Os Miseráveis
II — Perspicácia de mestre Scaufflaire
virtude. A sua veracidade imperturbável tornara-a quase célebre na congregação. O
abade Sicard, numa carta ao surdo-mudo Massieu, fala da irmã Simplícia. Por mais puros e sinceros que sejamos, andamos todos, apesar da nossa candura, mais ou menos eivados de pequenas e inocentes men ras. Ela não. Existe acaso pequena men ra, ou men ra inocente? Men r é maldade absoluta. Não é possível men r pouco ou muito, quem mente, mente. A men ra é a própria face do demónio; Satanás, além deste nome, chama-se também men ra. Era assim que ela pensava, e as suas acções harmonizavam-se com o seu modo de pensar. Daí resultava aquela brancura de que falámos, brancura que se lhe irradiava nos lábios e nos olhos. Era branco o seu sorriso, branco o seu olhar.
Não havia uma teia de aranha, um grão de poeira, no espelhado daquela consciência.
Entrando na obediência de S. Vicente de Paulo, adoptara o nome de Simplícia, por escolha especial. Simplícia da Sicília, como se sabe, foi a santa que preferiu deixar que lhe arrancassem os dois peitos, a responder que nascera em Segesto, tendo nascido em Siracusa, mentira que a salvaria. A uma tal alma era a padroeira que convinha.
Quando a irmã Simplícia entrou para a Ordem, nha dois defeitos de que a pouco e pouco se foi corrigindo; gostava de gulodices e de receber cartas. Depois, porém, não lia senão num livro de orações, de caracteres grandes e em la m. Ela não entendia o la m, mas compreendia o livro.
A piedosa religiosa afeiçoara-se a Fan ne, por sen r nela talvez virtude latente, e consagrara-se quase exclusivamente a tratá-la.
Madelaine chamou de parte a irmã Simplícia e recomendou-lhe Fan ne, com um tom de voz singular, de que mais tarde ela se recordou.
Depois que deixou a irmã, aproximou-se de Fan ne, a qual esperava todos os dias a aparição de Madelaine, como se espera um raio de calor e de alegria. Dizia ela às irmãs:
«Eu não vivo senão quando vejo o senhor maire».
Nesse dia estava ela com um grande acesso de febre. Apenas viu Madelaine, perguntou-lhe:
— E Cosette?
Ele respondeu-lhe, sorrindo:
— Não tarda.
Madelaine conversou com Fan ne como de costume. Somente, em vez de meia hora, demorou-se uma, com grande contentamento da infeliz. Fez mil recomendações a todos para que nada faltasse àenferma. Houve um momento em que a fisionomia se lhe tornou demasiadamente sombria, o que foi notado pelas pessoas presentes. Mas isso ficou explicado, quando se soube que o médico lhe dissera ao ouvido: «Tem piorado muito».
Voltou depois para a administração, e um funcionário viu-o examinar com toda a atenção um mapa das estradas de França, que se achava suspenso na parede do seu gabinete e tomar depois alguns apontamentos a lápis num bocado de papel.
II — Perspicácia de mestre Scaufflaire
Em seguida, Madelaine saiu da administração e dirigiu-se ao extremo da cidade, a casa de um flamengo chamado Scaufflaire, nome que depois de afrancesado ficou sendo
Scaufflaire, que alugava cavalos e carruagens O caminho mais curto para ir a casa deste Scaufflaire, era tomar por uma rua pouco frequentada, onde ficava o presbitério da freguesia em que Madelaine habitava, e cujo abade, segundo se dizia, era um homem digno, respeitável e de bom conselho. No momento em que Madelaine chegou em frente do (presbitério, ia a passar na rua uma única pessoa, a qual reparou no seguinte: O maire, depois de ter passado para lá da residência paroquial, parou, esteve imóvel durante algum tempo, voltou depois para trás e caminhou de novo até ao presbitério; em seguida, levando a mão à argola de ferro que havia na porta, levantou-a, suspendendo logo o movimento, permaneceu por um instante pensa vo e, passados alguns segundos, em vez de deixar cair de repente a argola, pô-la brandamente em descanso e con nuou o seu caminho, com uma certa pressa que antes não parecia levar.
Madelaine encontrou em casa mestre Scaufflaire, ocupado em consertar uns arreios.
— Mestre Scaufflaire — perguntou ele —, tem algum cavalo que seja bom?
— Senhor maire — disse o flamengo —, todos os meus cavalos são bons. O que entende o senhor por um bom cavalo?
— Entendo que é um bom cavalo o que pode andar vinte léguas num dia.
— Diabo! Vinte léguas!
— Sim.
— Atrelado a um cabriolet?
— Sim.
— E quanto tempo descansará ele depois?
— Em caso de necessidade, deve poder continuar no outro dia.
— Para fazer outra vez a mesma caminhada?
— Sim.
— Diabo! Diabo! E são vinte léguas?
Madelaine rou do bolso o papel em que tomara os apontamentos e mostrou-os ao flamengo. Eram os números 5, 6, 8 1/ 2.
— Bem vê — disse ele. — Soma dezanove e meia, que é o mesmo que dizer vinte léguas.
— Senhor maire — tornou o flamengo — tenho com que o servir. Já deve ter visto passar algumas vezes o meu cavalo branco; é um animal pequeno, do Bas-Bolognais, mas muito fogoso. Quiseram primeiro fazê-lo cavalo de sela, mas ninguém foi capazde o montar que não fosse para o chão. Julgaram-no vicioso e não sabiam o que haviam de fazer dele Foi então que o comprei e me -o logo ao cabriolet Era o que ele queria, tornou-se manso como um cordeiro e ligeiro como o vento. Cada um tem a sua ambição.
Lá para sela é que ele não estava disposto. Puxar a um carro, quanto quiserem; levar alguém em cima, isso é que não.
— E será capaz de fazer a jornada?
— Andará as vinte léguas, sempre a galope e em menos de oito horas. Mas vou dizer-lhe as condições.
— Queira dizer.
— Em primeiro lugar, dar-lhe-á uma hora de descanso a meio caminho; comerá a ração, mas estará alguém ao pé dele, para evitar que o moço da estalagem lhe roube a aveia, porque tenho notado muitas vezes que nas estalagens é quase sempre a aveia mais bebida pelos moços do que comida pelos cavalos.
— Tomar-se-á sentido nisso.
— Em segundo lugar, o... cabriolet é para o senhor maire?
— É.
— O senhor maire sabe guiá-lo?
— Sei.
— Nesse caso, o senhor maire viajará só e sem bagagem, para não sobrecarregar o cavalo.
— Está combinado.
— Mas não levando ninguém consigo, será obrigado a dar-se ao incómodo de vigiar por si mesmo a ração.
— Não tenho dúvida nisso.
— Dar-me-á trinta francos por dia, incluindo os de descanso, nem menos um real, ficando o sustento do animal por conta do senhor maire.
Madelaine tirou três napoleões da bolsa e pô-los sobre a mesa.
— Aqui estão dois dias adiantados.
— Além do que já disse, um cabriolet seria demasiadamente pesado e fa garia o cavalo em tão grande extensão. Era preciso que o senhor maire acedesse a fazer ajornada num pequeno tilbury que aí tenho.
— Não vejo nisso inconveniente.
— É muito ligeiro, mas descoberto.
— Isso para mim é indiferente.
— Mas o senhor maire já reflectiu que estamos no Inverno?
Madelaine não respondeu e o flamengo continuou:
— Que faz muito frio? Que pode chover?
Madelaine ergueu a cabeça e disse:
— O cavalo e o tilbury que estejam amanhã, às quatro horas e meia da madrugada, à porta da minha casa.
— Está combinado, senhor maire — respondeu Scaufflaire. Depois, raspando com a unha do polegar uma nódoa que havia na mesa, con nuou com o ar de indiferença que os flamengos sabem tão bem aliar à finura de que são dotados. — Mas, agora me lembro. O senhor maire não me disse qual é o seu destino. Aonde vai?
Mestre Scaufflaire desde o principio da conversa que não pensava noutra coisa, mas não sabia porque não ousara ainda fazer esta pergunta.
— O cavalo tem as pernas dianteiras boas? — perguntou Madelaine.
— Tem, sim, senhor maire, mas sempre é bom sofreá-lo alguma coisa nas descidas. Há muitas descidas até aonde vai?
— Não se esqueça de que deve estar à minha porta às quatro horas e meia em ponto
— respondeu Madelaine, saindo logo em seguida.
O flamengo ficou com «cara de asno», como ele próprio disse algum tempo depois. O
maire nha saído havia dois ou três minutos, quando a porta se tornou a abrir, dando-lhe entrada novamente. Tinha ainda o mesmo ar impassível e preocupado.
— Senhor Scaufflaire —, disse ele —, em quanto avalia o cavalo e o tilbury que me aluga, conduzindo um ao outro?
— Um arrastando o outro, senhor maire? — disse o flamengo, soltando uma gargalhada.
— Pois seja assim. E então?
— O senhor maire quer comprar-mos?
— Não, mas quero garan r-lhos para o que possa acontecer. Quando eu voltar restituir-me-á o dinheiro. Vamos, em quanto avalia o tilbury e o cavalo?
— Em quinhentos francos
— Aqui os tem.
Madelaine pousou uma nota em cima da mesa e saiu, mas desta vez não tornou a entrar.
Mestre Scaufflaire las mou profundamente não ter pedido mil francos, porque cavalo e tilbury não valiam juntos, cem escudos.
O flamengo chamou a mulher, contou-lhe o facto e logo ambos celebraram conselho.
— Aonde irá o senhor maire?
— Vai a Paris — disse a mulher.
— Não creio — respondeu o marido.
O flamengo pegou no papel em que Madelaine traçara os algarismos e que ele por esquecimento deixara em cima do fogão e pôs-se a estudá-lo.
— Cinco, seis, oito e meia? Isto deve marcar as mudas da posta. — Em seguida voltou-se para a mulher. — Já sei.
— O quê?
— Olha: daqui a Hesdin são cinco léguas, de Hesdin a Saint-Pol, são seis, e dali a Arras oito e meia. Vai a Arras.
Madelaine, entretanto, nha ido para casa. Voltando da de Scaufflaire, tomara pelo caminho mais comprido, como se a porta do presbitério fosse uma tentação que ele quisesse evitar. Subira para o seu quarto e fechara a porta, o que não nha nada de extraordinário, porque gostava de se deitar cedo Todavia, a porteira da fábrica, que era ao mesmo tempo a única criada de Madelaine, observou que a luz que ele nha acesa se apagara às oito horas e meia e disse-o ao caixeiro quando este entrou, acrescentando:
— O senhor maire está doente? Pareceu-me notar-lhe um ar tão esquisito!
O caixeiro, que habitava um quarto situado exactamente por baixo do de Madelaine, não prestando atenção às palavras da porteira, deitou-se e adormeceu. Seria porém, meia-noite, quando acordou sobressaltado; ouvira através do sono um ruído por cima da sua cabeça e pôs-se à escuta. Era um som de passos que iam e vinham, como se alguém andasse a passear no quarto de cima. Escutou mais atentamente e reconheceu o andar de Madelaine. Isto pareceu-lhe estranho, porque de ordinário não se ouvia ruído de espécie alguma no quarto do maire antes da hora em que ele costumava levantar-se.