicado e di cil, por isso que, naquela época, ainda não estava em uso o encerado como meio de fixar os aparelhos e panos. Nicole e desfez em fios um lençol «que cobria o tecto de uma casa», dizia ela. A força de lavatórios com dissoluções de cloreto e nitrato de prata, conseguiram evitar a gangrena. Enquanto Mário esteve em perigo, Gillenormand não lhe desamparou a cabeceira do leito, apesar do seu estado, que não era menos perigoso do que o do neto.
Todos os dias — e algumas ocasiões duas vezes ao dia — vinha saber do ferido um sujeito de cabelos brancos e bem trajado — tais eram os sinais dados pelo porteiro —
que se ia embora, deixando sempre um grande pacote de fios para curativo do enfermo.
Finalmente, a 7 de Setembro, quatro meses depois da dolorosa noite em que o trouxeram moribundo para casa de seu avô, o médico declarou que estava salvo.
Principiou então a convalescença.
Mário, porém, ainda teve de passar mais de dois meses sentado numa cadeira de braços, em virtude dos estragos causados pela fractura da clavícula. Dá-se sempre este caso de uma úl ma ferida que não quer fechar, eternizando os cura vos com grande tédio do enfermo.
Esta longa doença, porém, e a demorada convalescença que se lhe seguiu, salvaram-no das mãos dos esbirros. Em França, não há cólera, mesmo pública, que não morra de inanição aos seis meses. As revoltas, no estado em que se acha a sociedade, são por tal modo devidas a todos que, depois delas, vem sempre a necessidade de fechar os olhos.
Acrescentaremos que o inqualificável édito do prefeito Gisquet, em que se ordenava aos médicos que denunciassem os feridos, indignou tanto a opinião pública, e não só esta, mas o próprio rei, que os feridos foram protegidos por esta indignação, e, à excepção dos que nham sido apanhados com as armas na mão, os conselhos de guerra não ousaram inquietar mais ninguém.
Desta maneira, pois, Mário nada teve a sofrer por este lado.
Gillenormand, depois de ter passado por toda a espécie de angús as, experimentou toda a qualidade de êxtases.
Foi necessário empregar os maiores esforços para o dissuadir de passar as noites velando o ferido; mandou ir para junto da cama de Mário, a sua cadeira de braços; exigiu que a filha empregasse o pano mais fino que houvesse em casa nas compressas e ligaduras.
A filha, porém, como pessoa experiente e boa dona de casa, conseguiu poupar o pano fino, fazendo crer ao ancião que era obedecido.
Gillenormand não permi u que lhe explicassem a superioridade do linho grosso sobre a cambraia para fazer fios nem do linho velho sobre o linho novo.
Era ele que assistia a todos os curativos, de que a filha pudicamente se ausentava, Quando o médico cortava a carne podre com uma tesoura, dizia:
— Ai! Ai!
Era, realmente, uma cena tocante vê-lo apresentar ao ferido uma chávena de sana com o seu brando tremor senil.
Estava sempre a fazer perguntas ao médico, sem reparar que às vezes perguntava aquilo a que já tinha recebido resposta.
No dia em que o médico lhe anunciou que Mário estava livre de perigo, o pobre velho cuidou endoidecer.
Deu três luíses de gra ficação ao porteiro, e à noite, ao recolher-se para o quarto, dançou uma gavota, tocando castanholas com os dedos, e cantou a: seguinte canção: Em um ninho de pastora
Da Fougére encantadora
Vive a linda Joaninha,
Como vive a andorinha
Quando brinca pela praia.
Eu adoro a curta saia
Que ela traz arregaçada
Na cintura delicada;
O avental, a branca touca.
Que a cabeça me traz louca.
Eu sinto na alma um prurido Que... Ah! Se eu fora Cupido
E d’amor tivera a aljava,
Duas setas nesse peito
Com certeza te enterrava!
Depois
Na ermida,
Os dois
Ó querida...
Trá, lá, lá, lá, rã, lá, lá.
Em seguida, pôs-se de joelhos em cima de uma cadeira, e Biscainho, que o espreitava pela abertura da porta, supôs que ele Se achava a rezar.
Até então, Gillenormand nunca acreditara em Deus.
A cada nova fase que o rapaz ia experimentando nas suas melhoras, sempre crescentes, o pobre velho saía fora de si, pra cando um sem número de acções maquinais cheias de alegria, subindo e descendo as escadas sem saber porquê.
Um dia mandou um ramo a uma vizinha, realmente bonita, que ficou maravilhada de semelhante presente.
Tentava agarrar Nicolette para a sentar nos joelhos.
Chamava a Mário senhor barão e às vezes punha-se a gritar:
— Viva a República!
A cada instante perguntava ao médico:
— Já não há perigo nenhum, pois não?
Olhava para Mário com ternura de avô, e, enquanto ele comia, não cessava de o contemplar com afectuosa expressão. Não queria saber de nada, andava fora de si; Mário é que era o senhor da casa, a alegria fazia-o abdicar, era o neto de seu neto.
O júbilo que experimentava tornava-o a mais veneranda das crianças.
Temeroso de fa gar ou importunar o convalescente, ia pôr-se por trás dele para lhe sorrir.
Andava contente, fora de si, parecia ter remoçado.
Os cabelos brancos acrescentavam-lhe uma serena majestade à luz alegre que se lhe reflectia no rosto.
Quando às rugas se junta a graça, a velhice parece circundada de uma auréola.
Pelo que diz respeito a Mário, a sua ideia fixa, no meio dos seus padecimentos, era Cosette.
Desde que o abandonara a febre e o delírio, não tornara a pronunciar este nome, de modo que poderia crer-se que já se não lembrava dele. Mas ele não o proferia, justamente porque era esse o seu constante pensamento.
Mário não sabia o que era feito de Cose e; as cenas da rua de Chanvrerie apenas confusamente lhe vinham à memória; Eponina, Gavroche, Mabeuf, os Thenardier, todos os seus amigos confundidos; lugubremente no fundo da barricada, eram; outras tantas
sombras quase indis ntas flutuando-lhe no espírito; a singular aparição de Fauchelevent no meio daquela sanguinolenta aventura parecia-lhe um enigma no meio de uma tempestade; não compreendia nada da sua própria vida, não sabia como nem por quem nha sido salvo, e nenhum dos que o rodeavam lho podia tão-pouco declarar; o mais que nham sabido dizer-lhe era que havia sido transportado de noite num carro para a rua das Mulheres do Calvário; passado, presente, futuro, tudo isto se lhe apresentava sob as formas nevoentas de uma ideia vaga; porém, no meio deste nevoeiro, havia um ponto imóvel, um lineamento claro e límpido, um como vulto de granito, uma resolução, uma vontade — saber onde estava Cosette.
Para ele a ideia da vida confundia-se com a ideia de Cose e; havia decretado no seu coração que não aceitaria uma sem outra, e estava inabalavelmente resolvido a exigir de quem quer que fosse que O quisesse constranger a viver, de Seu avô, da sorte, do inferno, a restituição do seu perdido Éden.
Obstáculos bem sabia ele. que os havia de encontrar.
Cumpre fazer um reparo: a ternura e solicitude de seu avô para com ele pouca impressão lhe nham causado. Primeiro porque não estava ao facto de tudo o que ele nha pra cado durante a sua longa enfermidade; segundo porque, no meio das suas cogitações de doente, talvez ainda febris, desconfiava destas carícias, como de uma coisa estranha e nova que nha por fim captar-lhe a benevolência. Por isso não se deixava levar por elas, de modo que o pobre velho gastava sem proveito os seus sorrisos.
Estava Mário capacitado de que tudo aquilo duraria simplesmente enquanto ele não falasse nem opusesse resistência ao que lhe faziam, mas que, quando se tratasse de Cose e, mudariam as coisas de figura, assumindo então seu avô a a tude que lhe era par cular. Então recomeçaria a luta; recrudescência das questões de família, confrontação de posição, toda a espécie de sarcasmos e abjecções; Fauchelevent, Coupelevent, a fortuna, a pobreza, a miséria, a pedra ao pescoço, o futuro. Resistência violenta, conclusão recusa.
Mário, porém, não desanimava.